
A genética bovina brasileira dá mais um passo rumo à pecuária de precisão. A Associação Brasileira de Angus inicia nesta segunda-feira (14) um estudo inédito que pretende identificar quais touros da raça possuem maior capacidade de transmitir características superiores de qualidade de carne aos animais oriundos do cruzamento com vacas zebuínas, especialmente da raça Nelore, base do rebanho nacional.
A iniciativa busca aumentar a previsibilidade dos resultados do cruzamento industrial, melhorar a eficiência da produção, ampliar o número de animais certificados pelo Programa Carne Angus e gerar maior rentabilidade ao pecuarista.
O projeto é considerado um marco para o melhoramento genético da pecuária de corte brasileira, já que, pela primeira vez, serão avaliadas diretamente as informações genéticas e as características de carcaça de bovinos meio-sangue Angus, responsáveis atualmente pela maior parte dos abates certificados no país.
Para Mato Grosso do Sul, um dos principais estados da pecuária nacional e referência na produção de bovinos de corte, o estudo ganha importância estratégica. Segundo dados da Associação Brasileira de Angus, o Estado possui mais de 200 mil animais registrados ou controlados da raça Angus e suas variedades, número que cresce ano após ano impulsionado pelo avanço do cruzamento industrial entre Angus e Nelore. Além disso, Mato Grosso do Sul abriga um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, com aproximadamente 18 milhões de cabeças, cenário que favorece a expansão desse modelo de produção voltado à carne de maior qualidade.
Pesquisa começa com seis mil animais
A primeira etapa do trabalho prevê a coleta de aproximadamente 6 mil amostras genéticas de fêmeas meio-sangue Angus que passarão pelo processo de certificação do Programa Carne Angus.
A expectativa é que, já em 2027, seja divulgada uma primeira lista preliminar dos chamados touros melhoradores, aqueles que apresentam maior capacidade de transmitir características desejáveis aos seus descendentes.
Na sequência, o projeto será ampliado para 10 mil animais, incluindo ainda análises físico-químicas em cerca de 3 mil amostras de carne, permitindo aprofundar os estudos sobre qualidade do produto final.
Segundo Carolina Silveira, assistente de Fomento e coordenadora da Instituição Científica Tecnológica (ICT) da Associação Brasileira de Angus, o objetivo é compreender com maior precisão como ocorre a transmissão genética das principais características da raça pura para os animais provenientes do cruzamento industrial.
“Todas as informações de carcaça que temos hoje dentro da raça Angus foram desenvolvidas com base na raça pura. Queremos entender como essas características passam para os bezerros quando ocorre essa heterose”, explica a pesquisadora.
Tecnologia inédita para coleta de material genético
Um dos diferenciais da pesquisa é a utilização de uma metodologia inédita baseada na tecnologia TSU (Tissue Sampling Unit), que permitirá coletar amostras diretamente do tecido muscular das carcaças já resfriadas nos frigoríficos.
A técnica representa uma evolução em relação aos métodos tradicionais, antes restritos à coleta de cartilagem da orelha dos animais vivos.
O protocolo foi desenvolvido com apoio da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé (RS), e permitirá associar os dados genéticos às características observadas na carcaça, ampliando significativamente a precisão das avaliações.
Novas ferramentas para acelerar o melhoramento
As informações obtidas servirão de base para o desenvolvimento de novas Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), índices amplamente utilizados na seleção genética de reprodutores.
Entre os objetivos futuros está a criação de uma DEP específica para maciez da carne, atributo cada vez mais valorizado pelos consumidores brasileiros e pelo mercado internacional.
A expectativa é oferecer aos criadores ferramentas mais precisas para escolher reprodutores capazes de produzir animais com maior rendimento, melhor acabamento de carcaça e padrão de qualidade mais uniforme.
Essa previsibilidade também tende a elevar os índices de certificação dos bovinos, reduzindo perdas econômicas ao longo da cadeia produtiva.
Pecuária mais eficiente e sustentável
Além da qualidade da carne, o projeto também traz reflexos positivos para a sustentabilidade da produção.
Animais geneticamente superiores apresentam maior eficiência alimentar, melhor conversão de nutrientes e chegam mais cedo ao peso ideal de abate. Na prática, isso significa menor consumo de insumos, redução do tempo de permanência no sistema produtivo e diminuição das emissões de gases de efeito estufa por quilo de carne produzida.
A seleção genética, portanto, passa a ser também uma ferramenta importante para aumentar a produtividade sem necessidade de expansão das áreas de produção.
Programa Carne Angus cresce e busca reduzir desclassificações
O avanço do cruzamento industrial já vem refletindo nos números do Programa Carne Angus Certificada.
Em 2024, foram registrados 612,2 mil bovinos certificados, crescimento de 20% em relação ao ano anterior.
Apesar do desempenho expressivo, aproximadamente 25% dos animais apresentados deixam de ser certificados, principalmente por problemas relacionados ao acabamento de gordura da carcaça ou à idade no momento do abate.
Segundo o gerente nacional do programa, Maychel Borges, identificar os touros que apresentam melhor desempenho no cruzamento com vacas zebuínas permitirá elevar tanto a qualidade quanto o volume de animais aptos à certificação.
Para os pecuaristas, isso representa maior previsibilidade na produção, melhor remuneração e fortalecimento da competitividade da carne premium brasileira, segmento que continua em expansão tanto no mercado interno quanto nas exportações.
ara Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de carne bovina do país, a pesquisa tem importância estratégica. Dados da Associação Brasileira de Angus apontam que o Estado possui mais de 200 mil animais Angus registrados ou controlados, consolidando-se entre os principais polos da raça no Brasil.
No entanto, o número de bovinos com genética Angus presentes nas fazendas sul-mato-grossenses é significativamente maior, já que a maior parte dos animais utilizados no cruzamento industrial com vacas Nelore não integra os registros oficiais da entidade.
Esses bovinos meio-sangue abastecem grande parte da produção de carne premium do Estado e representam uma das principais apostas da pecuária moderna para agregar valor à produção sem abrir mão da rusticidade e da adaptação do rebanho zebuíno.
Por: Amanda Coelho
