
O Brasil já tem estratégia definida para liderar a chamada “nova indústria de fertilizantes”, baseada em descarbonização, bioinsumos e eficiência tecnológica. Mas, enquanto o discurso avança, a efetivação dessa agenda ainda esbarra em gargalos estruturais — e Mato Grosso do Sul é um retrato claro desse cenário.
Durante o Workshop Fertilizantes Sustentáveis, realizado nesta terça-feira (28), em São Paulo, o assessor do Ministério da Agricultura e do Conselho Nacional de Fertilizantes (Confert), José Carlos Polidoro, afirmou que o País tem potencial concreto para assumir protagonismo global no setor, mesmo ainda sendo altamente dependente de importações.
“O Brasil será o líder mundial dessa nova indústria, baseada em eficiência e descarbonização. Isso já é realidade, com o produtor colhendo resultados com soja de baixo carbono e algodão certificado”, destacou.
Hoje, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome — um fator que pressiona diretamente os custos de produção no campo.
É nesse contexto que a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas, volta ao debate.
Com mais de 80% das obras concluídas, a planta é considerada um dos principais ativos estratégicos do País para reduzir a dependência externa. Recentemente, a Petrobras sinalizou que estuda alternativas para dar andamento ao projeto, incluindo parcerias ou até a venda da unidade.
Se o projeto sair do papel, Mato Grosso do Sul reúne todas as condições para se consolidar como um polo nacional de fertilizantes. A localização estratégica no Centro-Oeste, aliada à forte produção agrícola, pode transformar o Estado em referência logística e produtiva, com impacto direto no custo dos insumos.
Na prática, a ativação da UFN3 significaria fertilizante mais acessível, maior competitividade para culturas como soja, milho e algodão e ganho de margem para o produtor rural.
Por outro lado, o avanço ainda depende de decisões concretas.
Apesar das sinalizações, não há cronograma definido para a retomada das obras. O futuro da UFN3 segue condicionado à modelagem de negócio e, principalmente, à disposição da Petrobras — empresa controlada pelo governo federal — em destravar o projeto.

Sem esse movimento, o risco é claro: o Brasil segue dependente do mercado internacional, enquanto ativos estratégicos permanecem parados.
Ao mesmo tempo, o governo anunciou um aporte de R$ 50 milhões para estruturar o Centro de Excelência em Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Cefenp), iniciativa que busca acelerar tecnologias já desenvolvidas pela Embrapa e outras instituições.
A demanda, por sua vez, só deve crescer. Segundo estimativas apresentadas no evento, a conversão de pastagens degradadas pode adicionar mais 10 milhões de toneladas ao consumo de fertilizantes na próxima década.
O cenário está posto: o País tem tecnologia, demanda e mercado.
Para Mato Grosso do Sul, a oportunidade é ainda mais clara. Mas, para que o Estado deixe de ser apenas consumidor e passe a ser protagonista, será preciso mais do que planejamento — será necessário tirar a UFN3 do papel.
E isso, neste momento, passa diretamente pela capacidade de decisão e execução da Petrobras.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
