Mato Grosso do Sul exporta conhecimento e se consolida como referência nacional na pecuária

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Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas um grande produtor para assumir um novo papel no cenário agropecuário brasileiro: o de exportador de conhecimento, tecnologia e modelo de gestão. Prova disso foi a missão técnica realizada pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), entre os dias 26 e 30 de abril, quando uma comitiva do estado vizinho veio ao território sul-mato-grossense em busca de soluções já consolidadas por aqui.

O movimento não é por acaso. MS vem se consolidando como vitrine de uma pecuária mais eficiente, organizada e integrada, baseada em incentivos inteligentes, profissionalização do produtor e forte atuação institucional.

A agenda da comitiva incluiu visitas à Famasul, reuniões com o governo estadual e apresentações de programas estratégicos, com destaque para o Programa de Avanços da Pecuária (Proap), considerado hoje um dos pilares da evolução produtiva no estado.

O objetivo dos visitantes foi claro: entender como Mato Grosso do Sul conseguiu alinhar política fiscal, organização de cadeia e ganho de produtividade — um tripé que começa a chamar atenção de outras potências do agro brasileiro.

Um dos principais pontos observados foi o modelo de incentivo fiscal adotado no estado. Aqui, parte do ICMS que seria recolhido pela indústria retorna ao produtor rural, desde que ele atenda critérios técnicos e de qualidade.

“Esse retorno do ICMS funciona como um bônus direto para o produtor, que passa a investir mais na propriedade. Ao mesmo tempo, a indústria ganha em qualidade e previsibilidade de produção, e o governo aumenta sua arrecadação no longo prazo”, explicou Marcos Carvalho, analista de pecuária da Famato.

Mais do que um benefício financeiro, o modelo sul-mato-grossense criou um ciclo virtuoso dentro da porteira, estimulando investimentos, elevando o padrão produtivo e organizando a cadeia como um todo.

Segundo o secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Semadesc, Rogério Thomitão Barreto, o diferencial está na lógica de evolução contínua.

“O Proap trabalha com protocolos de produção que incentivam a profissionalização. O produtor que se adequa recebe benefícios financeiros, e isso eleva o nível de toda a cadeia produtiva, com foco em sustentabilidade, sanidade e responsabilidade”, afirmou.

Na prática, os resultados já são visíveis. De acordo com o coordenador de Pecuária da Semadesc, Marivaldo Miranda, cerca de 40% de todo o volume abatido em Mato Grosso do Sul já está inserido dentro dos programas de incentivo, com idade média de abate girando em torno de 22 meses — um indicador claro de eficiência.

“O Proap engloba bovinos, suínos, aves, peixes, leite, ovinos e apicultura. Cada subprograma tem critérios voltados à sustentabilidade, qualidade e regularidade da produção”, destacou.

A comitiva também conheceu programas que já são referência, como o Precoce MS e o Carne Sustentável do Pantanal, iniciativas que agregam valor direto ao produtor.

“Conseguimos reduzir a idade de abate, melhorar a qualidade da carne e elevar o padrão das propriedades, com certificações tanto do animal quanto da fazenda”, afirmou o superintendente da Associação Novilho Precoce, Alexandre Guimarães.

No caso da carne sustentável, o impacto chega diretamente no bolso do produtor.

“O incentivo financeiro chega no momento do abate e pode representar até 3% a mais no valor da arroba, agregando valor real dentro da propriedade”, explicou Guilherme de Oliveira, diretor executivo da Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável.

Outro ponto que chamou a atenção dos visitantes — e talvez o mais difícil de replicar — foi o nível de organização do setor em Mato Grosso do Sul. O associativismo, aqui, não é discurso: é prática consolidada.

“O que mais chamou atenção foi a união entre produtores, associações, indústria e governo. O associativismo é o grande diferencial”, afirmou Paulo Zen, presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum (MT).

Essa integração também foi destacada por Tiago Henrique Cinpak, presidente do Sindicato Rural de Lucas do Rio Verde.

“O incentivo fiscal se transforma em melhorias dentro da propriedade, aumento de renda e fortalecimento de toda a cadeia produtiva. Quando se incentiva a produção, o reflexo vai além do campo”, disse.

Até mesmo setores que demoraram a acessar os programas, como a avicultura, hoje colhem resultados após avançarem na organização interna.

“O Frango Vida mudou a realidade do produtor. Hoje vemos investimento em tecnologia, melhoria na biosseguridade e produtores que decidiram continuar e até expandir”, afirmou Franciele Cornélio, presidente da Avimasul.

Para a secretária adjunta de Agronegócios de Mato Grosso, Linacis Lisboa, a missão deixou claro que o modelo sul-mato-grossense já apresenta resultados concretos e mensuráveis.

“Vimos, na prática, melhorias em biossegurança, gestão e sustentabilidade, refletindo diretamente na rentabilidade do produtor. Esse tipo de troca é fundamental para avaliarmos o que pode ser aplicado em Mato Grosso”, afirmou.

O recado que fica é direto: Mato Grosso do Sul não apenas evoluiu — virou referência. E agora começa a exportar aquilo que talvez tenha mais valor no agro moderno: gestão, organização e inteligência produtiva. Enquanto muitos ainda discutem caminhos, MS já virou exemplo a ser seguido.

Por: Henrique Theotônio
Com informações da Famato