
Em meio à crescente pressão internacional por sistemas alimentares mais sustentáveis, o Brasil levou à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, um conjunto de dados que busca reforçar a imagem da pecuária nacional como parte da solução para os desafios climáticos e de segurança alimentar.
Durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura (COAG), foi apresentado o estudo “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil – 2025 a 2050”, elaborado pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). O trabalho foi lançado internacionalmente pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Missão do Brasil em Roma.
O estudo projeta que a pecuária de corte brasileira poderá reduzir suas emissões absolutas em até 60% até 2050, ao mesmo tempo em que mantém elevados níveis de produção. O resultado seria alcançado principalmente por meio da recuperação de pastagens degradadas, ampliação dos sistemas integrados de produção e adoção de tecnologias voltadas ao aumento da eficiência produtiva.
Produzir mais com menos área
Os números apresentados reforçam uma tendência já observada no campo brasileiro nas últimas décadas: o aumento da produção sem expansão proporcional das áreas de pastagem.
Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina cresceu mais de 240%, enquanto a área destinada às pastagens foi reduzida em cerca de 11%, passando de 181 milhões para 160 milhões de hectares.
Segundo os pesquisadores, esse avanço gerou o chamado “efeito poupa-terra”, conceito utilizado para demonstrar que ganhos de produtividade evitam a abertura de novas áreas. De acordo com a modelagem da FGV Agro, aproximadamente 397 milhões de hectares deixaram de ser incorporados à atividade pecuária graças à intensificação da produção.
A pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, explicou que os ganhos ambientais estão diretamente ligados à melhoria da eficiência do sistema produtivo.
“O primeiro grande resultado do modelo matemático foi mostrar que as tendências que o setor já executa reduzem em até 60% as emissões absolutas até 2050. Quando olhamos para a intensidade de carbono, a redução chega a 80% no cenário de referência”, afirmou.
Nos cenários mais avançados, alinhados às metas do Plano ABC+, a intensidade de emissões pode cair mais de 90%, segundo o estudo.

Sistema integrado ganha destaque
Entre as tecnologias apontadas como fundamentais para a redução da pegada de carbono está a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), sistema que combina diferentes atividades produtivas na mesma propriedade.
Atualmente, o Brasil possui cerca de 17 milhões de hectares com algum tipo de integração produtiva, segundo dados apresentados pela ApexBrasil.
O presidente da agência, Laudemir Müller, destacou que o modelo brasileiro desperta interesse crescente em mercados internacionais por permitir maior aproveitamento da terra e melhor desempenho ambiental.
“Na mesma área da pastagem para o boi, fazemos uma rotação com lavoura e floresta. Esse sistema otimiza a terra e reduz a pegada de carbono de forma definitiva”, afirmou.
Além da ILPF, o estudo aponta a recuperação de pastagens degradadas, a biotecnologia aplicada à nutrição animal e o melhoramento genético como ferramentas essenciais para alcançar as metas de descarbonização.
Brasil cresce enquanto outros mercados encolhem
A apresentação na FAO ocorreu em um cenário de redução dos rebanhos bovinos em importantes regiões produtoras do mundo.
Dados apresentados durante o evento mostram que os três principais blocos pecuários globais enfrentam retração. O rebanho do Mercosul está no menor nível dos últimos seis anos, a América do Norte registra o menor estoque bovino em cerca de sete décadas e a União Europeia apresenta o menor rebanho dos últimos 30 anos.
Na direção oposta, o Brasil encerrou 2024 com 192,6 milhões de cabeças, mantendo-se como o maior rebanho comercial do planeta.
O estudo também ressalta que apenas 30,2% do território nacional é utilizado pela agropecuária, enquanto 66,3% da vegetação nativa permanece preservada. Desse total, cerca de 33,2% estão conservados dentro de propriedades rurais privadas, conforme exigências da legislação ambiental brasileira.
Produção elevada e menor impacto ambiental
As projeções indicam que o país poderá alcançar, em 2050, uma produção próxima de 18,2 milhões de toneladas de carcaça bovina, mantendo-se entre os principais fornecedores globais de proteína animal.
Ao mesmo tempo, a área destinada às pastagens poderia ser reduzida em mais 35%, impulsionada pelo aumento da produtividade dos rebanhos. O peso médio das carcaças deve passar dos atuais 211 quilos para cerca de 277 quilos por animal abatido.
Para o diretor de Sustentabilidade da ABIEC, Fernando Zelner, a apresentação do estudo em um fórum técnico ligado à ONU fortalece a credibilidade da carne brasileira diante dos compradores internacionais.
“É fundamental apresentar dados sólidos e fundamentados cientificamente para mostrar ao mundo por que a nossa carne é sustentável e por que o produto brasileiro merece estar nas prateleiras dos supermercados globais”, afirmou.
Debate global
Durante a abertura do encontro, o diretor-geral assistente da FAO e diretor de Produção e Sanidade Animal da entidade, Thanawat Tiensin, ressaltou que a transição para sistemas pecuários mais sustentáveis exige cooperação entre governos, produtores, empresas e centros de pesquisa.
“Quando falamos de produção pecuária sustentável, cada país precisa encontrar seu próprio caminho. A transformação que buscamos precisa ser construída de forma coletiva”, declarou.
A apresentação do estudo brasileiro ocorre em um momento em que mercados consumidores ampliam exigências relacionadas à rastreabilidade, emissões de carbono e preservação ambiental. Nesse contexto, a estratégia do país tem sido demonstrar, por meio de indicadores técnicos e científicos, que é possível ampliar a oferta de alimentos sem repetir modelos de expansão territorial observados em outras regiões do mundo.
Para um dos maiores exportadores de carne bovina do planeta, a discussão deixou de ser apenas ambiental e passou a ser também uma questão de competitividade comercial e acesso aos mercados internacionais.
Por: Amanda Coelho
