
Quem nunca terminou a semana com uma cerveja gelada na mão? Pode ser para comemorar uma conquista, acompanhar aquele jogo do fim de semana ou simplesmente jogar a conversa fora com os amigos. E, como dizem algumas das boas e velhas músicas sertanejas, até para tentar esquecer um amor que não deu certo.
Mas, por trás desse copo, existe uma cadeia produtiva gigantesca — e que movimenta agricultura, indústria, logística, empregos e bilhões de reais.
O Brasil é o terceiro maior consumidor de cerveja do mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. São cerca de 15 bilhões de litros consumidos por ano. E, para colocar toda essa cerveja na mesa do brasileiro, é preciso muito mais do que água, criatividade e uma boa receita.
É preciso cevada. É preciso malte. E é preciso lúpulo.Mais do que uma bebida, a cerveja representa uma cadeia industrial que começa no campo.

A cevada que vira malte
A cevada é uma das principais matérias-primas da indústria cervejeira. Mas ela não vai diretamente para a cervejaria. Primeiro, passa pelo processo de maltagem.
É o malte que fornece boa parte dos componentes necessários para a produção da cerveja. E o Brasil está aumentando a produção de cevada justamente porque existe uma indústria cervejeira forte e em expansão. A estimativa para 2026 é de uma produção brasileira superior a 600 mil toneladas de cevada. O avanço é expressivo, mas ainda não é suficiente para atender toda a demanda nacional.
O Brasil consome aproximadamente 1 milhão de toneladas de cevada por ano. Ou seja: mesmo produzindo algo entre 600 mil e 650 mil toneladas, o país ainda precisa importar entre 400 mil e 500 mil toneladas para abastecer o mercado.
É aí que aparece uma das principais características dessa cadeia: a indústria cervejeira brasileira ainda depende do mercado externo, mas essa dependência vem diminuindo conforme aumenta a produção nacional.
Cerca de 90% da cevada e do malte importados pelo Brasil têm origem em países da América do Sul, principalmente Argentina e Uruguai. Na produção nacional, o Paraná aparece como protagonista. Estima-se que entre 80% e 85% de toda a cevada produzida no Brasil esteja concentrada no Estado.
E não é apenas no campo. O Paraná também ganhou força na industrialização da cevada, especialmente por meio de estruturas cooperativas e de intercooperação que transformam o grão em malte cervejeiro.
O resultado é significativo: estima-se que aproximadamente metade das cervejas produzidas no Brasil utilize malte originário de maltarias paranaenses. É um exemplo claro de como a indústria pode puxar a produção agrícola. Não é necessariamente a cevada recorde que cria a indústria cervejeira. É a demanda da indústria que estimula o produtor a plantar mais cevada.

E onde entra o lúpulo?
Se a cevada é a base do malte, o lúpulo é outro ingrediente fundamental para a cerveja. Ele participa da definição do aroma e do sabor da bebida e é responsável também pelo tradicional amargor, e aqui existe outro desafio para o Brasil: a produção nacional ainda é pequena diante da demanda da indústria.
O país vem tentando desenvolver uma cadeia própria de produção de lúpulo, com produtores investindo em variedades adaptadas às condições brasileiras, tecnologia e manejo. É uma cultura que chama atenção justamente pelo alto valor agregado e pela possibilidade de ocupar nichos especializados dentro da cadeia cervejeira.
Para Mato Grosso do Sul, onde a indústria cervejeira já possui marcas artesanais e empresas de maior escala, o desenvolvimento dessas matérias-primas abre uma discussão que vai muito além do copo. É a possibilidade de aproximar ainda mais agricultura e indústria.



Um brinde a Mato Grosso do Sul
Mato Grosso do Sul também tem espaço nesse mercado. O Estado conta atualmente com 12 fábricas de cerveja registradas e em funcionamento e 205 marcas catalogadas, reunindo desde indústrias regionais até microcervejarias artesanais e marcas ciganas, que terceirizam a produção.
A estimativa é de que o setor produza entre 120 milhões e 150 milhões de litros de cerveja por ano em território sul-mato-grossense. A maior parte desse volume vem das indústrias de médio porte, enquanto as microcervejarias, apesar de representarem uma parcela menor da produção, ampliam a diversidade e a presença da cerveja artesanal no Estado.
Em Campo Grande, esse movimento aparece em marcas como Toro Morto, Canalhas e Louvada, além de empresas de maior escala, como Moema e Bamboa. O resultado é um mercado que combina produção industrial e artesanal e coloca Mato Grosso do Sul dentro de uma cadeia cervejeira em expansão no país.
Caderno Agro
