Dívida pública chega a R$ 9,29 trilhões e juros impedem recuo do endividamento

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A dívida pública brasileira continua avançando e já se aproxima de R$ 9,3 trilhões. Mesmo com o Tesouro Nacional tendo resgatado mais títulos do que emitiu em julho, o peso dos juros foi suficiente para impedir uma redução do endividamento. O cenário coloca pressão sobre as contas públicas e mantém elevado o custo que, direta ou indiretamente, acaba sendo financiado por toda a sociedade.

Segundo dados divulgados nesta quarta-feira (26) pelo Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal (DPF) passou de R$ 9,268 trilhões em junho para R$ 9,288 trilhões em julho, crescimento de 0,22%. Em junho, o estoque já havia ultrapassado pela primeira vez a marca de R$ 9 trilhões.

O número ainda está abaixo da previsão oficial para o encerramento de 2026. O Plano Anual de Financiamento (PAF), revisado pelo Tesouro, estima que a dívida termine o ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

O problema, porém, não está apenas no tamanho do estoque. O custo para carregar essa dívida também permanece elevado.

Em julho, o Tesouro resgatou R$ 61,91 bilhões a mais em títulos do que emitiu. Ainda assim, a dívida não caiu. A explicação está nos R$ 89,95 bilhões em juros incorporados ao estoque no mês.

Com a Selic em 14% ao ano, uma parcela significativa dos títulos públicos fica diretamente exposta aos juros básicos da economia. E esse custo não desaparece: ele é incorporado ao estoque da dívida e aumenta a necessidade de financiamento do governo.

Juros transformam dívida em uma conta cada vez maior

A dinâmica é relativamente simples: para financiar suas despesas e compromissos, o governo toma dinheiro emprestado dos investidores por meio da emissão de títulos públicos. Em troca, assume a obrigação de devolver esses recursos no futuro acrescidos de juros ou de correções vinculadas à Selic, à inflação, ao câmbio ou a uma taxa previamente estabelecida.

Quanto maior a dívida e quanto mais altos os juros, maior tende a ser o custo desse financiamento.

Em julho, dos R$ 198,14 bilhões em títulos da dívida mobiliária interna emitidos pelo Tesouro, R$ 124,11 bilhões estavam vinculados à Selic. Isso mostra o grau de exposição do endividamento brasileiro ao atual patamar dos juros.

Na prática, o país está diante de uma combinação que dificulta a redução da dívida: um estoque gigantesco e uma taxa de juros elevada.

Ano eleitoral aumenta pressão sobre as contas

O cenário também merece atenção diante da proximidade das eleições de 2026. Períodos eleitorais costumam ampliar a pressão por medidas capazes de gerar ganhos políticos imediatos, como aumento de gastos, expansão de benefícios ou criação de programas públicos.

O risco fiscal está justamente na possibilidade de que decisões dessa natureza aumentem as despesas sem que exista uma fonte permanente de receita para financiá-las.

Em um país que já carrega uma dívida superior a R$ 9 trilhões, qualquer deterioração das contas públicas pode aumentar a percepção de risco e, consequentemente, pressionar o custo de financiamento do governo.

Isso cria um círculo difícil de romper: mais gastos podem exigir mais endividamento; mais endividamento pode elevar a percepção de risco; e juros elevados tornam a própria dívida ainda mais cara.

Por isso, a trajetória fiscal será um dos pontos de atenção ao longo do período eleitoral. O espaço para aumento de despesas não é ilimitado e a conta das decisões tomadas hoje permanece para os próximos anos.

Tesouro mantém colchão recorde

Apesar do avanço da dívida, o governo também reforçou sua reserva financeira. O chamado colchão da dívida chegou a R$ 1,37 trilhão em julho, quarto mês consecutivo de alta e maior nível da série histórica iniciada em 2015.

A reserva é utilizada para garantir o pagamento dos compromissos em momentos de turbulência financeira ou de concentração de vencimentos.

O colchão atual é suficiente para cobrir aproximadamente 7,81 meses de vencimentos. Mesmo assim, o volume de compromissos que se aproxima é expressivo: nos próximos 12 meses, estão previstos R$ 1,76 trilhão em vencimentos de títulos federais.

Ou seja, manter uma reserva elevada é importante, mas não resolve o problema estrutural do endividamento.

Dívida interna concentra maior parte do problema

A Dívida Pública Mobiliária Federal interna avançou 0,31% em julho, passando de R$ 8,921 trilhões para R$ 8,948 trilhões.

Já a dívida externa caiu 2,12%, para R$ 340,06 bilhões, influenciada principalmente pela valorização do real frente ao dólar no período.

Na composição da dívida interna, os títulos atrelados à Selic ganharam participação e passaram de 49,32% para 51,11% do estoque. Os papéis corrigidos pela inflação representaram 26,02%, enquanto os prefixados recuaram de 21,04% para 19,22%.

A maior participação dos títulos vinculados à Selic deixa o custo da dívida particularmente sensível à política de juros.

Quem paga essa conta?

A dívida pública é, em essência, uma forma de o governo antecipar recursos para financiar suas obrigações. O problema aparece quando o estoque cresce continuamente e uma parcela cada vez maior dos recursos públicos precisa ser destinada ao pagamento de juros.

Essa conta não é paga por uma única fonte. Ela está relacionada à arrecadação de impostos, às receitas do governo e à necessidade de administrar continuamente o orçamento para fazer frente aos compromissos financeiros.

Em outras palavras, quanto maior o custo da dívida, maior a pressão sobre o espaço disponível para outras despesas públicas.

O desafio para o governo federal é interromper uma trajetória em que os juros passam a alimentar o próprio estoque da dívida. Em julho, mesmo com o Tesouro retirando mais dinheiro do mercado por meio de resgates do que colocando por novas emissões, quase R$ 90 bilhões em juros foram suficientes para fazer a dívida continuar crescendo.

E, diante de um ano eleitoral, a capacidade do governo de controlar gastos e preservar o equilíbrio das contas públicas será ainda mais observada pelo mercado. Sem uma trajetória fiscal sustentável, o Brasil corre o risco de continuar pagando caro para financiar uma dívida que já alcança patamares históricos.

Por: Amanda Coelho