
Durante muito tempo, a imagem do agronegócio brasileiro esteve associada majoritariamente à figura masculina. Hoje, esse cenário muda rapidamente. Cada vez mais presentes na gestão de propriedades, nas decisões estratégicas e na sucessão familiar, as mulheres vêm consolidando seu espaço e se tornando protagonistas dentro da pecuária.
Esse avanço foi tema central do evento Mulheres da Pecuária, promovido pela Associação Sul-Mato-Grossense dos Produtores de Novilho Precoce, que reuniu produtoras, empresárias e profissionais do setor para discutir gestão, sucessão, tecnologia e os desafios do agronegócio moderno.
Além de celebrar o Dia Internacional da Mulher, o encontro teve como objetivo fortalecer a presença feminina no setor e estimular a troca de conhecimento entre produtoras de diferentes regiões do Estado.
A primeira-dama de Mato Grosso do Sul, Mônica Riedel, destacou que o crescimento da participação feminina tem papel importante no desenvolvimento do agro e da economia estadual.
“Busquem informação, busquem aprendizado, conversem com as pessoas e troquem experiências. A gente aprende com os erros e também com os acertos dos outros. Tenho certeza de que a mulher do agro participa ativamente do crescimento do Mato Grosso do Sul e também do Brasil”, afirmou.
Segundo ela, o cenário atual já demonstra uma mudança significativa em relação ao passado.
“Lá atrás poucas mulheres estavam à frente dos negócios. Hoje a realidade é diferente e a participação feminina é fundamental para o crescimento do nosso Estado”, completou.


Fortalecimento da rede feminina na pecuária
Para Rafaela Ribeiro, integrante da organização do encontro, iniciativas como o Mulheres da Pecuária são fundamentais para ampliar a presença feminina no setor e fortalecer a troca de experiências entre produtoras rurais.
Segundo ela, o evento foi pensado justamente para criar um ambiente de integração entre mulheres que atuam em diferentes regiões e etapas da cadeia pecuária.
“O que a gente busca com esse evento é promover networking e unir as mulheres do Estado. Hoje temos produtoras de várias regiões de Mato Grosso do Sul, como Três Lagoas, São Gabriel do Oeste, Camapuã e Chapadão. A pecuária é uma cadeia integrada e essa troca de experiências fortalece todo o setor”, destacou.
Rafaela também ressaltou que o papel da associação é estimular o acesso à informação e preparar as novas gerações para assumir responsabilidades dentro do agronegócio.
“Muitas mulheres hoje estão se preparando para assumir funções importantes dentro das propriedades ou mesmo nas empresas da família. Nosso objetivo é trazer conhecimento e mostrar que elas têm um papel fundamental no futuro da pecuária”, afirmou.


Mulheres cada vez mais presentes no agro
O crescimento da presença feminina no campo também aparece nos números. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, cerca de 19% das propriedades rurais brasileiras já são dirigidas por mulheres, o que representa mais de 900 mil estabelecimentos rurais sob liderança feminina no país.
Outro levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que as mulheres representam aproximadamente um terço da força de trabalho no agronegócio brasileiro, número que vem aumentando nos últimos anos, especialmente nas áreas de gestão, tecnologia e sucessão familiar.



Sucessão e liderança no agro
Entre os destaques do evento esteve a participação da empresária Jaqueline Casale, representante da segunda geração da tradicional empresa de equipamentos agropecuários Casale, com mais de seis décadas de atuação no setor.
Ela compartilhou sua experiência no processo de sucessão familiar e os desafios de atuar em um ambiente historicamente dominado por homens.
“Eu atuei na gestão executiva da empresa durante 12 anos. É um ritmo muito intenso e exige muita dedicação. A sucessão precisa ser planejada e construída ao longo do tempo”, explicou.
Segundo ela, a presença feminina traz novas habilidades importantes para o ambiente empresarial e para a gestão das propriedades rurais.
“A mulher tem uma comunicação muito forte e uma capacidade natural de construir pontes. Muitas vezes ela consegue mediar conflitos e contribuir para decisões mais equilibradas dentro das famílias e das empresas”, destacou.
Rotina de quem vive o agro
Além da gestão e da sucessão, o evento também abordou os desafios do dia a dia das mulheres que conciliam família, profissão e participação no agronegócio.
Para Thamilyn Machado Gratão, esposa do presidente da Novilho Precoce, a rotina exige organização e dedicação para equilibrar diferentes responsabilidades.
“Meu dia a dia é bem corrido. Eu divido entre a casa, ser esposa e mãe, cuidar das crianças e também o trabalho fora. Sou dentista e gosto muito do que faço. Quando a gente gosta do que faz e se dedica, tudo fica mais leve”, contou.
Ela também destacou que a participação feminina no setor passa, sobretudo, pelo acesso ao conhecimento.
“Tudo é possível quando a gente se organiza, estuda e busca se aprofundar. A mulher é capaz de fazer muito mais do que muitas vezes imagina”, afirmou.
Informação também é ferramenta de gestão
Outro tema abordado durante o encontro foi a reforma tributária e seus impactos no agronegócio, assunto considerado estratégico para produtores rurais.
A contadora rural Karoline Karsten explicou que o setor precisará se adaptar gradualmente às mudanças previstas no novo sistema tributário.
“Em 2026 começa o período de transição da reforma tributária, que vai até 2032. Durante esse tempo teremos a convivência entre os impostos atuais e os novos tributos, como o IBS e a CBS”, explicou.
Segundo ela, uma das primeiras mudanças será a criação de um CNPJ vinculado à atividade rural para produtores pessoa física, com o objetivo de separar as movimentações pessoais das atividades do negócio.
“Muitos produtores pensam que isso significa que todos terão que virar pessoa jurídica, mas não é isso. O objetivo é organizar melhor a atividade rural”, ressaltou.
Para a especialista, a informação será fundamental para evitar problemas futuros.
“Não dá para deixar para entender as mudanças apenas quando elas entrarem em vigor. O produtor precisa se preparar desde agora”, alertou.
Um setor cada vez mais feminino
Com presença crescente nas propriedades, nas empresas e nas decisões estratégicas do setor, as mulheres vêm redefinindo o papel feminino dentro do agronegócio brasileiro.
Eventos como o Mulheres na Pecuária mostram que, mais do que ocupar espaço, elas estão assumindo protagonismo em uma das atividades mais importantes da economia nacional.
E, ao que tudo indica, essa participação deve crescer ainda mais nos próximos anos.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
