Plano Safra 2026/27 bate recorde no papel, mas crédito mais caro e menor volume para custeio preocupam produtores

Compartilhe:
Lançamento do PLano Safra 26/27 - Foto: Divulgação GovBR

O governo federal lançou nesta terça-feira (30) o Plano Safra 2026/2027 para médios e grandes produtores rurais, anunciando um volume recorde de R$ 525,1 bilhões em financiamentos destinados à agricultura empresarial. O valor representa aumento nominal de apenas 1,7% em relação ao ciclo anterior, quando foram disponibilizados R$ 516 bilhões.

Apesar do número expressivo apresentado pelo Executivo, especialistas e representantes do setor agropecuário avaliam que o crescimento anunciado não representa, necessariamente, uma ampliação efetiva do crédito disponível ao produtor. Na prática, o acesso ao financiamento continua sendo um dos principais desafios da próxima safra.

Um dos pontos mais debatidos é a redução dos recursos destinados ao custeio e à comercialização, justamente a linha utilizada para financiar despesas essenciais como aquisição de sementes, fertilizantes, defensivos, alimentação animal e manutenção das propriedades.

Neste ciclo, o valor destinado ao custeio caiu para R$ 384,9 bilhões, frente aos R$ 414,7 bilhões da safra anterior, redução superior a 7%.

Além disso, os recursos com equalização de juros — aqueles em que o Tesouro Nacional subsidia parte do financiamento para reduzir o custo ao produtor — também diminuíram. Segundo levantamento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o volume caiu de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões, uma redução de aproximadamente 14,7%.

Assinatura do plano em solenidade em Brasíia – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na avaliação da bancada, isso significa que uma parcela maior dos produtores deverá recorrer a linhas de crédito com custos financeiros mais elevados.

Juros continuam sendo o principal entrave

Embora o governo tenha anunciado redução nas taxas em praticamente todas as linhas do Plano Safra, o custo do dinheiro continua elevado para grande parte dos produtores.

O crédito de custeio empresarial passou de 14% para 12,5% ao ano, enquanto o Pronamp, destinado aos médios produtores, caiu de 10% para 9%. Programas de investimento, como Moderfrota, Inovagro e Proirriga, também registraram reduções, mas permanecem com taxas entre 11,5% e 12,5% ao ano.

Na avaliação de entidades representativas do agro, esses percentuais ainda estão distantes de um cenário considerado competitivo para uma atividade que enfrenta margens cada vez menores, custos elevados de produção e riscos climáticos constantes.

O próprio secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, reconheceu durante o lançamento que a Selic elevada limita a capacidade do governo de oferecer financiamentos mais baratos.

Segundo ele, as taxas anunciadas representam “o melhor patamar possível” dentro do atual cenário econômico.

Comparativo estimado pela FPA

Como funciona o acesso ao crédito

O Plano Safra entra em vigor em 1º de julho de 2026 e permanece válido até 30 de junho de 2027.

Os financiamentos são operacionalizados por bancos públicos, cooperativas de crédito e instituições financeiras credenciadas.

O produtor deve apresentar seu projeto técnico, documentação da propriedade e comprovação da atividade rural para solicitar o financiamento. Após análise da instituição financeira, o crédito é liberado conforme o enquadramento em cada programa.

As linhas contemplam operações de:

  • custeio da produção;
  • comercialização;
  • investimento em máquinas e equipamentos;
  • irrigação;
  • armazenagem;
  • inovação tecnológica;
  • recuperação de pastagens;
  • práticas sustentáveis.

Os juros variam conforme o programa e o perfil do produtor.

Seguro rural continua sendo preocupação

Outro ponto que segue gerando preocupação é o seguro rural.

Embora seja considerado um dos principais instrumentos de proteção contra perdas provocadas por seca, enchentes e outros eventos climáticos, o tema ficou fora do anúncio principal do Plano Safra.

Nas últimas semanas, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) sofreu bloqueios e cortes orçamentários que reduziram significativamente os recursos disponíveis, justamente em um momento de maior preocupação com os impactos do fenômeno El Niño sobre a produção agrícola.

Para entidades do setor, ampliar o crédito sem fortalecer os mecanismos de proteção ao produtor aumenta a exposição ao risco e reduz a segurança financeira da atividade.

Investimentos maiores, mas com ressalvas

O governo destacou como um dos principais avanços o aumento dos recursos destinados aos investimentos, que passaram para R$ 140,2 bilhões, crescimento de cerca de 38% sobre a safra passada.

Entretanto, a Frente Parlamentar da Agropecuária argumenta que parte desse aumento decorre da inclusão de recursos de programas que anteriormente não integravam o cálculo oficial do Plano Safra, como linhas do Move Agricultura e do Ecoinvest Brasil.

Segundo a entidade, desconsiderando essas incorporações, o volume efetivo de recursos seria inferior ao do ciclo passado, o que explica a percepção de parte do setor de que o crescimento anunciado não se traduz integralmente em mais crédito disponível.

Desafio continua sendo transformar números em crédito acessível

O Plano Safra permanece como a principal política pública de financiamento da agropecuária brasileira e chega em um momento em que o setor continua sustentando parcela importante da economia nacional.

No entanto, a avaliação predominante entre representantes do agronegócio é que o sucesso do programa dependerá menos do volume anunciado e mais da facilidade de acesso aos recursos, da disponibilidade de crédito subsidiado, da ampliação do seguro rural e, principalmente, de juros compatíveis com a realidade enfrentada por quem produz.

Para produtores rurais, cooperativas e entidades representativas, o desafio permanece o mesmo: garantir que os números divulgados em Brasília se convertam, de fato, em financiamento suficiente para manter a produção, investir em tecnologia e assegurar a competitividade do agro brasileiro diante de um cenário de custos elevados e crescente exposição aos riscos climáticos.

Por: Fabíola Camilo