Carne bovina deve ficar mais presente no mercado interno em 2026, e MS ganha papel estratégico no ajuste

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Depois de um 2025 histórico para o setor de proteína bovina — com 3,1 milhões de toneladas exportadas, alta de 21,4% e recorde de faturamento (Scot Consultoria) — o Brasil entra em 2026 diante de uma equação nova: menos espaço para exportar e mais carne à disposição do consumidor doméstico.

O movimento decorre principalmente da mudança de regras nos dois principais canais de destino: China e México. A China adotou cotas e tarifa adicional de 55% para volumes excedentes, válidas até 2028, enquanto o México estabeleceu cota de 70 mil toneladas para isenção de tarifas, cobrando 20% acima desse limite.

Exportação brasileira de carne bovina in natura.

Fonte: Secex / Elaboração: Scot Consultoria

O USDA projeta que o Brasil pode exportar 5,9% menos em 2026 — e se China e México comprarem apenas os volumes previstos, o recuo pode chegar a 600 mil toneladas equivalentes carcaça, o que significaria o maior desvio de carne para o consumo interno desde o início da década.

Oferta doméstica tende a subir e mudar dinâmica de preços

Em 2025, 65,8% da produção brasileira ficou no mercado interno — a menor participação desde 2010. Para 2026, o USDA estima leve aumento da oferta doméstica (+0,2 p.p.), justamente porque a produção recuará menos que a exportação.

Isso indica dois efeitos complementares:

  1. Mais carne para o consumidor brasileiro
  2. Alívio competitivo frente a suínos e frango, que vinham ganhando espaço desde 2022

Com o desemprego nos menores níveis desde 2015 (IBGE), renda em recuperação e isenção do IR até R$ 5 mil aprovada no fim de 2025, o setor espera reação do consumo interno, historicamente sensível a preço.

Participação (%) da exportação e do mercado interno na produção brasileira de carne bovina.

*estimativa – Fonte: USDA Elaboração: Scot Consultoria.

E o MS dentro desse equilíbrio?

O Mato Grosso do Sul é peça importante nesse ajuste de mercado. Em 2024, o estado embarcou 194,7 mil toneladas de carne bovina, movimentando US$ 1,07 bilhão, com forte presença de plantas habilitadas para mercados premium.

Se o volume nacional exportado desacelerar, parte da carne que antes cruzaria fronteiras tende a ficar no mercado doméstico — e, no caso do MS, uma fatia pode ser redirecionada para o próprio consumo interno, especialmente em polos urbanos como Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá, onde o varejo absorve proteína com boa elasticidade-preço

Dados: IBGE e Abiec

Ao mesmo tempo, a pecuária sul-mato-grossense opera com rebanho de 22,4 milhões de cabeças, forte presença de confinamento e ciclo de tecnificação acelerado, o que sinaliza capacidade de manter competitividade mesmo em cenários menos exportadores.

Produtor não perde — mas o jogo muda

O cenário não indica prejuízo ao pecuarista. Pelo contrário:

  • A produção deve cair 5,3% em 2026
  • A oferta de boiadas tende a reduzir
  • E o mercado interno vem mais comprador

Renda, inflação sob controle e eleições tendem a manter a cadeia aquecida. Com Copa do Mundo nas Américas, EUA e México — dois dos cinco principais destinos da carne brasileira — seguem relevantes no curto e médio prazo.

Cotação média da carne bovina no mundo, US$/kg.

Fonte: Global Product Prices / Elaboração: Scot Consultoria

No varejo, consumidor pode sentir melhora de oferta

Não se trata de queda abrupta de preços, mas sim de mais produto nas gôndolas e competitividade entre proteínas, algo que não ocorria com intensidade desde 2018–2019.

Para estados exportadores como o MS, o impacto tende a ser duplo:

  1. O setor segue forte exportador
  2. A carne circula mais internamente e a indústria mantém ritmo

Conclusão crítica

Se 2025 foi o ano da exportação recorde, 2026 pode ser o ano do reequilíbrio da carne dentro do Brasil. E, nesse arranjo, o Mato Grosso do Sul aparece como hub relevante, capaz de exportar quando o mundo demanda e abastecer o mercado nacional quando o comércio externo pressiona.

Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
Com informações: Scot Consultoria, IBGE, USDA, CEPEA, Famasul, Semadesc e Abrafrigo