Super El Niño coloca agro brasileiro diante de extremos climáticos e ameaça produção e logística

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O clima volta a entrar no radar do agronegócio brasileiro. A atuação do El Niño pode provocar alterações importantes no regime de chuvas e nas temperaturas, criando cenários opostos entre as regiões produtoras: excesso de chuva no Sul e maior risco de calor e estiagem em áreas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Para o campo, o problema não está apenas em chover pouco ou demais, mas em quando e como essa chuva acontece. A irregularidade pode comprometer o plantio, o desenvolvimento das lavouras, a formação dos grãos e as operações de colheita.

Segundo o Inmet e o CPTEC/Inpe, os efeitos do El Niño variam conforme a região e a época do ano. Historicamente, o fenômeno está associado a aumento das chuvas no Sul e a condições mais quentes e secas em partes do Norte e Nordeste. No Centro-Oeste, os efeitos são menos uniformes e dependem da interação com outros sistemas climáticos.

Lavouras podem ser afetadas e prejudicarem diretamente a produção de grãos – Foto: Divulgação

MS no centro da atenção

Em Mato Grosso do Sul, a irregularidade das chuvas merece atenção especial. O Estado reúne importantes cadeias de soja, milho, cana-de-açúcar, produção florestal e pecuária, todas diretamente dependentes das condições climáticas.

Períodos de calor e déficit hídrico podem prejudicar o desenvolvimento das lavouras e reduzir a disponibilidade de pastagem, aumentando a necessidade de suplementação na pecuária. Já chuvas concentradas e intensas podem dificultar operações no campo, provocar erosão e comprometer estradas rurais.

A situação exige atenção também para o Pantanal e outras áreas suscetíveis a incêndios. Baixa umidade, calor e vegetação seca aumentam o risco de propagação do fogo, tornando prevenção, aceiros e monitoramento ferramentas essenciais para o produtor.

O problema também está nas estradas e rios

Os efeitos climáticos ultrapassam a porteira. No Sul, chuvas intensas podem provocar alagamentos, danos em rodovias e interrupções no transporte da produção. No Norte, períodos de estiagem podem reduzir os níveis dos rios e limitar a navegação.

O episódio de seca severa registrado na Amazônia em 2023 mostrou a dimensão desse risco. A redução dos níveis dos rios afetou o transporte de cargas e o abastecimento de diversas localidades, evidenciando como a hidrologia pode interferir diretamente na logística do agronegócio.

Para o produtor, uma lavoura produtiva não resolve o problema se a produção não conseguir chegar ao mercado. Fretes mais caros, rotas alternativas e atrasos podem reduzir margens e aumentar o custo final.

Problemas com estradas podem afetar a logística – Foto: Divulgação

Clima vira variável econômica

Os efeitos podem chegar também aos preços. Uma quebra de produção pode reduzir a oferta e pressionar as cotações, enquanto problemas logísticos elevam o custo de transporte e podem afetar a competitividade das exportações.

Por isso, o El Niño deve ser acompanhado não apenas como um fenômeno meteorológico, mas como um fator de risco para toda a cadeia do agro.

Isso, porém, não significa que o fenômeno provocará automaticamente uma quebra generalizada de safra. Os impactos dependem da intensidade do El Niño, da duração dos eventos, da região, da cultura e da distribuição das chuvas.

A resposta do produtor passa por planejamento. Monitorar as previsões, conservar a umidade do solo, organizar o uso da água, reforçar a prevenção contra incêndios e ajustar operações quando necessário são medidas que podem reduzir a exposição aos extremos.

Para um setor que movimenta produção, transporte, energia, água e exportações em escala nacional, a mensagem é clara: o clima não pode ser controlado, mas o risco pode — e deve — ser administrado.

Caderno Agro