
As perspectivas para o mercado de bioinsumos em 2026 indicam continuidade no crescimento da adoção e na expansão estrutural, especialmente na América Latina. No entanto, crescimento de mercado não significa necessariamente melhoria na qualidade dos negócios, segundo avaliação de Ignacio Moyano, vice-presidente de Desenvolvimento de Mercado para a América Latina da consultoria DunhamTrimmer.
Os insumos biológicos são produtos ou processos agroindustriais desenvolvidos a partir de enzimas, extratos vegetais, microorganismos, macroorganismos, metabólitos secundários e feromônios. São destinados ao controle biológico de pragas e doenças, à nutrição de plantas, à promoção de crescimento e à mitigação de estresses bióticos e abióticos. O mercado brasileiro oferece uma variedade de produtos, como inoculantes, biofertilizantes, bioestimulantes e biodefensivos, atendendo a diferentes demandas do setor agrícola.
Segundo Moyano, a América Latina reúne uma ampla base agrícola, maior participação em culturas voltadas à exportação e um ambiente regulatório e comercial que favorece soluções de menor impacto ambiental.
“Em 2026 veremos categorias que continuam crescendo em bom ritmo, mas também um ambiente muito mais competitivo, com maior pressão sobre preços e margens, especialmente em mercados e culturas onde a adoção já é elevada. A demanda existe e é real. O que começa a entrar em debate é quem captura valor dentro desse crescimento e quem apenas acompanha o volume sem construir um modelo rentável e defensável”, disse Moyano.
O mercado brasileiro de defensivos biológicos viveu uma forte expansão durante a pandemia e no período imediatamente seguinte, impulsionado pela alta de custos e pela escassez de insumos químicos. Com fertilizantes e defensivos convencionais chegando a dobrar ou triplicar de preço, os biológicos ganharam competitividade e avançaram rapidamente no campo.
Produção nacional
Segundo o co-CEO da Koppert Brasil, Gustavo Herrmann, cerca de 90% dos defensivos biológicos comercializados no país são produzidos no próprio Brasil. No caso da Koppert, multinacional holandesa com três fábricas instaladas no território nacional, a maior parte dos produtos vendidos no mercado brasileiro também tem fabricação local.
O ritmo acelerado, porém, criou distorções. “Houve um momento em que se criou a ilusão de que o mercado era maior do que realmente era. Crescemos 90% em um ano e 100% no outro, o que foi fantástico. Mas também surgiram novos entrantes que nem sempre detêm a tecnologia necessária para competir em um setor altamente competitivo, no qual é preciso entregar resultado”, afirmou.
O CFO da Vittia, empresa brasileira de biológicos, Alexandre Frizzo, afirmou que, durante este ‘boom’, os biológicos deixaram de ocupar um espaço marginal para se tornarem estratégicos no planejamento das propriedades rurais. Em sua avaliação, o setor passa por um processo de seleção natural. Empresas com maior capacidade técnica, escala, estrutura decustos eficiente e foco em rentabilidade tendem a se consolidar, enquanto companhias com fragilidades financeiras ou pouca diferenciação enfrentam dificuldades para se manter.
Segundo Moyano, esta consolidação do mercado deve ocorrer de forma gradual, por meio de aquisições estratégicas, compras defensivas e acordos de licenciamento que podem anteceder fusões e aquisições. Empresas com maior fôlego financeiro e estrutura de distribuição devem liderar esse processo, enquanto aquelas com bons produtos, mas limitações comerciais ou de capital, podem se tornar alvo.
Moyano acrescenta que fatores estruturais sustentam a demanda, como sistemas produtivos voltados à exportação, exigências quanto a resíduos e a busca por maior eficiência agronômica em um ambiente de custos elevados. Ele observa ainda que grandes companhias passaram a incorporar os bioinsumos de forma estrutural em seus portfólios, movimento que valida a categoria e, ao mesmo tempo, eleva o nível de concorrência.
