Comércio Brasil–EUA recua em janeiro enquanto EUA ampliam importação de Argentina

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O início de 2026 trouxe sinais de pressão no comércio entre Brasil e Estados Unidos. Dados do Monitor do Comércio Brasil–EUA, elaborado pela Amcham Brasil, apontam que as exportações brasileiras ao mercado americano somaram US$ 2,4 bilhões em janeiro, queda de 25,5% em relação ao mesmo mês de 2025 — o sexto recuo consecutivo.

No mesmo período, as importações brasileiras de produtos norte-americanos caíram 10,9%. Como a retração das exportações foi mais intensa, o déficit mensal brasileiro na balança bilateral chegou a US$ 0,7 bilhão, mais que o triplo do registrado em janeiro do ano passado.

Segundo a Amcham, o desempenho negativo foi influenciado principalmente pela queda de 39,1% nas exportações de óleos brutos de petróleo e pelo impacto das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos, especialmente sobre bens industriais e siderúrgicos. Produtos sujeitos à chamada Seção 232 registraram retração de 38,3%.

“O início de 2026 segue marcado por pressões relevantes sobre o comércio bilateral. A manutenção de tarifas elevadas, especialmente sobre bens industriais, tem aprofundado o desequilíbrio na balança comercial entre Brasil e Estados Unidos”, afirmou Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

Carne ganha espaço em meio à escassez nos EUA

Em paralelo ao cenário de retração comercial, os Estados Unidos anunciaram uma medida que amplia a importação de carne bovina da Argentina. O presidente Donald Trump formalizou acordo que eleva em 80 mil toneladas a cota com tratamento tarifário preferencial para 2026, permitindo que o país vizinho exporte até 100 mil toneladas ao mercado americano. A estimativa do governo argentino é de impacto adicional de cerca de US$ 800 milhões.

A decisão ocorre em meio à escassez de gado nos Estados Unidos. Dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) indicam que o rebanho bovino americano está no menor nível em 75 anos, reflexo de secas prolongadas e custos elevados de produção. O aumento das importações busca ampliar a oferta de carne moída e aliviar os preços ao consumidor. Segundo o governo argentino, o país poderá exportar agora 100 mil

Ex-presidente dos Estados Unidos fala em púlpito com o selo presidencial. Quatro homens ao fundo aplaudem, com a bandeira presidencial à esquerda.
O presidente dos EUA, Donald Trump, em cerimônia de lançamento de plataforma de descontos para medicamentos – Al Drago – 5.fev.26/Reuters

Apesar disso, produtores rurais americanos criticam a medida, alegando risco ao setor doméstico. Ainda assim, mesmo com o avanço das compras externas, a maior parte da carne consumida nos EUA continuará sendo de produção interna, e as importações sul-americanas devem representar menos de 20% da oferta total em 2026.

Reconfiguração do fluxo comercial

O contraste entre a queda geral das exportações brasileiras aos EUA e a ampliação das importações de carne por parte dos americanos revela uma reconfiguração pontual no fluxo comercial. Enquanto setores industriais seguem pressionados por tarifas e barreiras, produtos do agronegócio — como carne bovina e café — mantêm maior resiliência relativa dentro da pauta exportadora.

O cenário indica que, mesmo em um ambiente de tensões tarifárias e desequilíbrios comerciais, o agronegócio continua exercendo papel estratégico nas relações bilaterais, especialmente em momentos de necessidade de recomposição de oferta e controle inflacionário no mercado norte-americano.

A evolução do diálogo comercial entre os dois países será determinante para definir se 2026 marcará apenas um período de ajuste ou o início de uma nova dinâmica nas trocas entre Brasil e Estados Unidos.

Por: Amanda Coelho