
No dia a dia de uma fazenda, organização sempre fez diferença. Separar o que é despesa da casa e o que é custo da produção, anotar compra de insumos, registrar venda de animais — práticas simples que muitos produtores já adotam por necessidade. Agora, com a reforma tributária, essa lógica deixa de ser apenas recomendação e passa a ser exigência.
A partir de 2026, o agronegócio brasileiro entra oficialmente no período de transição do novo modelo tributário, que seguirá até 2032. Durante esses anos, produtores terão que conviver com dois sistemas: o atual e o novo, baseado nos tributos IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços).
E é justamente no campo que uma das primeiras mudanças práticas começa a aparecer.
Segundo a contadora e palestrante Karoline Karstenque, participou do encontro com produtoras promovido pela Novilho Precoce no início de março, já neste ano os produtores rurais pessoa física terão uma nova obrigação: a criação do CNPJ vinculado à atividade rural.
“Em 2026, nós iniciamos o período de transição da reforma tributária, que vai se encerrar lá em 2032. Então nós teremos todos esses anos onde teremos concomitantemente os impostos antigos e os impostos novos, que são IBS e CBS”, explicou.
Ela faz questão de destacar que essa mudança não significa transformar o produtor em empresa — algo que tem gerado dúvidas no setor.

“No âmbito do produtor rural, a primeira mudança que nós vamos enfrentar é agora no mês de julho. Os produtores rurais pessoa física passarão a ter o CNPJ. E muitos produtores se confundem pensando que será obrigatório todos atuarem como pessoa jurídica, mas não é o caso. É somente o CNPJ para que se consiga dividir o que é da atividade particular do produtor rural e o que é do negócio desse produtor rural”, detalhou.
Na prática, a medida tende a trazer mais controle e transparência para a atividade, algo que pode ser positivo inclusive na gestão da propriedade.
“Então vai ser um benefício no sentido da organização”, reforçou.
Fim da apuração anual: controle passa a ser mensal
Se por um lado o CNPJ traz mais clareza, por outro a reforma também aumenta o nível de exigência na rotina administrativa do produtor.
Hoje, grande parte dos produtores pessoa física está acostumada a prestar contas apenas uma vez por ano, na declaração do Imposto de Renda. Com o novo modelo, isso muda completamente.
“Falando em organização, ela é essencial para a reforma tributária. Por quê? Nós teremos uma apuração mensal desses tributos, diferente do que o produtor rural pessoa física está acostumado, que é somente uma vez por ano”, alertou a especialista.
Esse novo cenário exige acompanhamento constante e tomada de decisão mais estratégica dentro da propriedade, principalmente na escolha de fornecedores e na gestão de custos.
“É imprescindível que o produtor rural tenha um contador de confiança ao seu lado para conseguir fazer esse acompanhamento mensal, avaliar quais fornecedores são mais benéficos para comprar insumos e até mesmo entender sua própria obrigatoriedade dentro do sistema”, afirmou.
Notas fiscais já começam a mudar
Outro ponto de atenção está na emissão de notas fiscais. Mesmo antes do início efetivo da cobrança dos novos tributos, o sistema já começa a ser adaptado.
“A declaração do imposto de renda não teve mudanças, ela continua da mesma forma. O que muda é que, na emissão das notas fiscais, nós estamos agora inserindo os novos impostos”, explicou.
A cobrança efetiva do IBS e CBS está prevista para começar em 2027, mas o alerta é claro: quem deixar para se adaptar apenas quando os tributos entrarem em vigor pode ter dificuldades.
“É o que eu diria para o produtor rural e para toda a cadeia do agronegócio: não deixe para 2027. A adaptação precisa começar agora”, enfatizou.
Impacto direto no agro de Mato Grosso do Sul
Em um estado como Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio representa cerca de 30% a 35% do PIB estadual e tem forte presença de produtores pessoa física — perfil predominante na pecuária —, as mudanças ganham ainda mais relevância. O estado possui um dos maiores rebanhos bovinos do país, com cerca de 20 milhões de cabeças, o que amplia o alcance das novas exigências dentro da porteira
A necessidade de profissionalização da gestão, uso de ferramentas contábeis e maior controle financeiro tende a se intensificar nos próximos anos, acompanhando a modernização do sistema tributário brasileiro.
Mais do que uma mudança fiscal, a reforma impõe uma nova forma de administrar a atividade rural — menos intuitiva e cada vez mais técnica.
No fim das contas, aquilo que já era sinal de uma boa fazenda — organização, controle e planejamento — passa a ser, definitivamente, uma exigência para continuar produzindo.
Por: Henrique Theotônio e Amanda Coelho
