
Mato Grosso do Sul deixou há tempos de ser apenas “celeiro” e passou a ser supermercado do mundo. O Estado exportou US$ 9,3 bilhões em 2023, segundo a Semadesc, sendo 82% provenientes do agro e da agroindústria. Produtos como celulose, carne bovina, açúcar, soja e óleo vegetal lideraram a pauta. É um avanço equivalente ao de países exportadores consolidados, com diversificação de mercados e agregação de valor — e não simples “commodities”, como críticos insistem em repetir.
A posição estratégica no mapa ajuda a explicar a força comercial do Estado. O MS está no entroncamento logístico do Centro-Oeste com o Sul e o Sudeste, com saída para o Atlântico pelos portos de Santos (SP) e Rio Grande (RS), além de integração com corredores ferroviários em expansão, caso da Nova Ferroeste. Também é polo florestal global, referência em bioenergia e com alta capacidade de industrialização do agro — uma combinação raríssima no Brasil.
O comércio com a União Europeia reforça essa leitura. Segundo levantamento da Assessoria de Economia da Semadesc, o Estado exportou 3,76 milhões de toneladas para o bloco em 2025, que totalizaram US$ 1,3 bilhão, enquanto as importações somaram US$ 492 milhões, gerando um superávit de US$ 812 milhões. A UE foi o segundo bloco econômico mais relevante para as exportações sul-mato-grossenses, com 23 países europeus mantendo relações comerciais com o MS naquele ano.
Com o avanço do acordo Mercosul–União Europeia, aprovado pelos países do bloco europeu na última sexta (9), esse protagonismo tende a aumentar. A abertura comercial com um mercado de 700 milhões de consumidores, de alto poder aquisitivo e padrões sanitários rigorosos, beneficia quem já produz com tecnologia, rastreabilidade, certificação e agroindustrialização — exatamente o perfil que o MS vem construindo.
“O Estado tem capacidade de ampliar exportações e colocar mais produtos competitivos na Europa. A redução tarifária significa ampliar a competitividade dos produtos sul-mato-grossenses”, avaliou o secretário da Semadesc, Jaime Verruck, ao comentar o acordo.

Carne bovina: premium, rastreável e bem paga
A União Europeia é um dos mercados que mais remunera proteína premium no mundo. Em 2023, o bloco importou US$ 841 milhões em carne bovina brasileira, segundo a Abiec, com destaque para cortes nobres. No MS, a carne já figurou entre os três produtos mais vendidos para a UE em 2025, com 14 mil toneladas gerando US$ 126 milhões — equivalente a 9,68% do total exportado ao bloco.
“A Europa paga mais por carne certificada e de qualidade. O Brasil — e particularmente o Centro-Oeste — têm condições de suprir esse mercado”, afirmou Antônio Jorge Camardelli, presidente da Abiec, em entrevista de 2024.
Celulose: o gigante silencioso
A celulose é o motor da pauta exportadora do MS e também o carro-chefe no comércio com a UE: 1 milhão de toneladas e US$ 627 milhões em 2025, segundo a Semadesc, equivalendo a 48,12% do total. Com o acordo, setores florestais podem ganhar ainda mais tração, sobretudo com a celulose solúvel da Bracell, voltada a mercados de maior valor agregado.
Farelo de soja, açúcar e energia limpa
O farelo de soja também teve peso relevante nas exportações para o bloco europeu, com 917 mil toneladas e US$ 310 milhões em 2025. Verruck destaca que há espaço não apenas para soja e farelo, mas para etanol e bioenergia, alinhados à agenda de descarbonização da UE e às metas ambientais do pacote Fit for 55.



Transição verde: hidrogênio, SAF e certificação
A União Europeia busca combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e hidrogênio verde, áreas onde o MS já recebe interesse de investidores europeus. O secretário lembra, inclusive, que o Estado firmou acordo para certificação de propriedades agrícolas dentro dos padrões ambientais da UE durante a COP30, em Belém.
“O Estado avança na certificação oficial para propriedades que não tiveram desmatamento após 2020, habilitando produtores para exportar ao mercado europeu”, explicou Verruck.
Infraestrutura, tecnologia e indústria
Do lado das importações, predominam maquinários industriais de alto valor, especialmente para o setor de papel e celulose, aquecimento e resfriamento e caldeiras — equipamentos comprados majoritariamente da Finlândia, que forneceu 67% dos bens industriais europeus adquiridos pelo Estado em 2025. Ou seja: o acordo também reduz custos tecnológicos e pode acelerar a modernização industrial.
Regulação e barreiras: o preço do jogo
O setor produtivo terá de lidar com normas como o EUDR, que restringe produtos ligados a desmatamento. Mas o MS parte de uma posição de força: florestas plantadas, bovinocultura rastreada, empresas com governança ambiental global e um Estado que já está negociando certificação agrícola alinhada às regras europeias.

Oportunidade em vez de medo
Enquanto parte da Europa tenta proteger produtores, o agro sul-mato-grossense segue outro caminho: competir e expandir mercado. Aqui se entrega produtividade, sanidade, biotecnologia e energia limpa, não protecionismo.
No final, o que muda
Se confirmado pelos parlamentos europeus, o acordo pode acelerar a transformação econômica do MS, consolidando o Estado como plataforma exportadora sofisticada, e não mero fornecedor de matéria-prima. O mundo quer comida, energia, fibras, carbono, combustíveis limpos e rastreabilidade. O MS já produz tudo isso — e com escala.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
