Fim da escala 6×1 exige plano econômico para sustentar empregos, salários e produtividade

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Aprovada pelo Congresso, mudança na jornada de trabalho amplia o descanso semanal, mas levanta questionamentos sobre custos, competitividade e capacidade de crescimento da economia brasileira

A aprovação do fim da escala 6×1 pelo Congresso Nacional atende a uma demanda legítima dos trabalhadores por mais tempo de descanso e convivência familiar. O desafio, porém, está em garantir que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial, seja acompanhada de condições econômicas para preservar empregos, renda e competitividade.

Para o analista do Canal Rural, Miguel Daoud, a votação expressiva no Senado, por 75 votos a um, também precisa ser compreendida pelo contexto político. Na avaliação do jornalista, o apelo popular da proposta, aprovado em um período eleitoral, ajuda a explicar a adesão dos parlamentares e exige atenção para que a medida não se transforme apenas em um ganho político sem respostas para seus efeitos econômicos.

A reivindicação por mais descanso não elimina, entretanto, a necessidade de discutir como empresas e trabalhadores vão absorver a mudança. Se a renda continuar insuficiente para cobrir as despesas, parte dos profissionais poderá recorrer a atividades extras durante o tempo que deveria ser destinado ao descanso.

Custos e produtividade entram na conta

A redução da jornada mantendo os salários eleva o custo por hora trabalhada. O impacto dependerá da capacidade de cada empresa de reorganizar processos, ampliar a produtividade e, quando necessário, contratar profissionais para cobrir os horários.

A adaptação tende a ser mais complexa em atividades que exigem funcionamento contínuo, como a agropecuária. Na produção leiteira, por exemplo, ordenha, alimentação e cuidados sanitários dos animais não podem ser interrompidos aos domingos e feriados. A redução das horas disponíveis por trabalhador pode exigir equipes maiores e novos arranjos de revezamento.

O desafio também alcança pequenos negócios e propriedades rurais, que nem sempre dispõem de recursos para ampliar o quadro de funcionários ou investir rapidamente em tecnologia. Sem ganhos de produtividade capazes de compensar parte das despesas, o aumento dos custos pode pressionar as margens e dificultar a manutenção dos empregos.

Daoud ressalta que as empresas também precisam rever processos, qualificar equipes e buscar formas mais eficientes de produzir. Essas mudanças, porém, não acontecem de maneira uniforme nem produzem resultados imediatos em todos os setores.

O risco de uma mudança sem sustentação econômica

O debate sobre a escala 6×1 vai além da quantidade de horas trabalhadas. Envolve a capacidade do país de combinar melhores condições de trabalho com crescimento econômico, salários que preservem o poder de compra e empresas capazes de continuar investindo e contratando.

Nesse cenário, o analista defende que a discussão seja acompanhada de medidas estruturais para enfrentar os desequilíbrios fiscais, reduzir as pressões sobre os juros e estimular investimentos, qualificação profissional e produtividade.

Na agropecuária, a preocupação é especialmente relevante porque o produtor nem sempre consegue repassar o aumento das despesas ao preço de venda. Em cadeias como a da carne e do leite, os valores recebidos dependem das condições de mercado, o que pode deixar o custo adicional diretamente sobre o resultado da atividade.

Aprovação não encerra a responsabilidade

A mudança prevê dois dias de descanso remunerado por semana e uma transição gradual para a jornada máxima de 40 horas, sem redução salarial. A aplicação depende da promulgação da emenda e dos prazos estabelecidos no texto aprovado.

Para Daoud, o compromisso dos parlamentares não pode terminar com a aprovação de uma medida popular. Governo e Congresso terão de demonstrar como pretendem conciliar o novo regime de trabalho com a geração de empregos, a preservação da renda e o crescimento da economia.

O descanso é uma conquista importante, mas sua sustentação depende de condições concretas para que trabalhadores e empresas consigam se adaptar. Sem produtividade, investimento e estabilidade econômica, o país corre o risco de ampliar direitos sem enfrentar os fatores que limitam o poder de compra e a capacidade de gerar oportunidades.

Por: Redação Caderno Agro