
A deterioração das condições das lavouras de milho e soja nos Estados Unidos voltou a acender o alerta do mercado internacional e pode influenciar diretamente a formação dos preços das commodities agrícolas. Dados divulgados nesta segunda-feira (27) pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram queda na avaliação das duas principais culturas do país, justamente em um período decisivo para a definição da produtividade.
No milho, 63% das lavouras foram classificadas como em condição boa ou excelente até o último domingo (26), uma redução de quatro pontos porcentuais em relação à semana anterior. O índice também ficou bem abaixo dos 73% registrados no mesmo período do ano passado.
Apesar da piora na qualidade, o desenvolvimento da safra segue adiantado. Segundo o USDA, 78% das áreas já haviam formado espigas, acima dos 73% observados há um ano e dos 74% da média dos últimos cinco anos. A formação de grãos alcançou 25% das lavouras, superando os 24% do ano passado e os 22% da média histórica.
Na soja, o cenário também apresentou deterioração. O percentual de lavouras em condição boa ou excelente caiu três pontos porcentuais, para 63%, abaixo dos 70% registrados no mesmo período de 2025.
O avanço do ciclo, no entanto, permanece acima da média. O levantamento aponta que 80% das áreas já estavam em fase de florescimento, ante 74% no mesmo período do ano passado e da média dos cinco anos anteriores. A formação de vagens atingiu 47%, enquanto no ano passado e na média histórica o índice era de 39%.
Especialistas acompanham de perto a evolução das condições climáticas nas próximas semanas, já que agosto costuma ser um dos meses mais importantes para a definição do potencial produtivo das lavouras norte-americanas. Caso o clima continue desfavorável, aumentam as chances de revisão para baixo na produtividade da safra.

Reflexos no Brasil
Embora os dados sejam dos Estados Unidos, seus efeitos ultrapassam as fronteiras do país. Como os norte-americanos figuram entre os maiores produtores e exportadores mundiais de soja e milho, qualquer ameaça à produção tende a repercutir na Bolsa de Chicago, principal referência para a formação dos preços internacionais das commodities.
Se a perda de potencial produtivo se confirmar, a redução da oferta global pode sustentar ou elevar as cotações, favorecendo países exportadores como o Brasil. Na soja, isso pode ampliar a competitividade brasileira no mercado internacional, especialmente diante da forte demanda chinesa, principal destino do grão nacional. No milho, um eventual aperto na oferta norte-americana também fortalece o espaço para o cereal brasileiro nas exportações, sobretudo com a entrada da segunda safra no mercado.
Além do aumento da competitividade, preços internacionais mais firmes tendem a melhorar a remuneração ao produtor brasileiro e elevar a receita com as exportações, beneficiando a balança comercial do agronegócio.
Por outro lado, um mercado mais valorizado também traz desafios. A alta das cotações pode elevar os custos para cadeias consumidoras de grãos, como avicultura, suinocultura, bovinocultura de confinamento e produção de etanol de milho, pressionando as margens dessas atividades.
Outro fator que mantém os investidores cautelosos é que a safra norte-americana ainda atravessa fases decisivas de desenvolvimento. Caso as condições climáticas melhorem nas próximas semanas, parte das perdas poderá ser revertida, reduzindo a pressão sobre a oferta e limitando novas altas nos preços.
Dessa forma, o mercado deve continuar sensível aos próximos boletins do USDA e às previsões meteorológicas para o Meio-Oeste dos Estados Unidos, fatores que seguirão determinando o comportamento das cotações internacionais e, consequentemente, os reflexos sobre o agronegócio brasileiro.
Por: Fabíola Camilo
