
Conhecido como “blueberry”, o mirtilo começa a ganhar atenção também em Mato Grosso do Sul. Enquanto a fruta azulada conquista espaço na Serra Catarinense, técnicos e pequenos produtores sul-mato-grossenses observam o cultivo como uma oportunidade de diversificação e de aumento de renda em pequenas propriedades rurais.
Segundo a Embrapa Agropecuária Oeste, estudos realizados em Dourados e Ponta Porã mostraram viabilidade produtiva do mirtilo em áreas de clima mais ameno e solo corrigido, com resultados promissores. O trabalho busca identificar espécies adaptadas ao Cerrado que possam gerar renda para agricultores familiares.
“Nos últimos anos temos avaliado o comportamento de pequenas frutas, como o mirtilo, a framboesa e a amora-preta, que possuem grande valor agregado. Há um interesse crescente de produtores locais e o mercado consumidor está em expansão”, explica César Fialho, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste.
Fruta de alto valor e ciclo rápido
O mirtilo é considerado uma fruta nobre, rica em antioxidantes, com alta aceitação no mercado interno e externo. No varejo, o quilo pode alcançar R$ 60, e no atacado, R$ 30, segundo dados da Ceagesp.
O cultivo, que pode começar a produzir já no segundo ano após o plantio, se mostra atrativo para quem busca retorno mais rápido que o da silvicultura ou pecuária extensiva.
Em Santa Catarina, propriedades como a Palm Berries, em Palmeira, colhem até dez toneladas por hectare, com faturamento médio de R$ 250 mil por safra. Para especialistas, o modelo pode ser adaptado a áreas de clima mais ameno do Sul de Mato Grosso do Sul, especialmente nas regiões de Sete Quedas, Amambai e Ponta Porã.

Agregação de valor e turismo rural
Em estados como Minas Gerais e Paraná, o cultivo de mirtilo vem sendo incorporado ao turismo rural, com colheitas abertas e produção artesanal de geleias, licores e sucos naturais. Essa tendência também começa a surgir no interior sul-mato-grossense, segundo técnicos da Agraer.
“O interesse está crescendo, especialmente entre famílias que já trabalham com fruticultura e querem ampliar o mix de produtos. O mirtilo tem alto valor por quilo, boa aceitação e pode fortalecer o turismo e o mercado local”, afirma Rosimeire Pacheco, engenheira agrônoma da Agraer em Itaquiraí.
Desafios e próximos passos
Apesar do potencial, o cultivo do mirtilo ainda enfrenta desafios. A fruta exige solos bem drenados, com pH mais ácido (entre 4,5 e 5,5), além de boas condições de irrigação e sombreamento parcial. Segundo os pesquisadores da Embrapa, a adaptação genética será o principal fator para consolidar a cultura no estado.
“Não se trata de substituir as culturas tradicionais, mas de diversificar. O mirtilo é uma alternativa para pequenas áreas, com foco em valor agregado, e pode se tornar uma boa fonte de renda complementar”, avalia Fialho.
Enquanto os testes avançam, o pequeno fruto azul segue despertando curiosidade e expectativa entre produtores sul-mato-grossenses. Afinal, em um estado que se destaca pela soja, pecuária e floresta plantada, o mirtilo surge como um novo símbolo de inovação no campo — pequeno no tamanho, mas grande no potencial de transformação.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
