
O agronegócio brasileiro fechou o primeiro trimestre de 2026 com menos trabalhadores — e o movimento acende um sinal de atenção para a economia do setor. Depois de uma sequência de recordes na ocupação, o número de pessoas trabalhando no agro recuou 1% em relação ao mesmo período de 2025, o equivalente a 267,3 mil postos a menos.
Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ao todo, 27,79 milhões de pessoas estavam ocupadas no agronegócio entre janeiro e março deste ano, número que correspondeu a 25,73% de toda a população ocupada no país.
A queda ocorre em um momento em que o mercado de trabalho brasileiro também perdeu força. No primeiro trimestre, a taxa de desocupação nacional ficou em 6,1%. Para os pesquisadores do Cepea, a retração da ocupação no agro acompanha esse movimento mais amplo da economia.
O impacto, porém, não foi distribuído de forma igual entre os segmentos. A maior redução ocorreu nos agrosserviços, que perderam 308 mil trabalhadores, queda de 2,9%. Na sequência aparecem as agroindústrias, com retração de 3,1%, ou 148,5 mil pessoas, e o setor de insumos, que recuou 1,2%.
O segmento primário foi na direção contrária e registrou crescimento de 2,5%, incorporando cerca de 190 mil trabalhadores. O avanço, no entanto, não foi suficiente para compensar as perdas dos demais elos da cadeia.
MS segue na contramão
Em Mato Grosso do Sul, o cenário é mais positivo. O estado registrou taxa de desocupação de apenas 2,7% no segundo trimestre de 2026, uma das menores do país. O índice caiu 1,1 ponto percentual em relação aos 3,8% registrados no primeiro trimestre.
A informalidade também permanece relativamente baixa, em 29,2%, enquanto o agronegócio mantém papel importante na geração de trabalho e renda no estado.
A produção rural responde por aproximadamente 97,9 mil ocupações diretas em Mato Grosso do Sul, com destaque para atividades como bovinocultura, florestas plantadas, soja e cana-de-açúcar.
Ainda assim, os números nacionais servem como um alerta. A redução da mão de obra ocorre justamente depois de anos de expansão da ocupação no agronegócio e mostra que o setor não está imune às mudanças no ritmo da economia.
Outro dado chama atenção: a queda atingiu empregados com e sem carteira assinada, empregadores e trabalhadores familiares. Apenas os trabalhadores por conta própria registraram crescimento, de 1,8%, com cerca de 120 mil pessoas a mais.
Agro mais escolarizado
Apesar da redução geral da ocupação, o perfil da mão de obra continua mudando. O número de trabalhadores com ensino superior cresceu 1,6%, com aproximadamente 72,9 mil pessoas a mais.
Já entre os trabalhadores sem instrução, com ensino fundamental ou com ensino médio houve retração.
O movimento indica que, enquanto o agronegócio reduz parte de sua força de trabalho, também passa por uma transformação no perfil de quem permanece no setor, com maior presença de profissionais qualificados.
Em Mato Grosso do Sul, onde o agro tem peso expressivo na economia e o desemprego permanece em patamar historicamente baixo, o cenário ainda é de resistência. Mas a queda nacional mostra que o setor começa a sentir os efeitos de uma economia menos aquecida — e o comportamento da ocupação nos próximos trimestres será um indicador importante para medir a força dessa desaceleração.
Por: Adriana Candido de Castro
