
O agronegócio segue sendo um dos pilares capazes de manter o Brasil em trajetória de crescimento econômico, mesmo diante de políticas públicas insuficientes e restrição de crédito que pressionam produtores. Nesta semana, o Boletim Focus compilado pelo Banco Central elevou a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2025 de 2,16% para 2,25% — um ajuste pequeno, mas que confirma a expectativa de crescimento moderado após o desempenho de 2024.
Segundo o próprio release, o PIB fechou 2024 com alta de 3,4% — o quarto ano consecutivo de expansão e a maior variação desde 2021. O avanço recente da economia foi puxado por serviços e indústria, mas especialistas e agentes do mercado destacam que o agronegócio cumpriu papel estrutural essencial, fornecendo divisas de exportação, gerando empregos no interior e alimentando cadeias produtivas que se refletem no consumo e na produção industrial.
Projeção e cenário macro
O mercado financeiro projeta agora um crescimento de 2,25% para 2025 e expectativas de 1,8% para 2026, 1,84% para 2027 e 2,0% para 2028 (dados do Boletim Focus, conforme o release). Esses números convergem para um cenário de crescimento mais lento do que em 2024, mas suficiente para manter um círculo virtuoso de produção em segmentos com maior competitividade internacional — entre eles, o agro.
O boletim também traz expectativas para inflação e câmbio que impactam diretamente os produtores: projeção de IPCA em 4,4% para 2025 e cotação do dólar em R$ 5,40 no fim de 2025 (com R$ 5,50 estimados para fim de 2026). Em ambiente de juros elevados — a Selic está indicada em 15% ao ano conforme o Copom — o crédito rural encarece, aumentando o custo de investimento e de giro para produtores que já enfrentam escassez de programas públicos de financiamento com juros compatíveis.
Por que o agro segura a economia
- Resiliência produtiva: produtores têm buscado eficiência — melhores práticas de manejo, genética, tecnologia de alimentação e monitoramento — que aumentam produtividade sem necessidade proporcional de grande capital público.
- Exportações: o setor continua sendo grande gerador de divisas, com mercados consumidores demandando carnes, grãos e bioenergia. Essas receitas em dólar ajudam a manter o fluxo externo e contribuem para o desempenho agregado da economia.
- Integração com indústria e serviços: cadeias de processamento, logística e comércio interior ampliam os efeitos multiplicadores do agro sobre o PIB.
- Adaptação frente a restrições: diante de cortes, redução de programas e juros elevados, muitos produtores optam por investimentos incrementais, parcerias e contratos de longo prazo com empresas integradoras para mitigar risco.

Impactos práticos para o produtor
- Juros altos (Selic projetada em 15% ao ano) encarecem custeio e investimentos. Isso limita a capacidade de renovação de equipamentos e ampliação de áreas de produção, sobretudo para médios e pequenos produtores.
- Ainda assim, as cadeias de valor têm mostrado capacidade de absorver parte desse choque por meio de maior produtividade e contratos de comercialização.
- Onde há políticas estaduais e iniciativas privadas de crédito e assistência técnica, a capacidade de resposta dos produtores é muito superior — o que reforça a importância de políticas públicas eficazes e de cooperação entre setor privado e governos locais.
O que falta — e o que o governo poderia fazer
Produtores e entidades do setor costumam apontar medidas que ajudariam a transformar a resiliência em impulso sustentável: linhas de crédito rural com prazos e juros adequados à produção, investimentos em infraestrutura logística (rodovias, ferrovias, portos), maior apoio à pesquisa agropecuária e expansão de programas de assistência técnica para pequenos e médios produtores. Sem isso, o agro pode continuar a carregar boa parte do crescimento do país — mas com maior vulnerabilidade a choques globais e financeiros.
Os números do Boletim Focus e do IBGE (citados no release) mostram que a economia brasileira segue crescendo, ainda que de forma mais moderada após o boom de 2024. O agronegócio permanece peça-chave nessa equação: entrega produtividade, exportações e emprego, e faz isso mesmo diante de limitações de crédito e do que muitos produtores descrevem como descaso em políticas públicas. Se a meta é transformar crescimento em desenvolvimento mais amplo e resiliente, a resposta passa por mais investimentos públicos e privados direcionados a infraestrutura, crédito e inovação no campo.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
