
Mesmo em um cenário historicamente desafiador, o agronegócio brasileiro voltou a cumprir seu papel em 2025: produziu mais, aumentou a oferta de alimentos e ajudou a conter a inflação, contrariando expectativas sazonais de alta nos preços ao consumidor. O alívio sentido no bolso das famílias ao longo do ano não foi fruto de política pública eficiente, mas sim da combinação entre uma safra agrícola recorde e a valorização momentânea do real frente ao dólar.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que o Brasil colheu 317,5 milhões de toneladas de grãos em 2025, uma das maiores safras da história. Esse avanço na produção ampliou a oferta interna e pressionou para baixo os preços de itens básicos, especialmente arroz, feijão, batata, leite e hortifrutigranjeiros, conforme levantamento do IBGE.

O reflexo foi imediato no índice oficial de inflação. Segundo o IPCA-15, do IBGE, os preços da alimentação no domicílio subiram apenas 1,94% em 2025, após sete meses consecutivos de queda. Produtos essenciais registraram reduções expressivas, como arroz (-26,04%), feijão preto (-31,82%) e leite longa-vida (-10,42%). Ou seja: o campo produziu, entregou e ajudou a segurar os preços.
Câmbio ajudou, mas não por mérito da política econômica
O fator decisivo para esse alívio adicional foi o câmbio. Dados do Banco Central indicam que o dólar médio caiu cerca de 10% ao longo de 2025, encerrando o ano próximo de R$ 4,45. Esse movimento reduziu custos de insumos importados, fertilizantes, máquinas e defensivos, além de desestimular exportações, forçando maior oferta no mercado interno.

“A gente sabia que alimentos iam ser melhores neste ano por conta da safra, mas ninguém imaginava que teria ajuda tão forte do câmbio”, afirmou Maria Andreia Parente Lameiras, técnica do Ipea.
No entanto, especialistas são unânimes em apontar que esse cenário não é estrutural e tampouco resultado de uma política econômica consistente. Pelo contrário.
Política fiscal e ano eleitoral ameaçam preços em 2026
A expectativa para 2026 é bem menos favorável. Mesmo com nova safra volumosa, o ambiente político tende a pressionar o dólar, encarecendo alimentos e corroendo novamente o poder de compra da população.
Segundo André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Ibre/FGV, o ano eleitoral amplia a desconfiança do mercado em relação ao controle de gastos públicos.
“Normalmente é um ano de maior incentivo fiscal. Isso mantém o ruído em torno da política fiscal e impede uma valorização mais forte do real”, afirmou Braz.
Na prática, isso significa que o agro pode até produzir mais, mas parte relevante dessa produção tende a ser exportada, pois o câmbio desvalorizado torna o mercado externo mais atrativo. O resultado é simples: menos oferta interna e preços mais altos para o consumidor brasileiro.
Inflação volta a pressionar alimentos
O próprio Ipea revisou suas projeções. A estimativa de alta dos preços de alimentos em 2025 caiu de 4,4% para 2,1%, mas para 2026 a previsão volta a subir, chegando a 4,2%, puxada principalmente pelas carnes e pelo câmbio mais depreciado.

A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, é direta ao apontar o problema:
“A depreciação do câmbio deve pegar na parte de alimentos também.”
Ou seja, o produtor faz a sua parte, investe, assume riscos climáticos, amplia produtividade e abastece o país. O que impede uma queda mais duradoura dos preços não está no campo, mas sim em Brasília, na condução fiscal, na instabilidade política e na incapacidade do Estado de oferecer previsibilidade econômica.
Os dados são claros: quando o agro produz e o câmbio ajuda, os preços caem. Mas sem responsabilidade fiscal, segurança institucional e política econômica consistente, esse alívio é passageiro. O Brasil segue refém de um modelo onde o produtor entrega resultados, enquanto a política cria obstáculos — e quem paga a conta, mais uma vez, é o consumidor.
Por: Amanda Coelho
