Trump quer mais bois nos EUA, mas estratégia pode reduzir oferta de carne e abrir espaço para o Brasil

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Os Estados Unidos querem mais bois no pasto. O problema é que, para conseguir isso, terão de aceitar uma consequência difícil no curto prazo: menos carne chegando ao consumidor.

É esse o paradoxo por trás do novo pacote anunciado pelo governo Donald Trump para tentar reconstruir o rebanho bovino americano, que está no menor nível em 75 anos.

Chamado de “Ranchers First”, o programa aposta em seguro para estimular a retenção de fêmeas, crédito para frigoríficos independentes, incentivos para novos pecuaristas e preferência pela carne produzida nos próprios Estados Unidos nas compras governamentais.

A estratégia é ambiciosa. Washington quer reconstruir o rebanho, fortalecer os pecuaristas americanos e reduzir a dependência de carne importada.

Mas existe uma conta que não pode ser ignorada: uma fêmea que permanece no pasto para reprodução é um animal que deixa de ir para o abate.

E isso pode apertar ainda mais a oferta de carne americana justamente agora.

Para ter mais bois amanhã, os EUA podem ter menos carne hoje

O principal mecanismo do pacote é o BRAND, uma nova cobertura vinculada ao programa Livestock Risk Protection (LRP).

A proposta é reduzir o risco financeiro de uma decisão que pesa diretamente sobre o caixa do pecuarista: vender uma novilha para o abate ou mantê-la na propriedade para transformá-la em matriz.

O governo pretende oferecer proteção por dois anos. Se o valor que o animal alcançaria no abate superar a vantagem econômica de mantê-lo na reprodução, a cobertura poderá compensar essa diferença.

A intenção é clara: fazer com que reter fêmeas deixe de ser uma decisão tão arriscada para o produtor.

Só que existe uma limitação que nenhum programa consegue eliminar: o tempo biológico.

A novilha que não vai para o frigorífico hoje não vira um boi pronto para o abate amanhã. Primeiro vem a reprodução. Depois, o nascimento do bezerro. Em seguida, crescimento, engorda e todo o ciclo necessário até que o animal esteja novamente disponível para a indústria.

Por isso, a política pode produzir um efeito curioso: reduzir a oferta de carne antes de conseguir aumentar a oferta de gado.

Essa defasagem é fundamental para entender o que pode acontecer no mercado americano — e por que o movimento também interessa diretamente ao Brasil.

O consumidor americano pode pagar a conta

Os Estados Unidos não estão tentando reconstruir o rebanho em um mercado tranquilo.

A carne bovina já está cara para o consumidor americano e os alimentos enfrentam forte pressão de preços.

O governo Trump, portanto, precisa resolver dois problemas simultaneamente.

De um lado, precisa reconstruir o rebanho, que encolheu para o menor tamanho em décadas.

De outro, precisa impedir que a redução da oferta doméstica provoque uma escalada ainda maior nos preços da carne.

São objetivos que, no curto prazo, podem entrar em conflito.

Reter fêmeas ajuda a reconstruir o rebanho, mas reduz o número de animais destinados imediatamente ao abate. Aumentar as importações ajuda a abastecer o mercado, mas aumenta a dependência de fornecedores estrangeiros.

E é justamente nesse espaço que o Brasil aparece.

Enquanto os americanos seguram bois, o Brasil ganha espaço

O Brasil ampliou sua participação no mercado americano em um momento em que a oferta doméstica dos Estados Unidos está apertada.

A lógica é simples: quando um dos maiores produtores e consumidores de carne bovina do mundo tem menos animais disponíveis, precisa buscar carne fora de suas fronteiras.

Isso cria uma oportunidade para exportadores como o Brasil.

Mas o novo programa de Trump mostra que Washington não pretende simplesmente aceitar essa dependência.

O governo americano está tentando construir uma resposta de longo prazo.

E ela vai muito além da fazenda.

Trump mira o pecuarista — mas também o frigorífico

O “Ranchers First” inclui linhas de crédito garantidas para frigoríficos pequenos e regionais, cooperativas de processamento e empresas que atuem na diversificação de proteínas processadas.

