
As exportações brasileiras de produtos do agronegócio iniciaram agosto em ritmos distintos, com destaque para o forte avanço das carnes de frango e suína e para a recuperação dos embarques de soja. Já a carne bovina enfrenta um cenário mais desafiador, principalmente devido ao esgotamento da cota destinada ao mercado chinês.
Os dados da primeira semana de agosto, divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mostram que, na média diária, os embarques de carne bovina chegaram a 10.480 toneladas, queda de aproximadamente 18% em relação à média diária registrada em agosto do ano passado. Nos cinco primeiros dias úteis deste mês, foram exportadas 52,4 mil toneladas.
O principal fator apontado para a retração é a China, responsável por cerca de 42% a 44% das importações brasileiras de carne bovina. Com a cota de importação preenchida ainda no primeiro semestre, os embarques para o país asiático perderam força e passaram a impactar diretamente o desempenho brasileiro.
Para o analista João Pedro, ouvido no programa que analisou os dados da Secex, o Brasil precisa acelerar a abertura de novos mercados, especialmente Japão e Coreia do Sul. Juntos, os dois países apresentam potencial para importar cerca de 900 mil a 1 milhão de toneladas e podem ajudar a compensar parte da redução das compras chinesas.
Ao mesmo tempo, outros destinos vêm ampliando a demanda pela carne brasileira. A Argentina, tradicionalmente uma grande exportadora de carne bovina, já registra aumento nas compras do produto brasileiro, utilizado principalmente pela indústria em alimentos processados e congelados.
Preço da carne sobe apesar da queda no volume
Apesar da retração nos embarques, a carne bovina brasileira apresentou valorização no preço médio. A tonelada, que tinha valor médio de cerca de US$ 5.600 em agosto do ano passado, alcançou US$ 6.187 neste início de agosto, alta de 10,5%.
Segundo a análise, a valorização reflete a melhora da qualidade da carne brasileira, resultado de animais mais precoces e bem terminados. O modelo de produção predominantemente a pasto também é apontado como um diferencial competitivo no mercado internacional.
Outro desafio está no mercado europeu. A União Europeia anunciou restrições relacionadas ao uso de antimicrobianos na alimentação de bovinos, medida que pode criar novas barreiras comerciais para a carne brasileira. A avaliação é de que o setor precisa antecipar-se a esse movimento, investir em alternativas e ampliar a utilização de soluções naturais para manter competitividade e acesso aos mercados.
Frango dispara nas exportações
Enquanto a carne bovina perdeu ritmo, as exportações brasileiras de frango apresentaram forte crescimento. A média diária dos embarques chegou a quase 30 mil toneladas na primeira semana de agosto, alta de 68% em relação à média diária de agosto de 2025.
Em apenas cinco dias úteis, o país já havia exportado cerca de 150 mil toneladas.
A competitividade brasileira está relacionada, entre outros fatores, à disponibilidade de milho e farelo de soja, componentes importantes da alimentação das aves. O país também possui uma ampla estrutura de frigoríficos habilitados para atender mercados com exigências específicas, incluindo consumidores de países árabes.
A projeção apresentada é de que o Brasil possa superar 6 milhões de toneladas de carne de frango exportadas em 2026, mantendo uma posição de liderança mundial.
Carne suína também acelera
A carne suína apresentou outro resultado positivo. Nos cinco primeiros dias úteis de agosto, os embarques chegaram a quase 8 mil toneladas, alta de 55% na comparação com a média do mesmo período do ano passado.
O cenário internacional pode favorecer o Brasil, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por produtores europeus com as temperaturas elevadas registradas no continente.
A China, que historicamente foi um dos principais destinos da carne suína brasileira, reduziu o ritmo das compras após ampliar fortemente sua produção doméstica. Mesmo assim, o Brasil vem ampliando gradualmente sua participação no mercado internacional e pode se consolidar entre os dois ou três maiores exportadores mundiais do produto.
Soja retoma ritmo dos embarques
Entre os grãos, a soja também começou agosto em alta. As exportações avançaram 22% na média diária, com mais de 2,7 milhões de toneladas embarcadas nos primeiros dias do mês.
A média diária chegou a aproximadamente 542 mil toneladas. O movimento ocorre após uma melhora nos preços internacionais e nos valores praticados nos portos brasileiros.
A valorização da soja, que chegou a superar R$ 150 por saca nos portos, estimulou produtores que vinham segurando parte da produção à espera de melhores preços. Em algumas regiões, os valores avançaram de patamares próximos de R$ 105 a R$ 108 para a faixa de R$ 120, favorecendo a comercialização.
A expectativa apresentada é de que o Brasil ainda tenha um grande volume de soja para colocar no mercado externo, com uma projeção de exportação de aproximadamente 113 milhões de toneladas ao longo do ano.
O início de agosto, portanto, reforça um cenário de forte demanda internacional pelo agro brasileiro, mas também evidencia que o desempenho das exportações está cada vez mais condicionado à diversificação de mercados. Enquanto frango, suíno e soja avançam, a carne bovina sente diretamente os efeitos da restrição chinesa e das novas exigências de grandes compradores internacionais.
Por: Fabíola Camilo
