Recria ganha protagonismo e intensificação da pecuária pressiona custos em MS

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A busca por uma pecuária mais eficiente e sustentável tem acelerado a intensificação dos sistemas produtivos no Brasil. Nesse cenário, a recria — antes vista como uma etapa intermediária — passa a ocupar papel central na produtividade do rebanho, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul, um dos maiores polos pecuários do país.

Tema do Encontro de Confinamento e Recriadores, o avanço dessa fase produtiva ocorre em meio a um cenário de pressão sobre a reposição e valorização do boi magro. De acordo com análises de mercado de consultorias como Scot Consultoria e Cepea, o ágio do boi magro em relação ao boi gordo tem variado entre 15% e 18%, acima dos padrões históricos, refletindo a maior demanda por animais para sistemas intensivos.

No Brasil, a pecuária também passa por uma mudança estrutural. A idade de abate, que já foi superior a quatro anos, hoje gira em torno de 24 a 30 meses, podendo ser ainda menor em sistemas mais tecnificados. Esse encurtamento do ciclo aumenta a eficiência, mas também eleva a necessidade de planejamento e de oferta constante de animais para reposição.

Em Mato Grosso do Sul, onde o rebanho bovino está na faixa de 18 a 19 milhões de cabeças, segundo dados do IBGE e do sistema oficial de defesa sanitária animal, a intensificação já é uma realidade crescente. O Estado figura entre os principais do país em volume de confinamento e vem ampliando o uso de modelos como semiconfinamento e Terminação Intensiva a Pasto (TIP).

Na prática, a intensificação permite reduzir o ciclo produtivo, com animais podendo ser abatidos antes dos dois anos de idade e com maior peso. Isso aumenta a produção de arrobas por hectare e melhora o giro do capital na propriedade. Por outro lado, eleva custos, principalmente com nutrição, suplementação, aquisição de animais e manejo mais tecnificado.

Segundo o pesquisador da APTA Colina, Flávio Resende, o desafio atual é produzir mais em menos tempo sem perder qualidade. “A recria é a fase que define o sistema. Se o animal não ganha peso de forma estruturada nesse período, perde-se eficiência e rentabilidade”, afirma.

Para o produtor sul-mato-grossense, o momento exige estratégia. A valorização da reposição encarece a entrada de animais, enquanto os investimentos em tecnologia e nutrição pressionam o custo operacional. Por outro lado, sistemas mais intensivos tendem a diluir custos fixos e aumentar a produtividade ao longo do tempo.

No mercado interno, os efeitos são distintos. No curto prazo, o aumento dos custos pode contribuir para a sustentação dos preços da arroba e, consequentemente, da carne bovina. Já no médio e longo prazo, o ganho de eficiência tende a ampliar a oferta, o que pode favorecer maior estabilidade de preços ao consumidor.

O movimento também dialoga com as exigências ambientais. Produzir mais carne em menos área é uma das estratégias para reduzir a pressão por abertura de novas áreas e melhorar indicadores de sustentabilidade — pauta cada vez mais relevante para o setor.

Com base pecuária consolidada e avanço na adoção de tecnologia, Mato Grosso do Sul segue se posicionando como protagonista na modernização da pecuária brasileira. A intensificação da recria, nesse contexto, deixa de ser tendência e passa a ser peça-chave para sustentar o crescimento do setor nos próximos anos.

Por: Henrique Theotônio