
O uso de bebedouros acoplados com bico artificial se mostra uma alternativa eficaz para reduzir a sucção cruzada em bezerros leiteiros criados em grupo, tanto a pasto quanto em confinamento. A constatação é de um estudo conduzido pela Embrapa Pecuária Sudeste, em parceria com a Universidade Estadual Paulista, publicado (2025) na revista científica internacional Applied Animal Behaviour Science. A pesquisa analisou estratégias de manejo voltadas à melhoria do bem-estar animal, com foco na redução de comportamentos considerados indesejáveis e prejudiciais ao desenvolvimento dos bezerros.
O estudo avaliou bezerros da raça Jersolanda, oriunda do cruzamento entre Holandês e Jersey, comparando o comportamento dos animais quando tinham acesso à água por meio de bebedouros com bico artificial e por bebedouros abertos tradicionais. A sucção cruzada, caracterizada pela mamada entre os próprios bezerros, é um dos principais entraves à adoção de sistemas coletivos de criação, já que pode provocar lesões, inflamações e comprometer o desempenho produtivo ao longo da vida do animal.
De acordo com a pesquisadora Teresa Alves, da Embrapa, a origem desse comportamento está relacionada à limitação do instinto natural de sucção. A separação precoce da vaca e a oferta restrita de leite em horários determinados reduzem as oportunidades naturais de mamar, o que favorece a sucção cruzada. Nesse contexto, o acesso contínuo a um bico artificial, mesmo para ingestão de água, permite que o bezerro satisfaça essa necessidade ao longo do dia, reduzindo a ocorrência do problema.
Os resultados mostram que os bezerros que utilizaram bebedouros com bico apresentaram frequência média de sucção cruzada de cinco vezes ao dia, enquanto aqueles que tiveram acesso apenas a baldes abertos registraram cerca de nove episódios diários. A duração dos eventos foi semelhante nos dois tratamentos, e o comportamento ocorreu, em geral, após a amamentação com leite. Nos grupos com bebedouro aberto, a sucção cruzada foi direcionada com maior frequência a regiões sensíveis, como o umbigo, o escroto ou a base do úbere, o que eleva os riscos sanitários.
Segundo Matheus Deniz, professor da Unesp, em sistemas a pasto, onde o ambiente já é mais próximo do natural, a adoção dessa estratégia ganha ainda mais relevância. O estudo observou que os bezerros utilizaram os bebedouros com bico inclusive no período noturno, o que indica uma adaptação do comportamento para atender à necessidade de sucção. Essa adequação ocorreu sem prejuízo ao desempenho zootécnico, reforçando que a melhoria do bem-estar não compromete os índices produtivos.
O consumo de água foi semelhante entre os tratamentos. Os bezerros com acesso ao bico ingeriram, em média, cinco litros de água à noite e quatro litros durante o dia, enquanto os animais dos bebedouros abertos consumiram 5,5 litros à noite e cinco litros no período diurno. Apesar da diferença pouco expressiva, os pesquisadores observaram maior permanência dos animais no bebedouro com bico, uma vez que o mecanismo exige maior esforço de sucção, estimulando salivação, sensação de saciedade e satisfação do instinto de mamar.
A pesquisa também indicou que o método de fornecimento de água não influenciou a ingestão de leite, a frequência de visitas ao cocho de ração ou o tempo de consumo da ração inicial. O crescimento dos bezerros foi semelhante nos dois grupos, demonstrando que o bebedouro com bico atendeu plenamente às necessidades hídricas e sustentou o desenvolvimento esperado na fase de aleitamento e desmame.
Além dos efeitos comportamentais, o manejo coletivo associado ao uso dos bebedouros com bico apresentou vantagens operacionais. Os animais se mostraram mais dóceis, facilitando a lida diária, e o tempo de manejo de um grupo foi equivalente ao necessário para tratar os bezerros individualmente, o que contribui para a otimização da mão de obra nas propriedades leiteiras.
O experimento foi conduzido com 24 bezerros do sistema de produção de leite da Embrapa Pecuária Sudeste, mantidos em área de 770 metros quadrados, composta por capim Cynodon, dividida em piquetes com sombra artificial. As avaliações comportamentais e de crescimento foram realizadas semanalmente, do nascimento ao desmame, reforçando a consistência dos dados obtidos. Os resultados apontam que estratégias simples de manejo, alinhadas às necessidades naturais dos animais, podem reduzir riscos sanitários, melhorar o bem-estar e manter a eficiência produtiva nos sistemas de criação de bezerros.
Por: Embrapa
