
A economia brasileira perdeu força no segundo trimestre de 2026. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,5% na comparação com os três primeiros meses do ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com o segundo trimestre de 2025, a alta foi de 2%, enquanto o acumulado de quatro trimestres ficou em 1,9%.
O resultado deixa um sinal claro de desaceleração. O próprio mercado financeiro projeta crescimento ainda menor para o conjunto de 2026: 1,92%, segundo o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central. No primeiro semestre, a economia acumulou expansão de 1,9%, mas o desempenho dos principais setores mostra que o país está longe de apresentar um crescimento equilibrado.
Agro é quem segura o resultado
Mais uma vez, foi o campo que apareceu como um dos principais motores da economia. A agropecuária cresceu 2,8% no segundo trimestre ante o primeiro e avançou expressivos 6,8% na comparação com o mesmo período de 2025. Em quatro trimestres, a alta chega a 6,2%, muito acima dos 1,4% da indústria e dos 1,7% dos serviços.
Em valores correntes, o setor alcançou R$ 204,6 bilhões no segundo trimestre. Soja e café foram alguns dos destaques, com estimativas de crescimento de 5,3% e 15,1% na produção, respectivamente. A pecuária também contribuiu para o desempenho positivo.
O contraste é ainda maior quando se observa o resultado trimestral: enquanto a agropecuária avançou 2,8%, a indústria cresceu apenas 0,1% e os serviços, 0,2%. O consumo das famílias, por outro lado, recuou 0,4%, enquanto o consumo do governo aumentou 0,4%.
O campo, portanto, continua entregando crescimento em um cenário de economia mais fraca. E isso ocorre mesmo depois de um 2025 excepcional, quando a agropecuária cresceu 11,7% e deixou uma base de comparação elevada.
Investimento cresce, mas economia não ganha tração
A Formação Bruta de Capital Fixo, indicador utilizado para medir os investimentos, avançou 1,2% no trimestre. O número positivo, entretanto, convive com um ambiente de juros elevados, endividamento crescente e perspectivas pouco favoráveis para a atividade econômica.
As exportações brasileiras caíram 0,8% na comparação trimestral, enquanto as importações aumentaram 1,8%. O resultado reforça a percepção de uma economia que encontra dificuldades para ampliar sua capacidade produtiva e depende cada vez mais de fatores pontuais de sustentação.
Nesse ambiente, o desempenho do agro ganha ainda mais peso. O problema é que não aparecem, nos dados apresentados para 2027, medidas capazes de transformar esse desempenho setorial em uma trajetória consistente de crescimento para toda a economia.
Governo prevê arrecadar mais, mas a conta continua pressionada
Enquanto o PIB desacelera, o governo federal projeta uma máquina arrecadatória cada vez maior. O Orçamento de 2027 estima R$ 636 bilhões em receitas com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que substituirá PIS e Cofins, além de R$ 41,9 bilhões com o novo Imposto Seletivo.
Somados, os dois tributos devem gerar R$ 677,9 bilhões. A previsão também inclui R$ 176 bilhões em receitas provenientes da exploração de recursos naturais, incluindo royalties do petróleo.
O ponto central é que o aumento da arrecadação não elimina o problema fiscal. O governo estima receitas líquidas de R$ 2,849 trilhões e despesas totais de R$ 2,83 trilhões em 2027. Mesmo assim, quando entram na conta despesas excluídas das metas fiscais, o resultado primário efetivo projetado cai para apenas R$ 18,6 bilhões, ou 0,13% do PIB.
Ou seja: o Estado arrecada mais, mas continua pressionado por despesas elevadas.
Dívida chega a R$ 10,9 trilhões e deve continuar subindo
A situação fica mais preocupante quando se observa a dívida pública. A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do PIB em julho, equivalente a aproximadamente R$ 10,9 trilhões, segundo os dados apresentados.
É o maior patamar em cinco anos. Para 2026, a expectativa do mercado é de encerramento do ano em torno de 83% do PIB. Para 2027, a projeção sobe para 86,77%.
O cenário é ainda mais severo na estimativa do Fundo Monetário Internacional, que utiliza uma metodologia diferente e projeta uma dívida bruta próxima de 100% do PIB em 2027.
O avanço do endividamento ocorre em grande parte sob influência dos juros nominais. E é justamente aí que está uma das maiores fragilidades da economia brasileira: o país tenta conter as contas públicas enquanto carrega uma dívida gigantesca e uma taxa de juros que encarece o financiamento do governo, das empresas e do setor produtivo.
Juros altos cobram a conta do setor produtivo
A combinação de dívida elevada, juros exorbitantes e crescimento econômico baixo cria um ambiente pouco favorável para investimentos. O custo do dinheiro permanece elevado justamente quando a economia precisa ampliar sua capacidade produtiva.
