Juros altos, dólar em queda e PIB tímido: economia patina enquanto agro sustenta crescimento, apontam projeções do Focus

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As mais recentes projeções do relatório Focus, divulgadas nesta segunda-feira (27), escancaram um cenário econômico de contrastes no Brasil: enquanto o dólar apresenta leve queda e o crescimento do PIB segue modesto, os juros permanecem em patamares elevados — um freio direto sobre investimentos, produção e consumo. No pano de fundo, o agronegócio continua sendo o principal motor da economia, mesmo diante de crédito caro e, muitas vezes, pouca prioridade nas políticas federais.

De acordo com o levantamento da Focus Consultoria, a mediana para o dólar ao fim de 2026 recuou pela terceira semana consecutiva, passando de R$ 5,30 para R$ 5,25. O movimento acompanha a valorização do real, com a moeda norte-americana fechando a última sexta-feira cotada a R$ 4,9982. Um mês atrás, a projeção era ainda mais pessimista, em R$ 5,40.

Apesar do alívio no câmbio, o cenário de juros segue pressionando a economia. A expectativa do mercado para a taxa Selic ao fim de 2026 permanece em 13,0%, acima dos 12,50% projetados há um mês. Mesmo com cortes recentes promovidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) — que reduziu a taxa de 15% para 14,75% em março — o nível continua elevado e distante de um ambiente considerado saudável para expansão produtiva.

O próprio Banco Central tem adotado postura cautelosa. O presidente da instituição, Gabriel Galípolo, já indicou que o “conservadorismo” da política monetária busca ganhar tempo diante das incertezas externas, como a alta do petróleo em meio a tensões no Oriente Médio. Na prática, essa estratégia mantém o crédito caro — realidade que penaliza especialmente o setor produtivo.

E é justamente nesse ponto que o discurso econômico começa a destoar da realidade do campo.

Com juros elevados e acesso limitado ao crédito, produtores rurais enfrentam dificuldades para financiar safras, investir em tecnologia e ampliar produção. Ainda assim, o agronegócio segue entregando resultados e sustentando boa parte do crescimento econômico do país.

As projeções do Focus indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve crescer apenas 1,85% em 2026 — praticamente estável em relação às semanas anteriores e abaixo das expectativas do Ministério da Fazenda, que projeta 2,33%. Para 2027, o crescimento segue travado em 1,80%, enquanto os anos seguintes mantêm estimativas em torno de 2%.

São números modestos para um país com potencial produtivo como o Brasil — e que reforçam a dependência de setores mais resilientes, como o agro.

Na prática, o campo continua fazendo mais com menos: enfrenta juros altos, custos elevados e, em muitos momentos, falta de políticas públicas eficazes. Ainda assim, mantém exportações fortes, garante saldo positivo na balança comercial e impulsiona o PIB nacional.

O contraste é evidente: enquanto o governo federal busca equilibrar indicadores macroeconômicos em meio a pressões inflacionárias e cenário internacional instável, o setor que mais contribui para o crescimento segue operando sob condições adversas.

Em um ano de forte viés eleitoral no horizonte, cresce a expectativa de que medidas mais concretas sejam adotadas — especialmente no que diz respeito à redução do custo do crédito e ao fortalecimento de políticas voltadas ao setor produtivo.

Até lá, os números do Focus deixam claro: a economia brasileira avança, mas em ritmo lento. E, mais uma vez, é o agronegócio que impede um desempenho ainda mais fraco.

Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho