
A decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho, inaugura um novo capítulo de tensão comercial entre os dois países e acende um sinal de alerta para setores estratégicos da economia nacional. Embora parte importante do agronegócio tenha escapado da medida, a nova taxação cria insegurança para exportadores, reduz a competitividade de produtos brasileiros e deve atingir com mais intensidade segmentos da indústria e cadeias específicas do agro.
A justificativa apresentada pelo governo norte-americano, baseada em uma investigação conduzida pelo USTR, cita temas como o Pix, acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual, tarifas preferenciais e até desmatamento. Argumentos que vêm sendo amplamente questionados pelo governo brasileiro e por representantes do setor produtivo, que consideram a medida sem base econômica consistente e com forte componente político.
O próprio processo conduzido pelos Estados Unidos demonstra essa fragilidade. Durante as audiências públicas realizadas pelo USTR, a maioria das manifestações — 63 das 78 intervenções — foi contrária à adoção das tarifas, inclusive por empresas e entidades norte-americanas que alertaram para o aumento dos custos, da inflação e da perda de competitividade da própria economia americana.
Apesar do impacto negativo da decisão, o agronegócio brasileiro evitou um cenário muito mais severo. Produtos de grande relevância para a pauta exportadora nacional, como café, carne bovina e suco de laranja, ficaram fora da lista de sobretaxas. A exclusão preserva bilhões de dólares em negócios e reduz significativamente o risco para cadeias que possuem forte participação no mercado americano.
Por outro lado, produtos como tabaco, etanol, açúcar e máquinas agrícolas passarão a enfrentar a cobrança adicional. No caso das máquinas, o efeito pode ser ainda mais sensível para a indústria brasileira, já que fabricantes poderão perder competitividade em contratos com empresas norte-americanas, além de enfrentar renegociações e redução de pedidos. Especialistas avaliam que esse deverá ser um dos segmentos mais pressionados pela nova política comercial.
No campo, a preocupação existe, mas não chega a configurar um cenário de crise generalizada. Nos últimos anos, o Brasil ampliou de forma significativa sua presença em mercados da Ásia, Oriente Médio, União Europeia e outros países da América Latina, reduzindo a dependência das compras norte-americanas. Essa diversificação permite que parte dos produtos eventualmente prejudicados seja redirecionada para novos destinos, diminuindo os impactos sobre os produtores rurais.

A reação do governo federal veio em tom firme. O Palácio do Planalto classificou a decisão como um “marco lastimável” nas relações bilaterais, anunciou que recorrerá à Lei da Reciprocidade e pretende levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC). Também afirmou que manterá medidas de apoio aos setores afetados e continuará buscando novos acordos comerciais.
Ainda assim, o setor produtivo espera mais do que discursos. Lideranças do agro e da indústria defendem uma atuação diplomática mais intensa, negociações técnicas permanentes e medidas concretas para preservar a competitividade das exportações brasileiras. Em momentos de instabilidade internacional, a velocidade das ações pode ser decisiva para evitar perdas de mercado.
Embora o tarifaço represente um revés importante para o comércio exterior brasileiro, ele dificilmente comprometerá a posição do país como uma das maiores potências agroexportadoras do mundo. O Brasil construiu, nas últimas décadas, uma rede diversificada de parceiros comerciais, ampliou mercados e consolidou sua reputação como fornecedor confiável de alimentos, fibras e energia renovável.
O desafio agora será transformar esse episódio em mais um impulso para acelerar a abertura de novos mercados, fortalecer a diplomacia comercial e reduzir a dependência de decisões unilaterais que, além de carecerem de fundamentos econômicos sólidos, acabam prejudicando produtores, indústrias e consumidores dos dois lados da relação comercial.
Por: Fabíola Camilo
