China reduz espaço para carne brasileira e Acrissul vê mercado mais cauteloso em Mato Grosso do Sul

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A redução do espaço para a carne bovina brasileira no mercado chinês já começa a provocar reflexos nas negociações entre pecuaristas e frigoríficos de Mato Grosso do Sul. Embora o cenário ainda não seja generalizado, empresas com maior dependência das exportações para a China demonstram mais cautela na compra de animais, movimento que preocupa o setor produtivo.

O presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), Guilherme Bumlai, afirma que os primeiros sinais já são percebidos em algumas regiões do Estado, mas ressalta que ainda não há um comportamento uniforme entre as indústrias.

“Em algumas regiões, frigoríficos com maior dependência do mercado chinês já demonstram mais cautela nas compras. O produtor, apesar da pressão, ainda resiste aos preços ofertados. Ainda não é um movimento generalizado, mas o setor acompanha a situação com bastante atenção”, destacou Bumlai.

A preocupação ganhou força após a indústria considerar praticamente esgotada a cota de carne bovina destinada à China em 2026. O país asiático estabeleceu um limite de 1,106 milhão de toneladas para as importações brasileiras. Acima desse volume, incide uma sobretaxa de 55%, que, somada à tarifa regular, pode elevar a tributação para cerca de 67%, comprometendo a viabilidade econômica de boa parte das exportações.

Outro fator que influencia as decisões da indústria é o tempo de trânsito das cargas. Como a carne brasileira leva entre 40 e 60 dias para chegar ao destino, frigoríficos já trabalham com a possibilidade de que a cota tenha sido atingida considerando os embarques que ainda estão em viagem.

Os números reforçam a importância da China para a economia sul-mato-grossense. Dados do Observatório da Indústria da Fiems mostram que, entre janeiro e junho deste ano, Mato Grosso do Sul exportou US$ 3,829 bilhões, dos quais US$ 1,353 bilhão tiveram o mercado chinês como destino, equivalente a 35,3% das vendas externas do Estado.

Carnes pronta spara exportação em frigorifico de Campo Grande – Foto: CG News

Entre os principais produtos exportados está a carne bovina desossada congelada, que movimentou US$ 511,8 milhões no período, com embarque de 79,8 mil toneladas — crescimento de 68,4% em relação ao mesmo intervalo do ano passado.

Na avaliação de Bumlai, a restrição nas compras chinesas pode exercer pressão sobre a arroba no curto prazo, mas ainda não é possível afirmar que haverá uma queda prolongada nos preços.

“Existe uma expectativa de maior pressão sobre os preços no curto prazo. Porém, ainda é cedo para afirmar que haverá uma queda consistente, pois isso dependerá da duração das restrições e da capacidade de redirecionar as exportações para outros mercados.”

O dirigente da Acrissul também pondera que o risco de aumento da oferta de carne no mercado interno existe, mas não deve ser tratado como um cenário inevitável de desequilíbrio. Segundo ele, parte da produção pode ser absorvida por outros mercados internacionais, desde que o Brasil avance na abertura de novos destinos comerciais.

“Esse risco existe, mas não deve ser superdimensionado. Parte da carne pode ser direcionada ao mercado interno e parte para outros países. O importante agora é ampliar mercados para evitar desequilíbrios. Tradicionalmente, julho já registra maior oferta de animais devido aos custos da produção durante o inverno.”

Outro impacto esperado é na tomada de decisão dentro das propriedades rurais. Para Bumlai, enquanto persistirem as incertezas em relação às exportações, muitos pecuaristas deverão adotar uma postura mais conservadora.

“É natural que, diante de um cenário de incerteza, o produtor fique mais cauteloso. Alguns investimentos podem ser adiados, principalmente aqueles voltados à expansão da produção, até que o mercado volte a ter maior previsibilidade.”

Na avaliação da Acrissul, o momento também evidencia a necessidade de reduzir a dependência do mercado chinês. Hoje, a China é o principal destino da carne bovina exportada por Mato Grosso do Sul, tornando o Estado mais sensível às mudanças nas políticas comerciais daquele país.

Enquanto isso, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) trabalha junto ao governo federal para ampliar o acesso da carne brasileira a novos mercados, como Vietnã, Japão, Coreia do Sul e Turquia. No entanto, o próprio setor reconhece que substituir, no curto prazo, o volume adquirido pela China é um desafio.

Por: Fabíola Camilo