
A escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos já ultrapassa o campo militar e começa a produzir reflexos concretos sobre o comércio global. O fechamento do Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta — e o aumento das tensões no Mar Vermelho colocaram o agronegócio mundial em estado de atenção.
Embora o Brasil esteja geograficamente distante do conflito, os impactos chegam por uma via conhecida: energia, logística e fertilizantes. E para estados fortemente integrados ao comércio exterior, como Mato Grosso do Sul — grande produtor e exportador de carne bovina, frango, soja, milho e celulose — o cenário exige monitoramento constante.
Frete mais caro e perda de competitividade
O Estreito de Ormuz é responsável por parcela relevante do transporte global de petróleo e também por rotas estratégicas de fertilizantes e grãos. Com o risco elevado na região, navios passaram a contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança, ampliando o tempo de viagem, o consumo de combustível e os custos operacionais.
Segundo Fernando de Bastiani, pesquisador do Esalq-LOG (USP), o fechamento da rota “encarece o transporte marítimo como um todo, tanto para as exportações de produtos agrícolas quanto para a importação de fertilizantes”.
O especialista em comércio exterior Jackson Campos alerta que o exportador brasileiro perde competitividade com o aumento logístico. “Mesmo longe geograficamente do conflito, o comércio exterior brasileiro passa a trabalhar com prazos mais longos, maior volatilidade e pressão sobre as margens”, afirma.
O impacto é sistêmico: aumento do bunker (combustível marítimo), sobretaxas de risco de guerra, prêmios de seguro mais elevados e menor disponibilidade global de navios.
Para Mato Grosso do Sul, que depende da eficiência logística para escoar proteína animal e grãos, qualquer elevação no frete internacional comprime margens e reduz competitividade frente a concorrentes como Estados Unidos e Argentina.
Petróleo em alta mexe com açúcar, etanol e inflação global
A disparada do petróleo também começou a influenciar diretamente as commodities agrícolas. Na Bolsa de Nova York, o açúcar atingiu o maior nível em um mês, impulsionado pela valorização do petróleo bruto. O mercado avalia que preços elevados da energia incentivam usinas brasileiras a direcionarem mais cana para produção de etanol, reduzindo a oferta global de açúcar.
Café e cacau também registraram volatilidade, pressionados por custos logísticos maiores e incertezas no tráfego marítimo.
Já o algodão sofreu com a combinação de petróleo e dólar fortes, cenário que eleva temores de inflação e desaceleração econômica global — fatores que tendem a reduzir o consumo de têxteis.

Fertilizantes sob pressão
O mercado de fertilizantes é um dos pontos mais sensíveis. Catar, Arábia Saudita e Irã estão entre os maiores exportadores mundiais de ureia, produto nitrogenado essencial para diversas culturas.
Após o agravamento do conflito, a ureia registrou alta de até 13% no mercado internacional, saltando para cerca de US$ 550 por tonelada no Egito. Nos Estados Unidos, o avanço foi de aproximadamente US$ 77 por tonelada em regiões portuárias estratégicas.
Analistas alertam que o mundo já enfrenta restrições no mercado de nitrogênio desde a crise energética europeia e a redução do gás russo. Um fechamento prolongado das rotas pode agravar a escassez e elevar ainda mais os custos.
Para o Brasil — que importa grande parte dos fertilizantes consumidos — o risco maior está na próxima safra. Mato Grosso do Sul, com forte presença em soja e milho, depende diretamente desses insumos para manter produtividade e competitividade.
Carnes e grãos: risco logístico, não de demanda
O Oriente Médio é um mercado relevante para o agro brasileiro. Milho, açúcar e carne de frango figuram entre os principais produtos exportados para a região.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou que monitora rotas alternativas e destacou que não há embarques significativos de frango para o Irã. Ainda assim, o setor reconhece que o problema é sistêmico: mesmo sem impacto direto na demanda, a logística pode ser afetada.
No caso do trigo, o primeiro movimento foi de antecipação de compras por parte de grandes importadores, como a Arábia Saudita. Posteriormente, o foco migrou para a segurança do transporte marítimo, após relatos de ataques a navios na região.

Apesar da volatilidade, a oferta global de trigo é considerada relativamente confortável, com Rússia e outros grandes produtores sustentando volumes elevados. No Brasil, os moinhos operam com estoques equivalentes a cerca de três meses de moagem, o que reduz o risco imediato de desabastecimento.
O efeito dominó
O conflito no Oriente Médio reforça uma característica já conhecida do agronegócio moderno: sua extrema sensibilidade à geopolítica.
A transmissão ocorre em cadeia:
- Alta do petróleo
- Elevação do frete marítimo
- Aumento dos custos de fertilizantes
- Pressão sobre margens de exportadores
- Volatilidade nas bolsas de commodities
Para Mato Grosso do Sul, que consolidou nos últimos anos sua posição como potência exportadora de proteína animal e grãos, o impacto pode surgir principalmente na competitividade internacional e nos custos de produção.
No curto prazo, o setor monitora rotas e contratos. No médio prazo, o comportamento do petróleo e a duração do conflito serão determinantes para medir o tamanho do impacto.
O campo brasileiro, acostumado a enfrentar desafios climáticos e de mercado, agora adiciona mais um fator de risco ao radar: a instabilidade geopolítica em uma das regiões mais estratégicas do comércio mundial.
Por: Amanda Coelho
Com informações: CNN Agro