Para o produtor rural, o problema é ainda mais sensível. O agro continua sendo responsável por uma parcela importante do crescimento, mas precisa operar em um ambiente de crédito caro, custos elevados e incerteza fiscal.
Enquanto o setor produtivo precisa aumentar eficiência e controlar despesas para permanecer competitivo, o governo enfrenta dificuldades para conter o crescimento estrutural dos gastos. O resultado é uma economia que cresce pouco e uma conta pública que continua aumentando.

Menos espaço para servidores, mas mais recursos para emendas
O contraste aparece também dentro do próprio Orçamento de 2027. Diante do déficit primário, o governo terá de limitar o crescimento das despesas com pessoal a 0,6% acima da inflação enquanto as contas permanecerem no vermelho.
Na prática, a regra reduz o espaço para reajustes com ganho real para servidores federais. O mecanismo alcança servidores ativos, aposentados e pensionistas e deve gerar economia estimada em cerca de R$ 9 bilhões no próximo ano.
O salário mínimo também terá seu aumento limitado pela nova regra. A proposta para 2027 é de R$ 1.741, alta nominal de 7,4% sobre os atuais R$ 1.621. O crescimento real fica limitado a 2,5% acima da inflação.
Ao mesmo tempo em que o governo impõe limites ao crescimento de despesas com pessoal e mantém uma política de contenção do ganho real do salário mínimo, o espaço reservado às emendas parlamentares aumenta.
Emendas ganham R$ 44,8 bilhões
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 reserva R$ 44,8 bilhões para emendas parlamentares individuais e de bancada, R$ 4 bilhões a mais do que o previsto inicialmente para 2026.
E o valor ainda pode crescer durante a tramitação no Congresso, com a inclusão das emendas de comissão, que podem chegar a R$ 12,9 bilhões.
Nos últimos anos, os valores cresceram de maneira significativa. As emendas chegaram a R$ 53 bilhões no Orçamento de 2025 e a R$ 61 bilhões em 2026. Somente entre janeiro e junho deste ano, o Executivo pagou R$ 32,5 bilhões em emendas, 30% acima do recorde registrado no mesmo período de 2022.
O aumento tem impacto direto sobre o espaço disponível para outras despesas discricionárias, como investimentos, infraestrutura, ciência, bolsas de estudo, fiscalização e programas públicos.
É nesse ponto que o desenho fiscal começa a revelar uma contradição: faltam recursos para ampliar investimentos e garantir maior dinamismo à economia, mas as emendas parlamentares seguem ocupando parcela crescente do orçamento.
Um governo que arrecada mais, gasta mais e continua endividado
Os números do Orçamento de 2027 mostram um governo que aposta em aumento de receitas para tentar acomodar uma estrutura de despesas cada vez mais pesada. A reforma tributária amplia e reorganiza a arrecadação, novos tributos entram em cena e receitas com petróleo e outros recursos naturais continuam relevantes.
Ainda assim, a dívida segue subindo.
O problema não é apenas quanto o governo arrecada, mas quanto precisa gastar e quanto custa financiar esse Estado. O resultado é uma combinação de carga tributária elevada, juros altos, dívida crescente e baixo crescimento econômico.
Até aqui, os dados apresentados não indicam uma estratégia capaz de romper esse ciclo. O arcabouço fiscal cria gatilhos e limita algumas despesas, mas funciona principalmente como mecanismo de contenção depois que o problema aparece. Não se vê, nos números do Orçamento, uma mudança estrutural capaz de reduzir de forma consistente a trajetória da dívida e abrir espaço para investimentos produtivos.
Agro entrega resultado, mas não recebe o mesmo tratamento
O contraste com o agronegócio é evidente. O setor cresce acima da economia, sustenta parte relevante do PIB e mantém forte participação na geração de riqueza e nas exportações brasileiras.
Mesmo assim, o produtor enfrenta um ambiente de crédito caro e elevado custo financeiro, enquanto a política econômica segue concentrada em administrar uma máquina pública pressionada por despesas, dívida e juros.
O agro continua fazendo sua parte. No segundo trimestre, cresceu quase seis vezes mais que a economia brasileira na comparação anual: 6,8% contra 2%.
O que os números revelam, portanto, não é apenas uma desaceleração do PIB. Eles mostram uma economia que encontra no campo uma de suas principais fontes de crescimento, enquanto o governo federal convive com uma dívida que aumenta, uma arrecadação que precisa crescer para sustentar as despesas, juros elevados e um orçamento cada vez mais disputado.
Sem medidas estruturais para atacar o crescimento dos gastos, reduzir a pressão sobre a dívida e melhorar o ambiente de investimentos, o risco é o país continuar dependendo do desempenho do agronegócio para entregar crescimento, enquanto o setor público consome uma parcela cada vez maior dos recursos da economia.
Por: Adriana Candido de Castro