“A gente entende o mercado de biológicos como um grande potencial, não só pelo apelo de sustentabilidade que é uma das principais bandeiras, mas também do lado do apelo que a gente enxerga no ganho para o produto, cotação de ingrediente ativo, de modo de ação dos produtos e menor toxicidade. E o Brasil sendo líder no uso dos defensivos biológicos”, disse Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank.
Moyano afirma que o principal desafio do setor na região não é a adoção das tecnologias, mas a rentabilidade. Em sua avaliação, a oferta de produtos e formulações cresce em ritmo superior ao da demanda rentável, o que pode gerar saturação de soluções similares e deslocar a concorrência para o preço.
“Observam-se estruturas comerciais superdimensionadas, pressão por volume, alongamento dos prazos de recebimento e uma gestão do capital de giro cada vez mais exigente. Nesse contexto, crescer sem foco pode corroer o Ebitda [lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização] de forma silenciosa, porém constante”, pontuou Moyano. “Por fim, existe um desafio claro de diferenciação real. O discurso técnico já não é suficiente. O mercado começa a premiar execução, serviço, foco e acesso efetivo ao produtor, mais do que a novidade do produto em si”, completou.
Ainda segundo Moyano, empresas com acesso consolidado ao mercado, relacionamento estruturado com canais de distribuição e capacidade de execução tendem a atravessar 2026 em condições diferentes daquelas que dependem predominantemente do portfólio de produtos.
Restrição de crédito
O contexto do agronegócio brasileiro também influencia o desempenho do setor. Hermann afirma que o agro atravessa um período de restrição de crédito, e “ todas as empresas de insumos estão sofrendo bastante”. “A gente sabe que ainda não estamos num momento de retomada. Só aumenta esse índice de recuperações judiciais no setor”, pontuou Herrmann.
Segundo ele, culturas como soja, milho, açúcar e etanol enfrentam pressão de preços, o que leva produtores a priorizar a redução de custos. Nesse cenário, o executivo avalia que os biológicos podem representar alternativa para manejo de pragas e doenças, ao permitir a redução de aplicações químicas e a reorganização do sistema de proteção.
Ele ressalta, contudo, que a própria empresa também sente os efeitos da restrição de crédito. De acordo com o executivo, há limitações na concessão de crédito a clientes em recuperação judicial ou extrajudicial, o que restringe de 20 a 30% das vendas. Ainda assim, a Koppert registrou crescimento de 11% na rentabilidade em 2025 na comparação com 2024, e espera crescer entre 15 e 20% em 2026 com o lançamento de produtos.
Frizzo afirma que o cenário de crédito mais seletivo atinge todos os segmentos do agronegócio. “Os juros altos, atrelados a uma rentabilidade mais baixa e margens mais apertadas para o produtor, continuam trazendo desafios financeiros para toda a cadeia. Sem uma mudança estrutural, um aumento do preço das commodities e consequentemente das margens dos produtores, teremos um ambiente onde o setor todo será impactado. Porém, as empresas menos alavancadas continuarão com capacidade de investimentos”, pontou.
No segmento de biológicos, Herrmann acrescenta que empresas com portfólio mais restrito ou menor nível tecnológico têm enfrentado maior dificuldade, inclusive com queda de preços acompanhando o movimento observado nos insumos químicos. Ele avalia que parte desse movimento pode ser transitório, ligado à busca dos produtores por alternativas de menor custo no curto prazo, inclusive com crescimento de produtos genéricos pós-patente.
Segundo o executivo, os biológicos tendem a ocupar espaço em situações em que o uso de químicos apresenta perda de performance, resistência de pragas e doenças ou necessidade de múltiplas aplicações, fatores que podem elevar o custo total do manejo. Para ele, enquanto o produtor prioriza o curto prazo diante do cenário atual, a indústria precisa considerar também estratégias de médio e longo prazo.
Por: CNN Agro
