
Imagine ir ao supermercado hoje com os mesmos R$ 500 que você tinha para fazer as compras há um ano. O dinheiro continua sendo R$ 500, mas o carrinho provavelmente volta para casa com menos produtos. É o efeito mais concreto da inflação: mesmo quando os preços sobem em ritmo menor, o consumidor não recupera automaticamente o poder de compra perdido.
Os dados mais recentes mostram justamente esse cenário. O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), recuou 0,43% na segunda quadrissemana de agosto, depois de cair 0,05% na primeira. Em 12 meses, porém, o indicador ainda acumula alta de 3,86%.
A leitura é positiva no curto prazo, mas não significa que a inflação deixou de ser um problema. O que ocorre é uma desaceleração dos preços em alguns grupos, enquanto outros continuam pressionando o orçamento das famílias.
Entre os principais alívios registrados pela FGV estão Habitação, que passou de alta de 0,41% para queda de 1,29%; Educação, Leitura e Recreação, de 0,50% para -0,13%; Comunicação, de 0,05% para -0,80%; e Alimentação, que aprofundou a deflação de -0,52% para -0,57%.
A alimentação, aliás, ajuda a explicar parte dessa sensação de alívio no supermercado. Tomate e batata-inglesa apresentaram quedas expressivas de preços. O tomate recuou 27,75% em 12 meses e a batata-inglesa, 27,71%. Em contrapartida, produtos como mamão papaya e leite longa vida continuam registrando altas.
A energia elétrica também contribuiu fortemente para a queda do IPC-S, passando de alta de 0,70% para retração de 8%. A gasolina e as passagens aéreas também ajudaram a reduzir o índice.
Mas a inflação brasileira não está completamente domada. Cigarros, planos de saúde, mamão papaya, leite e seguros de veículos aparecem entre os itens que exerceram pressão de alta na leitura mais recente.
O problema está além do supermercado
Enquanto os índices de preços mostram algum alívio pontual, as projeções do mercado financeiro revelam que o cenário econômico ainda exige cautela.
O relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, manteve em 5,02% a estimativa mediana para o IPCA de 2026. É uma projeção que permanece acima do centro da meta de inflação, de 3%, embora dentro do intervalo de tolerância estabelecido pelo regime de metas.
Para 2027, a expectativa subiu de 4,24% para 4,25%. Para 2028, permaneceu em 3,80%, enquanto a projeção para 2029 continua em 3,50%.
Na prática, isso significa que o mercado ainda trabalha com uma inflação acima do centro da meta nos próximos anos, mesmo diante da desaceleração observada em determinados preços.
E é justamente aí que entram os juros.
Selic ainda elevada segura a economia
A projeção do mercado para a taxa Selic no fim de 2026 permaneceu em 13,75%. Para 2027, a expectativa segue em 12%.
O Banco Central iniciou um processo de redução dos juros e, no começo de agosto, cortou a Selic de 14,25% para 14% ao ano. Foi o quarto corte consecutivo.
Apesar disso, o nível dos juros continua elevado. E juros altos têm efeito direto sobre a economia: encarecem financiamentos, dificultam investimentos, pressionam o crédito para empresas e consumidores e ajudam a conter o consumo.
Por outro lado, são justamente os juros elevados que o Banco Central utiliza para tentar impedir que a inflação volte a ganhar força.
O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio: reduzir os juros sem provocar uma nova aceleração dos preços.

Dólar continua sendo ponto de atenção
Outro fator importante é o câmbio.
O Focus manteve em R$ 5,20 a projeção para o dólar no fim de 2026. Para 2027, a estimativa subiu de R$ 5,29 para R$ 5,30. Para 2028, permanece em R$ 5,30 e, para 2029, em R$ 5,36.
O câmbio interessa diretamente ao consumidor e, principalmente, ao agronegócio brasileiro.
Um dólar mais valorizado pode encarecer produtos e insumos importados, além de aumentar custos de componentes, máquinas, medicamentos e fertilizantes. Para o produtor rural, a relação é ainda mais complexa: a moeda americana pode elevar os custos de produção, mas também melhora a receita de produtos exportados, como soja, milho, carnes e celulose.
Por isso, a trajetória do dólar é uma das variáveis acompanhadas de perto pelo setor produtivo.
Mercado reduz expectativa para o crescimento
O ponto talvez mais preocupante das projeções está no crescimento econômico.
A mediana do Focus para o avanço do PIB brasileiro em 2026 caiu de 1,98% para 1,95%. Há um mês, a expectativa era de 1,99%.
A estimativa está abaixo da projeção de 2% do próprio Banco Central.
Para 2027, o mercado mantém expectativa de crescimento de 1,50%. Já para 2028, houve melhora na projeção, de 1,89% para 1,98%. Para 2029, a estimativa permanece em 2%.
Ou seja: o mercado não trabalha com uma recessão, mas também não enxerga uma economia crescendo em ritmo forte.
O retrato da economia brasileira
Os números, quando colocados lado a lado, ajudam a entender o momento econômico do Brasil.
A inflação corrente apresenta sinais de desaceleração, mas continua acima do centro da meta. Os juros começaram a cair, porém permanecem em patamar elevado. O dólar deve continuar acima de R$ 5 nos próximos anos. E o crescimento esperado para a economia está próximo de 2%, sem indicação de uma expansão robusta.
Para o consumidor, isso significa que a queda ou desaceleração de alguns preços não representa uma volta ao cenário de um ano atrás. O preço que caiu hoje não necessariamente retorna ao nível anterior; ele apenas deixa de subir ou passa a subir mais lentamente.
É a diferença entre inflação e redução de preços: inflação menor significa que os preços estão aumentando mais devagar. Deflação, por outro lado, significa queda efetiva dos preços.
No campo e na indústria, a combinação de juros, câmbio, inflação e crescimento também pesa nas decisões de investimento, no custo do crédito e na formação dos preços.
O cenário desenhado pelo Focus, portanto, é de uma economia em processo de desaceleração, com inflação ainda exigindo atenção e uma política monetária que começa a abrir espaço para cortes de juros, mas sem condições de abandonar a cautela.
Para o brasileiro, a tradução mais simples dos números é direta: o dinheiro continua valendo, mas ainda compra menos do que comprava. E, enquanto inflação, juros e câmbio permanecerem pressionados, recuperar esse poder de compra continuará sendo um desafio.
Por: Amanda Coelho
