
O agro sustenta a economia brasileira — mas enfrenta um gargalo crescente: crédito caro, escasso e desalinhado com a realidade do campo.
O dia começa cedo em uma propriedade rural brasileira. Antes mesmo do sol firmar no horizonte, a conta já está posta: insumos mais caros, financiamento vencendo e um novo crédito que, quando aparece, vem com taxas difíceis de sustentar. Essa tem sido a realidade de produtores em todo o país.
O agro, que responde por cerca de um quarto do PIB nacional e sustenta a balança comercial, depende diretamente de crédito para funcionar. Diferente de outros setores, precisa de condições específicas: juros mais baixos, prazos longos e previsibilidade. Sem isso, a conta não fecha — e o impacto se espalha por toda a economia.
JUROS ALTOS E DÍVIDA EM ESCALADA
Nos últimos anos, o cenário se deteriorou. As taxas de financiamento subiram de forma consistente, enquanto o acesso ao crédito ficou mais restrito.
O resultado já aparece nos números.
Segundo a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o endividamento rural brasileiro já ultrapassa R$ 100 bilhões, um salto expressivo em relação aos cerca de R$ 30 bilhões registrados anos atrás.
Esse avanço está diretamente ligado ao encarecimento do crédito e à redução das linhas mais acessíveis dentro do Plano Safra.
Na prática, isso significa:
- dificuldade para renovar financiamentos
- redução de investimentos na produção
- aumento da inadimplência no campo


PRESSÃO POR SOLUÇÕES
Diante desse cenário, a bancada ruralista intensificou a articulação em Brasília, tanto para destravar crédito quanto para permitir a renegociação das dívidas.
O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), defende mudanças estruturais: “Essas propostas buscam melhorar o financiamento agrícola, aprimorar o próprio Plano Safra e construir alternativas de financiamento para o setor.”
Entre as medidas em discussão está o pacote conhecido como “Lei do Agro 3”, que propõe modernizações no sistema de crédito, ampliação de instrumentos financeiros e maior participação do mercado privado.
Ao mesmo tempo, avança no Congresso o PL 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas rurais. A proposta prevê juros mais baixos e prazos mais longos — considerados essenciais para reequilibrar o setor.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) destacou a necessidade de uma solução rápida: “O ministro está com boa vontade e entende a importância de resolver esse problema.”
A expectativa é que uma definição ocorra antes do próximo Plano Safra.


O DESAFIO DO PRÓXIMO PLANO SAFRA
O próximo Plano Safra chega em um momento decisivo. Mais do que ampliar volumes, o setor cobra qualidade do crédito: taxas compatíveis com a realidade do campo e condições que permitam ao produtor produzir, pagar e reinvestir.
Sem isso, o risco é claro: retração na produção, pressão sobre os preços dos alimentos e perda de competitividade.
O Brasil, que lidera a produção global de alimentos, continua dependendo de uma variável básica — e cada vez mais escassa: crédito rural que funcione na prática.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
