Banco do Brasil reduz oferta de crédito no Plano Safra e expõe cenário de maior cautela no financiamento rural

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Plano Safra 2026/2027 começou com números recordes no papel, mas a realidade encontrada por muitos produtores rurais é bem diferente. Apesar de o governo federal anunciar R$ 622 bilhões para o financiamento da agricultura empresarial, a liberação dos recursos ocorre em um ambiente de juros elevados, aumento da inadimplência e maior cautela das instituições financeiras, reduzindo o ritmo das contratações.

O principal sinal dessa mudança veio justamente do Banco do Brasil, maior operador de crédito rural do país. A instituição anunciou R$ 210 bilhões para a nova safra, valor 8,7% inferior aos R$ 230 bilhões inicialmente previstos no ciclo anterior. A divisão contempla R$ 170 bilhões para a agricultura empresarial e aproximadamente R$ 40 bilhões para pequenos e médios produtores.

Em sua comunicação ao mercado, o banco atribuiu a postura mais conservadora ao aumento do endividamento do setor e da inadimplência, fatores que elevaram significativamente o risco das operações. Na prática, o cenário levou a uma análise mais criteriosa dos financiamentos e a uma seleção mais rigorosa dos tomadores de crédito.

A redução do apetite do principal banco público ocorre justamente em um momento em que o custo do dinheiro permanece elevado. Com a taxa básica de juros em patamar alto, os financiamentos rurais — inclusive aqueles com equalização do governo — ficaram mais caros, enquanto diversas linhas com recursos livres apresentam taxas ainda superiores, pressionando o custo de produção.

Estudos do FGV Agro também apontam que o volume efetivamente repassado ao produtor pode ficar abaixo dos valores anunciados, reflexo da maior seletividade das instituições financeiras e das restrições impostas pelo ambiente econômico. Além disso, o próprio desenho do Plano Safra reduziu em 7,2% os recursos destinados ao custeio e à comercialização, passando de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, segmento considerado essencial para financiar a produção durante a safra.

Enquanto o Banco do Brasil diminuiu sua oferta de recursos, outras instituições seguem estratégias diferentes. O Sicredi anunciou R$ 72,1 bilhões para o ciclo 2026/27, buscando ampliar sua participação no crédito rural. O Banco da Amazônia também registrou forte expansão nas operações voltadas à agricultura familiar, enquanto bancos privados mantêm atuação mais seletiva, priorizando clientes com menor risco e linhas de mercado, normalmente com custos financeiros superiores aos programas subsidiados.

Na avaliação de analistas do mercado financeiro, o ambiente econômico exige maior prudência das instituições. A combinação entre juros elevados, aumento da inadimplência, necessidade de preservar capital e incertezas econômicas faz com que os bancos concentrem esforços na qualidade da carteira de crédito, reduzindo o ritmo das novas concessões.

Para o produtor rural, o resultado é um cenário de maior dificuldade para acessar recursos justamente no início da safra. Embora o volume global anunciado pelo governo seja elevado, a velocidade de contratação e o custo do financiamento acabam limitando o alcance prático do programa, especialmente para produtores que dependem do crédito oficial para custear a produção.

Entidades do agronegócio já vinham alertando que o sucesso do Plano Safra depende não apenas do montante anunciado, mas também da efetiva disponibilidade dos recursos, da previsibilidade das linhas de financiamento e de taxas compatíveis com a realidade da atividade agropecuária. Sem esses fatores, afirmam representantes do setor, os números divulgados tendem a perder força diante das dificuldades enfrentadas na ponta pelo produtor.

Por: Amanda Coelho