
O Brasil entra no segundo semestre de 2026 sob influência de um El Niño que já começa a alterar o padrão de circulação atmosférica e pode permanecer atuando até pelo menos o primeiro semestre de 2027. Para produtores rurais, o principal alerta não está apenas no volume de chuva ou na elevação das temperaturas, mas na forma como esses eventos devem ocorrer: períodos de calor intenso intercalados com chuvas concentradas e extremos climáticos cada vez mais frequentes.
A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Canal do Boi, que destacam impactos distintos entre as regiões brasileiras e chamam atenção para a necessidade de preservar o solo, especialmente diante do aumento do risco de queimadas e da concentração das precipitações.
Segundo o meteorologista Guilherme Borges, o fenômeno já apresenta atuação direta sobre o clima brasileiro. No Centro-Oeste e no Sudeste, massas de ar quente persistentes estão entre os sinais associados ao El Niño, enquanto o Sul enfrenta maior concentração de chuvas.
Para o início da safra 2026/27, a tendência é de condições favoráveis de umidade no Centro-Oeste, mas com uma característica que exige atenção do produtor: a chuva deve ocorrer de forma mais concentrada.
“Às vezes, a chuva que deveria cair espalhada ao longo de 30 dias cai concentrada em dois, três e até quatro dias”, explicou o meteorologista.
No Centro-Oeste, a previsão indica chuvas acima da média em setembro, outubro e novembro, impulsionadas pela combinação de calor intenso e transporte de umidade vindo da região Norte. O problema é que a concentração das precipitações aumenta o risco de erosão, alagamentos e dificuldade de entrada de máquinas no campo.
No Sul, o cenário é diferente. A expectativa é de continuidade das chuvas elevadas, mantendo o solo com altos índices de umidade em áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Já no Norte e Nordeste, a tendência é de redução das instabilidades e períodos mais quentes e secos.
Calor também preocupa
O comportamento das temperaturas é outro ponto de atenção. De acordo com Borges, os próximos meses podem registrar períodos de calor entre 3°C e 6°C acima da média, com ondas de calor caracterizadas pela permanência de temperaturas elevadas por vários dias.
O especialista lembra que o Brasil registrou oito ondas de calor em 2023 e nove períodos desse tipo em 2024. A combinação de temperaturas elevadas com alterações na distribuição das chuvas aumenta a pressão sobre as lavouras e sobre os recursos hídricos.
Mais preocupante ainda é a duração prevista para o fenômeno. Segundo o meteorologista, episódios de El Niño de intensidade semelhante, como os registrados em 1982/83, 1997/98 e 2015/16, tiveram duração superior a 360 dias.
Por isso, 2027 pode concentrar impactos mais significativos. “O ano posterior é sempre o mais crítico”, afirmou Borges, ao destacar que a persistência da influência climática aumenta a variabilidade e a exposição do setor produtivo aos extremos.
Solo é a primeira linha de defesa
Se o clima tende a ficar mais extremo, a conservação do solo ganha importância estratégica. Para o professor José Paulo Marçola, da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo e Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o solo precisa ser tratado como um organismo vivo.
Segundo ele, aproximadamente 45% do solo é composto por material mineral, 25% por água, 25% por ar e cerca de 5% por matéria orgânica. Embora represente uma parcela pequena, a matéria orgânica sustenta uma enorme diversidade de organismos responsáveis por processos fundamentais para a produção agrícola.
Em apenas uma colher de chá de solo, afirma Marçola, existem bilhões de organismos. Em um hectare, considerando os primeiros 20 centímetros de profundidade, a massa de bactérias e fungos pode chegar a cerca de duas toneladas.
Essa vida subterrânea participa da decomposição da matéria orgânica, da ciclagem de nutrientes e da formação da estrutura e da porosidade do solo, fatores diretamente relacionados à capacidade de infiltração e armazenamento de água.
Por isso, a recomendação central do professor é simples: não deixar o solo descoberto.
O plantio direto, a manutenção de cobertura vegetal e a preservação das áreas de mata são estratégias fundamentais para reduzir os impactos de chuvas intensas, proteger a estrutura do solo e manter sua capacidade de absorver água.
Queimadas deixam prejuízo que não aparece
O risco aumenta em períodos mais secos e com temperaturas elevadas, especialmente em áreas que já sofreram queimadas. Para Marçola, o fogo provoca danos que vão muito além da vegetação visível.
A alta temperatura pode destruir parte significativa da microbiota do solo, comprometendo a fertilidade, a agregação, a porosidade e a capacidade de retenção de água. A recuperação dessa estrutura biológica pode levar anos ou até décadas.
O professor citou o caso de uma propriedade em Mato Grosso do Sul que mantinha entre 12 e 15 anos de sistema de plantio direto e acumulação de matéria orgânica. Após uma queimada, o produtor não perdeu apenas a cultura que estava sobre a área, mas anos de construção da qualidade biológica e física daquele solo.
Em áreas queimadas, a recuperação passa pela recomposição da matéria orgânica e pelo estabelecimento de cobertura vegetal, evitando que o solo permaneça exposto à chuva e ao calor.
“Não é só o que você vê, é o que você não vê”, resumiu Marçola ao explicar os impactos do fogo sobre a vida subterrânea.
Produção exige preparação
O cenário projetado para os próximos meses não significa necessariamente perda de produtividade em todas as regiões. No Centro-Oeste, por exemplo, a previsão de chuvas acima da média pode favorecer o desenvolvimento da soja, desde que o produtor esteja preparado para lidar com precipitações concentradas e períodos de calor intenso.
O desafio será administrar extremos: excesso de água em determinados momentos, maior evaporação em períodos de calor e possíveis intervalos de estiagem.
Nesse contexto, a conservação do solo deixa de ser apenas uma prática ambiental e passa a ser uma estratégia de segurança produtiva. Manter cobertura vegetal, preservar a matéria orgânica, favorecer a infiltração da água e proteger áreas de vegetação são medidas que aumentam a capacidade da propriedade de enfrentar um clima cada vez mais variável.
Para o produtor, o recado dos especialistas é direto: diante de um El Niño que pode atravessar 2026 e avançar sobre 2027, preparar o solo hoje pode ser uma das principais formas de reduzir os riscos climáticos da próxima safra.
Por: Redação Caderno Agro
