
O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins da Silva Junior, fez duras críticas às atuais condições econômicas que impactam o setor agropecuário, durante entrevistas concedidas ao portal CNN Agro e à CNN Money, nesta quarta-feira (11).
Entre os principais pontos abordados estão os juros elevados, o aumento das recuperações judiciais no campo, a necessidade de fortalecimento do seguro rural e a posição contrária à imposição do fim da escala 6×1 por meio de lei.
Juros “impraticáveis” e financiamento do agro
Para João Martins, as taxas de juros atuais são “impraticáveis” para um setor que trabalha com margens estreitas. Segundo ele, o crédito caro dificulta a reorganização financeira dos produtores e pressiona especialmente aqueles que enfrentam dificuldades momentâneas.
O dirigente destacou ainda que o agro brasileiro vem reduzindo sua dependência de recursos públicos. “Hoje mais de 70% do financiamento do agro não vem do Estado, um número que vem aumentando”, afirmou. De acordo com ele, o setor é financiado por três principais fontes: empresas privadas (inclusive multinacionais), os próprios produtores e o governo.
Martins ressaltou que a agricultura familiar ainda depende mais fortemente de políticas públicas e sofre com burocracia para acessar financiamento. Também apontou o capital estrangeiro como peça importante para sustentar o crescimento do setor.
Recuperações judiciais e “excessos”
Outro tema abordado foi o aumento das recuperações judiciais no agronegócio. Para o presidente da CNA, o número elevado representa “um abuso” e foge do padrão histórico do setor.
Ele lembrou que a inadimplência tradicionalmente ficava abaixo de 2%, mas atualmente estaria em torno de 12%. Na avaliação de Martins, parte desse movimento decorre de “excessos” cometidos em momentos de alta rentabilidade, quando produtores realizaram investimentos e compras além do necessário.
Apesar disso, ele não defende mudanças na legislação para conter o avanço das recuperações judiciais. “O tempo vai devolver isso”, afirmou, classificando o momento como uma “arrumação na casa”, que deve ser passageira — desde que haja melhora nas condições de juros.

Seguro rural como prioridade
Se por um lado defende menor dependência do Estado no financiamento, por outro Martins considera essencial a atuação governamental no seguro rural. Ele classificou o instrumento como “vital” em um país de grande diversidade climática e risco produtivo.
A CNA propôs a destinação de R$ 3 bilhões para subsidiar o seguro rural dentro do projeto de modernização do sistema, em discussão no governo há cerca de três anos. Atualmente, apenas cerca de 3% da produção brasileira está coberta por seguro, percentual muito abaixo de países como os Estados Unidos, onde a cobertura supera 90%.
Escala 6×1 e jornada de trabalho
Na área trabalhista, João Martins se posicionou contra a “imposição” do fim da escala 6×1 e da redução da jornada por meio de nova lei ou emenda constitucional.
Segundo ele, a agropecuária possui realidades distintas entre atividades, e eventuais mudanças precisam ser negociadas e adaptadas às especificidades de cada segmento. “O que não pode é ser imposto assim e dizer que, de hoje em diante, precisa ser de tal maneira”, declarou.
Ele acrescentou que o próprio setor tende a se ajustar com o avanço da automação, da inteligência artificial e de modelos diferenciados de organização do trabalho.
Mercado de trabalho
Martins também questionou os dados oficiais sobre desemprego no país. Embora os indicadores apontem taxa próxima de 6%, ele afirmou acreditar que exista um “desemprego mascarado”, atribuindo parte dessa distorção à expansão de programas sociais.
Nas entrevistas à CNN Agro e à CNN Money, o presidente da CNA traçou um panorama de ajuste no agronegócio brasileiro: um setor menos dependente de recursos públicos, mas pressionado por juros elevados, enfrentando reequilíbrio financeiro e defendendo maior apoio estrutural ao seguro rural — ao mesmo tempo em que resiste a mudanças trabalhistas impostas de forma generalizada.
Por: Amanda Coelho
Com informações: CNN Agro
