
O mercado brasileiro de leite apresenta sinais de recuperação, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar o crescimento da produção em rentabilidade ao produtor. Em análise divulgada em outubro, a Embrapa aponta um cenário de oferta elevada, avanço das importações e aumento dos custos, fatores que mantêm a pressão sobre as margens da atividade e exigem cautela para os próximos meses e 2027.
Em setembro de 2026, o Brasil importou mais de 243 milhões de litros equivalentes de leite, volume recorde para o país. A entrada de produto estrangeiro amplia a concorrência com a produção nacional em um momento no qual os custos voltaram a subir e os preços pagos ao produtor podem sofrer novos recuos.
Apesar das dificuldades, a atividade brasileira mantém trajetória de expansão e apresenta avanços importantes em produtividade. Segundo estudo da Embrapa, 14 grandes bacias leiteiras concentram mais de 60% da produção nacional, embora ocupem apenas 5% do território brasileiro.
Nessas regiões, a produtividade média passou de 2.453 litros por vaca em 2015 para 3.981 litros em 2025. O resultado supera com folga a média nacional, de 2.499 litros por vaca, evidenciando a importância da especialização e dos ganhos de eficiência para a competitividade da pecuária leiteira.
A produção brasileira alcançou um recorde superior a 100 milhões de litros por dia em 2025. Entretanto, a expansão da oferta ocorre em um ambiente mais desafiador, com crescimento econômico e consumo doméstico em desaceleração. No mercado internacional, a produção também avança em importantes regiões, como União Europeia, Estados Unidos, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai, aumentando a disponibilidade de leite e derivados.
O movimento internacional, observado desde o segundo semestre de 2024, contribui para ampliar a concorrência no mercado brasileiro. A valorização da moeda nacional também favorece a competitividade dos importados, dificultando a recuperação dos preços internos mesmo diante dos custos enfrentados pelos produtores.
Outro ponto de atenção é a retomada da pressão sobre os custos de produção. Após um período de relativa estabilidade, os gastos com alimentação do rebanho voltaram a crescer, principalmente em razão da alta do milho e do farelo de soja. Como a nutrição representa um componente importante do custo da atividade, o movimento reduz a margem financeira das propriedades.
Para os próximos meses, a expectativa é de um mercado marcado pelo equilíbrio entre a recuperação da demanda e a pressão da oferta. A desaceleração econômica e o endividamento das famílias podem limitar o consumo, enquanto a concorrência externa restringe o espaço para reajustes de preços ao produtor.
A Embrapa também destaca mudanças no comportamento dos consumidores, com maior valorização de alimentos ricos em proteínas e com menor teor energético. O movimento pode abrir oportunidades para determinados produtos lácteos, embora seus efeitos sobre a demanda e os preços ainda precisem ser acompanhados.
O desafio para a cadeia leiteira será consolidar a recuperação sem comprometer a rentabilidade no campo. Para o produtor, a combinação de custos crescentes, concorrência dos importados e incertezas sobre os preços reforça a necessidade de controle de despesas, ganho de produtividade e gestão eficiente. O avanço da produção, por si só, não garante melhores resultados econômicos enquanto as margens permanecerem pressionadas.
Por: Elaine Oliveira
