
O agronegócio brasileiro pode transformar parte de suas práticas de produção e conservação ambiental em uma nova fonte de receita nos próximos anos. Um estudo apresentado durante o Fórum de Agro & Sistemas Alimentares, na São Paulo Climate Week, estima que o setor tenha potencial para movimentar até 314,3 milhões de créditos de carbono até 2035.
O levantamento, elaborado pela Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do IEAg, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), aponta que o Brasil poderia ampliar sua participação no mercado internacional de carbono sem comprometer as metas climáticas assumidas no Acordo de Paris.
Em um cenário considerado moderado, com autorizações limitadas a um impacto de até 4% sobre a segunda Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, o país poderia negociar cerca de 15,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente no mercado internacional.
Esse volume teria potencial de gerar até R$ 2,4 bilhões em receitas por meio dos chamados Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente (ITMOs), mecanismo previsto no Artigo 6 do Acordo de Paris.
Se destinados ao Corsia, programa internacional de compensação de emissões da aviação civil, o potencial estimado chega a R$ 3,5 bilhões.
Campo pode ser parte da solução
O estudo aponta três grandes frentes para o agronegócio ampliar sua participação nesse mercado: manejo aprimorado de terras agrícolas, recuperação de áreas degradadas e redução das emissões de metano provenientes do manejo de dejetos animais.
São práticas que aproximam produção e sustentabilidade e podem transformar investimentos ambientais em ativos com valor econômico.
A mudança também representa uma nova perspectiva sobre o papel do agro na agenda climática. Para os pesquisadores, o setor deixa de ser visto apenas pelo volume de emissões associadas à atividade e passa a ser considerado parte importante das soluções para redução de gases de efeito estufa.
Mas existe uma trava importante: a regulamentação.
O potencial estimado pelo estudo não representa receita garantida para produtores ou empresas. Para que os créditos possam efetivamente chegar ao mercado internacional, é necessária autorização do governo brasileiro, reconhecimento dos resultados como ITMOs, existência de compradores e condições favoráveis de mercado.
Regulamentação é o próximo passo
Os pesquisadores apontam que o Brasil já possui projetos, metodologias e capacidade técnica para participar desse mercado, mas ainda precisa avançar na regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris.
Entre as medidas consideradas necessárias estão a definição dos critérios para autorização dos ITMOs, o reconhecimento de metodologias do agronegócio no Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a criação de limites compatíveis com as metas climáticas nacionais e o fortalecimento dos mecanismos de monitoramento e verificação.
O estudo também chama atenção para o Corsia, que amplia a relevância desse mercado para o agro brasileiro. A partir de 2027, o programa internacional de compensação de emissões da aviação civil passará a exigir compensações obrigatórias para a maior parte dos voos internacionais.
Para o produtor rural, o avanço desse mercado pode representar uma oportunidade adicional de renda, especialmente para propriedades que investem em recuperação de áreas, manejo sustentável do solo e redução de emissões.
O desafio agora é transformar potencial em mercado. O Brasil tem escala, território e capacidade produtiva para ocupar espaço relevante na economia de baixo carbono. Falta criar as regras para que esse valor ambiental possa, de fato, chegar ao campo como investimento e renda.
Por: Redação Caderno Agro
