Etanol ganha força em Mato Grosso do Sul e transforma milho em combustível; preço mantém competitividade nos postos

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O etanol chega a agosto mostrando que o mercado de biocombustíveis continua estratégico para Mato Grosso do Sul. Enquanto o preço médio do etanol hidratado recuou em 22 Estados e no Distrito Federal na semana de 2 a 8 de agosto, Mato Grosso do Sul registrou alta, em um movimento que contrasta com a média nacional, mas não tira o combustível da faixa de competitividade diante da gasolina.

Segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), compilado pela AE-Taxas, o preço médio do etanol no Brasil caiu 1,50% na semana, de R$ 4,00 para R$ 3,94 por litro. Em Mato Grosso do Sul, entretanto, houve aumento.

Mesmo com a alta estadual, a paridade do etanol em relação à gasolina ficou em 60,65% em MS. Pela referência tradicional do mercado, o biocombustível é considerado competitivo quando representa até 70% do preço da gasolina.

O cenário mostra que, além da produção agrícola, Mato Grosso do Sul vem consolidando uma cadeia industrial cada vez mais importante em torno do etanol. E o ponto central dessa transformação está na diversificação da matéria-prima.

MS deixa de ser apenas produtor de cana e amplia etanol de milho

A produção sul-mato-grossense de etanol já não depende exclusivamente da cana-de-açúcar. O milho ganhou espaço rapidamente nas usinas instaladas no Estado, criando uma nova rota de transformação da produção agrícola em combustível.

Essa mudança é particularmente importante porque conecta duas das principais atividades do campo de MS: a produção de grãos e a indústria de biocombustíveis.

Usinas que utilizam milho conseguem operar em períodos diferentes da safra de cana e aproveitam uma matéria-prima produzida em larga escala no Estado. O resultado é uma indústria menos dependente de uma única cultura e uma demanda adicional por milho que permanece dentro da própria cadeia produtiva.

Além do etanol, a indústria de milho gera coprodutos, como o DDG, utilizado na alimentação animal. Dessa forma, parte do grão que entra na indústria retorna ao setor pecuário como ingrediente para nutrição, criando uma conexão direta entre agricultura, indústria e pecuária.

É uma mudança estrutural para Mato Grosso do Sul: o milho deixa de ser apenas uma commodity destinada à comercialização e passa também a ser transformado dentro do próprio Estado.

Usina de etanaol em SIdrolandoa/MS – Foto: Divulgação

Demanda industrial pressiona expansão da produção agrícola

O avanço das usinas de etanol ocorre justamente em um momento de crescimento da produção de grãos em Mato Grosso do Sul.

A expansão da indústria aumenta a necessidade de matéria-prima e cria um mercado consumidor mais próximo das regiões produtoras. Para o agricultor, isso significa uma alternativa adicional de comercialização e, dependendo da localização e das condições de mercado, possibilidade de redução da dependência de compradores tradicionais.

A cana continua tendo papel central na indústria sul-mato-grossense, mas o milho passou a ocupar uma posição estratégica. O sorgo também ganha importância como cultura complementar dentro do sistema de produção de grãos, especialmente pela possibilidade de utilização em sucessão à soja e por sua adaptação às condições de produção do Estado.

Esse movimento amplia a importância do planejamento agrícola. A área plantada deixa de responder apenas à demanda por exportação ou alimentação animal e passa também a ser influenciada pela capacidade industrial instalada no próprio território sul-mato-grossense.

E30 aumenta importância estratégica do etanol

A perspectiva para o setor é de uma demanda ainda maior.

A elevação da mistura de etanol anidro na gasolina para E30, adotada pelo governo federal, reforça estruturalmente o mercado de biocombustíveis. Para Mato Grosso do Sul, que possui uma cadeia sucroenergética consolidada e vem ampliando a produção de etanol de milho, o movimento abre espaço para novos investimentos e maior utilização da produção agrícola dentro do próprio Estado.

A consequência vai além das bombas dos postos.

Mais demanda por etanol significa maior necessidade de cana, milho e infraestrutura industrial. Significa também maior movimentação de transporte, armazenamento, comercialização de grãos e produção de coprodutos.

Na prática, o Estado começa a transformar uma parcela crescente de sua produção agrícola em energia antes mesmo de ela deixar Mato Grosso do Sul.

Competitividade continua sendo um trunfo

Apesar da alta registrada em MS na última semana, o etanol sul-mato-grossense permaneceu em uma faixa considerada altamente competitiva.

A paridade estadual de 60,65% ficou abaixo do limite de 70% utilizado tradicionalmente para comparar a relação de preços entre os dois combustíveis.

Na média nacional, a relação ficou em 60,15%. São Paulo apresentou uma das maiores vantagens para o consumidor, com paridade de 57,17% e preço médio de R$ 3,63 por litro.

Mato Grosso registrou 55,13%, enquanto Goiás ficou em 63,25%.

Os números mostram que o preço na bomba continua sendo um dos principais fatores de sustentação da demanda pelo biocombustível. Mas, para Mato Grosso do Sul, a discussão já ultrapassa a competitividade no posto.

O Estado está construindo uma cadeia em que a produção agrícola alimenta a indústria, a indústria produz combustível e coprodutos e esses coprodutos retornam para outras atividades do próprio agronegócio.

É essa integração que pode ampliar ainda mais o mercado de etanol em MS nos próximos anos.

O mercado em números

Enquanto o preço recuou em 22 Estados e no Distrito Federal, a alta registrada em Mato Grosso do Sul pode ser explicada pela dinâmica regional de oferta e demanda. O mercado de etanol é fortemente influenciado pela disponibilidade do produto nas usinas, ritmo de produção, formação de estoques, custos logísticos e condições de comercialização entre produtores, distribuidoras e postos. Assim, movimentos de preços podem ocorrer de forma diferente entre os Estados, mesmo diante de uma tendência nacional de queda. Em MS, a particularidade da oferta regional e os custos de distribuição ajudam a explicar a pressão de alta observada na semana.

  • Preço médio do etanol no Brasil: R$ 3,94/litro na semana de 2 a 8 de agosto.
  • Variação nacional: -1,50%.
  • São Paulo: R$ 3,63/litro.
  • Paridade nacional com a gasolina: 60,15%.
  • Paridade em Mato Grosso do Sul: 60,65%.
  • Limite tradicional de competitividade: até 70% do preço da gasolina.
  • Em MS, o etanol ficou competitivo mesmo com a alta registrada na semana.

Caderno Agro
Fontes: ANP/AE-Taxas, Conab, IBGE e dados oficiais do setor sucroenergético.