Brasil produz mais carne, mas “picanha barata” continua distante do prato do brasileiro

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Foto: magnific.com

A promessa de que o brasileiro voltaria a comer picanha com frequência está cada vez mais distante da realidade do consumidor. Mesmo com o Brasil ampliando a produção de carne bovina e mantendo uma das maiores cadeias pecuárias do mundo, o cenário de preços, custos, tributação e perda de poder de compra continua restringindo o acesso da população à proteína.

A avaliação foi apresentada por Fernando Iglesias, coordenador de inteligência de mercado da Safras & Mercado, em entrevista ao podcast Radar Rural, do Canal Rural. Segundo o analista, o consumidor não deve esperar uma queda expressiva dos preços da carne bovina nos próximos anos.

“Não é esse ano que nós vamos comer picanha barata, não é em 2026 e também não é em 2027 pela questão do ciclo pecuário”, afirmou Iglesias durante a entrevista.

A declaração expõe um contraste que se tornou cada vez mais evidente desde a promessa feita pelo atual governo federal de que a picanha voltaria à mesa dos brasileiros. A produção nacional de carne bovina é gigantesca e o país segue ampliando sua presença no mercado internacional, mas isso não significa, automaticamente, carne barata no supermercado.

O preço que chega ao consumidor é resultado de uma cadeia muito maior do que o valor pago ao pecuarista pelo boi. Custos de produção, reposição, alimentação, transporte, energia, industrialização, distribuição, margens comerciais e tributação entram na formação do preço final.

É justamente aí que aparece um dos principais paradoxos da pecuária brasileira: o país produz em escala mundial, mas colocar um corte nobre como a picanha regularmente no prato de uma família de menor renda continua sendo difícil.

Mais produção não significa carne barata

A pecuária brasileira atravessa um período de forte demanda externa, ao mesmo tempo em que enfrenta um ciclo de oferta de animais que influencia diretamente os preços.

Para Iglesias, a combinação entre oferta, exportações e consumo doméstico deve manter a carne bovina em patamar elevado.

O problema é que o consumidor brasileiro não vive apenas a realidade da carne. Ele também enfrenta inflação acumulada, endividamento e orçamento doméstico pressionado.

Nesse cenário, a carne bovina passa a disputar espaço com proteínas de menor preço.

“ A classe C e D vai apresentar essas dificuldades de consumo muito mais aparentes. A escolha dessas famílias vai recair sobre proteínas mais baratas”, afirmou o analista.

Frango, carne suína, ovos e embutidos tendem a ganhar espaço quando o preço da carne bovina sobe. Não necessariamente porque o consumidor deixou de gostar de carne bovina, mas porque precisa adaptar o orçamento.

O Brasil exporta mais, mas o mercado interno paga a conta?

A forte presença brasileira no mercado internacional é uma das grandes forças da pecuária nacional, mas também aumenta a importância do equilíbrio entre exportação e abastecimento doméstico.

A China continua sendo o principal destino da carne bovina brasileira. Segundo Iglesias, o país asiático responde por quase metade das exportações brasileiras do produto.

E esse mercado enfrenta uma nova variável: a cota tarifária chinesa.

Para 2026, a China estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas para as importações brasileiras de carne bovina. A medida reduz o espaço para volumes adicionais acima do limite estabelecido e acrescenta uma nova variável à formação dos preços e à estratégia dos frigoríficos brasileiros.

O analista avalia, porém, que a China continuará sendo o principal mercado brasileiro.

“Não é o volume europeu que vai substituir a China. A China é metade da exportação brasileira e vai seguir sendo o nosso carro-chefe”, afirmou.

A questão, portanto, não é simplesmente produzir mais. É conseguir equilibrar uma cadeia que atende simultaneamente a um consumidor interno com renda limitada e compradores internacionais dispostos a pagar pela carne brasileira.

O corte é exportado para China e União Europiea, que consomem cerca de 1,81 milhão toneladas – Foto: Divulgação

Mato Grosso do Sul sente diretamente essa equação

Para Mato Grosso do Sul, um dos grandes polos pecuários do país, essa discussão tem impacto direto.

O Estado possui uma cadeia bovina estruturada, forte presença de frigoríficos e uma produção voltada tanto ao mercado interno quanto à exportação. Quando o mercado externo ganha força, a demanda por animais tende a aumentar e influencia a formação da arroba.

Por outro lado, quando a carne chega ao varejo, o consumidor enfrenta uma composição de custos completamente diferente daquela observada na porteira.

Essa diferença ajuda a entender por que o produtor pode receber uma arroba valorizada e, ainda assim, o consumidor considerar a carne cara.

Entre o boi produzido no campo e a picanha colocada na bandeja do supermercado existe uma extensa cadeia de custos e tributos.

Por isso, atribuir exclusivamente ao pecuarista a responsabilidade pelo preço elevado da carne é simplificar uma equação muito mais complexa.

Europa cria outra pressão sobre a cadeia

Enquanto a China interfere diretamente na dinâmica comercial, a União Europeia aumenta a pressão sobre a estrutura produtiva brasileira por meio de exigências de rastreabilidade, controle sanitário, uso de antimicrobianos, questões ambientais e bem-estar animal.

Durante a entrevista ao Radar Rural, Iglesias destacou que a fragmentação da pecuária brasileira torna esse processo mais complexo.

O mesmo animal pode passar por diferentes propriedades durante as etapas de cria, recria e engorda. Documentar toda essa trajetória exige sistemas, tecnologia, organização e investimento.

Embora a União Europeia represente uma parcela pequena das exportações brasileiras de carne bovina, o mercado possui importância estratégica porque suas exigências podem ser adotadas posteriormente por outros compradores.

Picanha barata não aparece no horizonte

A conclusão apresentada no podcast é direta: o consumidor brasileiro não deve esperar uma picanha barata no curto prazo.

O ciclo pecuário continua sendo determinante. A oferta de animais, os custos de reposição e a demanda externa formam uma combinação que mantém pressão sobre a arroba.

Iglesias avalia que o confinamento continuará apresentando rentabilidade em 2026, embora inferior à registrada em 2025. A reposição mais cara reduz as margens, mas a disponibilidade de uma dieta considerada acessível mantém a atividade economicamente interessante.

Para o último trimestre, o analista ainda vê possibilidade de novas altas da arroba, dependendo da combinação entre oferta restrita, demanda internacional, consumo doméstico e eventual retomada da cota chinesa.

Isso significa que, apesar de o Brasil produzir carne bovina em escala cada vez maior, a promessa de transformar a picanha em um alimento acessível às famílias brasileiras esbarra em uma realidade muito mais complexa.

Produzir mais é apenas uma parte da equação.

Para que a carne chegue mais barata ao prato, seria necessário reduzir custos ao longo de toda a cadeia, melhorar eficiência logística e industrial e, principalmente, discutir o peso da tributação e das demais despesas que se acumulam até o produto chegar ao consumidor.

Enquanto isso não acontece, a picanha continua sendo um corte valorizado no mercado externo e um produto de acesso mais restrito para boa parte das famílias brasileiras.

A promessa política pode ter colocado a picanha como símbolo de poder de compra. O mercado, porém, está mostrando que colocar o corte nobre novamente na mesa de forma frequente depende de muito mais do que aumentar a produção de gado.

E, pelo cenário traçado para 2026 e 2027, a “picanha barata” continua mais próxima de uma promessa de campanha do que da realidade do supermercado.

Por: Amanda Coelho
Fonte: entrevista de Fernando Iglesias, coordenador de inteligência de mercado da Safras & Mercado, ao podcast Radar Rural, do Canal Rural.