
Quando a bola rolar na Copa do Mundo de 2026, bilhões de pessoas estarão de olho nos craques, nos gols e na disputa pelo título mais cobiçado do futebol. Mas existe um protagonista silencioso que estará presente em cada lance, em cada comemoração e em cada estádio: o agronegócio.
Muito antes do apito inicial, o produtor rural já entrou em campo.
A Copa movimenta emoções, turismo, entretenimento e bilhões de dólares em negócios. Mas movimenta também uma gigantesca cadeia produtiva ligada à produção de alimentos, bebidas, fibras, energia e até mesmo dos gramados que recebem as partidas. Do algodão presente nas camisetas das seleções ao churrasco que reúne amigos em frente à televisão, o agro participa de praticamente tudo o que envolve o maior evento esportivo do planeta.
E os números ajudam a explicar essa dimensão.
No Brasil, Copa é sinônimo de churrasco
Se dentro dos estádios o consumo já impressiona, fora deles o impacto é ainda maior.
No Brasil, a Copa do Mundo costuma transformar ruas, bares, restaurantes e residências em verdadeiras arquibancadas.
Levantamentos realizados por entidades do varejo, como a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), a Associação Paulista de Supermercados (APAS) e empresas de inteligência de mercado apontam que, durante períodos de Copa do Mundo, as vendas de carnes para churrasco costumam registrar crescimento entre 15% e 30%, podendo superar esse percentual em jogos decisivos da Seleção Brasileira.
A cerveja, tradicional companheira das transmissões esportivas, apresenta altas que variam entre 20% e 40%, enquanto refrigerantes e outras bebidas também registram forte crescimento.
Para estados como Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de carne bovina do país e importante fornecedor de milho para a indústria nacional, esse movimento representa mais do que uma celebração esportiva. É também uma demonstração da força econômica das cadeias produtivas ligadas ao agro, além de representar um aumento em torno de 23% na demanda do setor
produtivo.

A cerveja também começa no campo
As bebidas representam outro capítulo importante dessa história. Estimativas baseadas no consumo registrado nas últimas três Copas do Mundo mostra que foi consumido algo em torno de 4 milhões de litros de cerveja, apenas nas arenas esportivas.
A matéria-prima dessa cadeia também nasce no agro. A cerveja depende de culturas como cevada, milho e lúpulo. Refrigerantes utilizam açúcar proveniente da cana-de-açúcar, além de frutas e outros ingredientes agrícolas. Até mesmo a água mineral comercializada em larga escala durante eventos esportivos depende de uma cadeia logística fortemente conectada ao setor produtivo.
O primeiro jogador da Copa é a grama
Antes mesmo de qualquer seleção desembarcar nos Estados Unidos, México e Canadá, os gramados já começaram sua preparação.
Para atender à demanda dos 16 estádios da Copa de 2026, foram cultivados cerca de 93 mil metros quadrados de gramado natural. Cada campo oficial possui cerca de 7.140 metros quadrados de área de jogo, mas as áreas de segurança e entorno elevam essa necessidade para algo entre 8 mil e 10 mil metros quadrados por estádio.
A produção desses gramados exige tecnologia semelhante à utilizada em lavouras de alto desempenho. O cultivo envolve irrigação controlada, monitoramento por sensores, manejo nutricional, controle fitossanitário e sistemas avançados de drenagem.
O processo não acontece da noite para o dia. Dependendo da variedade utilizada, um gramado esportivo de padrão internacional pode exigir entre 12 e 24 meses de cultivo antes de estar apto a receber partidas de alto nível.
No caso da Copa do Mundo de 2026, a grama desenvolvida por meio de uma parceria científica que levou oito anos de pesquisas e investimentos de US$ 5 milhões da FIFA. O projeto uniu cientistas da Universidade do Tennessee e da Universidade do Estado do Michigan, nos Estados Unidos.
Eles criaram um sistema padrão altamente tecnológico para que os campos das 16 cidades-sedes (espalhadas por EUA, Canadá e México) se comportassem exatamente da mesma forma.
Ou seja, antes mesmo de a bola começar a rolar, produtores rurais e empresas especializadas já estão trabalhando há anos para garantir a qualidade do espetáculo.
O agro veste a torcida
A presença do campo também aparece fora das quatro linhas. Grande parte das camisetas, bandeiras, faixas e materiais promocionais produzidos para a Copa têm origem em fibras agrícolas, especialmente o algodão.
O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais da fibra e um dos líderes globais em produtividade. O algodão produzido em estados como Mato Grosso, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul abastece indústrias têxteis que transformam a matéria-prima em tecidos utilizados por milhões de torcedores ao redor do mundo.
Ao vestir a camisa da seleção, a história já começou na lavoura.

Milhões de refeições têm origem no campo
Outro elo gigantesco entre a Copa e o agronegócio está na alimentação. Projeções indicam uma estimativa entre 15 mil toneladas de alimentos e 25 milhões de litros de bebidas vendidos nas arenas.
São sanduíches, carnes, pães, lanches, frutas, salgados, cerveja, refrigerantes, sucos e uma infinidade de produtos cuja origem está diretamente no campo.
Por trás de cada refeição existe uma cadeia produtiva formada por pecuaristas, produtores de grãos, horticultores, cooperativas, agroindústrias, transportadores e distribuidores.
E não são apenas os torcedores que demandam alimentos.
A Copa de 2026 contará com 48 seleções, além de comissões técnicas, equipes médicas, arbitragem, voluntários, imprensa e funcionários envolvidos na organização. Para a tender somente as delegações das equipes, a expectativa é de um consumo 80 toneladas de alimentos ao longo das semanas de competição, exigindo uma operação logística e de produção que abasteceria comparável à de uma cidade, como Coxim ou Amambai, no interior do MS.
Muito além das quatro linhas
A Copa do Mundo é frequentemente lembrada pelos gols, pelas rivalidades históricas e pelos momentos inesquecíveis que ficam na memória dos torcedores. Mas existe uma realidade que muitas vezes passa despercebida.
Sem a grama cultivada por produtores especializados não existe campo. Sem algodão não existe bandeira ou camisa. Sem pecuária não existe churrasco. Sem grãos, frutas e cana-de-açúcar não existem alimentos nem bebidas para abastecer milhões de pessoas.
O agronegócio está presente no espetáculo do início ao fim.
Ele está no gramado onde a bola corre, na bandeira que tremula nas arquibancadas, na refeição dos atletas, no lanche do torcedor e no churrasco que reúne famílias e amigos em frente à televisão.
Por isso, quando o Brasil entrar em campo em busca do tão sonhado hexacampeonato, haverá outro gigante brasileiro jogando junto. Um gigante que nem sempre aparece nas transmissões, mas que torna possível grande parte da festa.
Porque, no fim das contas, a Copa também é agro. E o agro, mais uma vez, entra em campo vestindo as cores do Brasil.
Por: Fabíola Camilo