A estratégia tem uma razão prática.

Não basta aumentar o número de bois se não houver capacidade industrial suficiente para abatê-los e processá-los.

Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), após os recentes fechamentos de plantas, quase 20% da capacidade de processamento de carne bovina poderá estar disponível quando o rebanho voltar a crescer.

Trump quer, portanto, mexer em toda a cadeia.

Quer mais pecuaristas produzindo. Quer mais animais no campo. Quer mais frigoríficos independentes. E quer garantir mercado para a carne americana.

É uma tentativa de reorganizar a cadeia bovina dos Estados Unidos de ponta a ponta.

O governo também quer criar um mercado cativo

Uma das medidas mais simbólicas do pacote é a prioridade para a carne bovina americana nas compras governamentais.

Hospitais, presídios e outras instituições públicas poderão priorizar carne produzida e processada nos Estados Unidos.

Na prática, Washington pretende usar o poder de compra do próprio Estado para criar demanda para o produtor americano.

É uma política que vai além do estímulo à produção.

É uma tentativa de construir um mercado preferencial para a carne doméstica.

E isso pode representar uma ameaça futura aos exportadores que hoje aproveitam o espaço deixado pela escassez americana.

Entre eles, está o Brasil.

E ainda existe um problema sanitário

A equação americana ficou ainda mais complicada com a questão sanitária.

A identificação da mosca-da-bicheira, conhecida como “bicheira do Novo Mundo” (Cochliomyia hominivorax), nos Estados Unidos, em junho, adicionou uma nova preocupação ao abastecimento.

A praga também provocou medidas sanitárias envolvendo o México, importante fornecedor de gado para o mercado americano.

O resultado é um cenário de pressão em várias frentes: rebanho reduzido, oferta de carne apertada, demanda firme e problemas sanitários que podem afetar o fluxo de animais.

Nesse ambiente, importar carne é a solução mais rápida.

Reconstruir o rebanho, porém, é a solução estratégica.

O que isso significa para o Brasil?

O Brasil pode estar diante de uma janela importante — mas não necessariamente permanente.

No curto prazo, quanto mais fêmeas forem retiradas do circuito de abate americano para recompor o rebanho, maior pode ser a pressão sobre a oferta doméstica de carne.

Isso tende a favorecer fornecedores externos.

Para o Brasil, significa potencialmente mais espaço em um dos maiores mercados consumidores do planeta.

Mas existe um detalhe importante: o mesmo movimento que abre espaço para a carne brasileira hoje pode reduzir esse espaço no futuro.

Se o programa de Trump funcionar, os Estados Unidos poderão chegar aos próximos anos com um rebanho maior, uma indústria frigorífica mais pulverizada e uma política deliberadamente voltada para privilegiar a produção nacional.

E há outro fator político.

O governo americano já vem questionando a concentração da indústria frigorífica, dominada por grandes empresas como Tyson Foods, Cargill, JBS USA e National Beef. As duas últimas têm controle brasileiro: a JBS USA pertence à JBS, enquanto a National Beef é controlada pela MBRF.

Isso coloca a discussão sobre a carne brasileira dentro de uma agenda maior de segurança alimentar, concorrência e soberania produtiva americana.

A oportunidade brasileira tem prazo

A estratégia americana cria uma situação que merece atenção dos pecuaristas e exportadores brasileiros.

No curto prazo, os Estados Unidos podem precisar ainda mais da carne estrangeira justamente porque estão tentando reconstruir seu próprio rebanho.

No longo prazo, porém, Washington quer exatamente o contrário: depender menos do mercado externo.

É por isso que o movimento de Trump não deve ser lido apenas como um pacote de ajuda ao pecuarista americano.

É uma política de reconstrução da cadeia bovina dos Estados Unidos.

A conta dessa reconstrução, entretanto, começa agora.

Para colocar mais bois no pasto amanhã, os americanos podem ter de colocar menos carne no mercado hoje.

E enquanto os Estados Unidos fazem essa escolha, o Brasil está diante de uma oportunidade que pode ser grande — mas que também pode ter data para acabar.

Por: Redação Caderno Agro