
A agropecuária ganhou espaço relevante nos planos de governo dos cinco candidatos à Presidência da República mais bem posicionados no Índice CNN: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
Os documentos protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, apesar das diferenças ideológicas e econômicas entre os candidatos, há pontos de convergência em torno de uma questão central: o agronegócio é considerado estratégico para a segurança alimentar, a geração de riquezas e a inserção internacional do Brasil.
As propostas, porém, divergem sobre o papel do Estado, as formas de financiamento, a política ambiental, a infraestrutura e as estratégias para ampliar a competitividade do setor.
Entre os temas que aparecem com maior frequência estão a reformulação do Plano Safra, o seguro rural, a produção nacional de fertilizantes, a expansão da irrigação e da armazenagem, a melhoria da infraestrutura de transporte, a conectividade no campo, a inovação tecnológica e o fortalecimento do mercado de biocombustíveis.
Também há uma preocupação comum com a dependência brasileira de fertilizantes importados. Os candidatos apresentam diferentes estratégias para ampliar a produção nacional e reduzir a vulnerabilidade do país diante de oscilações do mercado internacional.
Lula prioriza agricultura familiar, sustentabilidade e expansão dos mercados
Candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva concentra parte importante de suas propostas na agricultura familiar, com defesa da ampliação da reforma agrária associada à regularização fundiária e ao desenvolvimento da infraestrutura rural.
O plano petista propõe transformar o Plano Safra em uma política plurianual, com maior direcionamento de recursos para tecnologias capazes de elevar a produtividade, como máquinas agrícolas e sistemas de irrigação.
A agenda também incorpora medidas relacionadas às mudanças climáticas. Lula propõe modernizar o seguro rural e ampliar mecanismos de proteção diante dos eventos climáticos extremos, associando a política de crédito e seguro a práticas sustentáveis.
Outro eixo é o fortalecimento da posição brasileira no comércio internacional. O plano destaca a abertura de novos mercados durante o atual governo e pretende utilizar a presença do Brasil no mercado global de alimentos como instrumento para ampliar as exportações.
A produção nacional de fertilizantes, os biocombustíveis, a conectividade rural e a inovação tecnológica também aparecem entre as prioridades.
Flávio Bolsonaro aposta em infraestrutura, seguro e produção nacional de fertilizantes
O plano de governo de Flávio Bolsonaro coloca a previsibilidade da produção entre os principais objetivos para o setor. A proposta parte da relação entre segurança da safra, regularidade da oferta e estabilidade dos preços dos alimentos.
Entre as medidas estão a redução dos custos de transporte, a ampliação do seguro rural e investimentos em irrigação e armazenagem. O candidato também propõe reforçar os investimentos na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e ampliar a conectividade nas áreas rurais.
Na área de insumos, Flávio defende o fortalecimento da produção brasileira de fertilizantes para reduzir a dependência das importações.
O plano também prevê maior participação do Brasil no mercado de biocombustíveis, com aumento dos investimentos no segmento.
No campo ambiental e fundiário, a proposta inclui a regularização e titulação de pequenos produtores e a utilização do Cadastro Ambiental Rural (CAR) como instrumento de conservação e recuperação ambiental.
Caiado propõe ampliar fontes privadas de financiamento
Ronaldo Caiado dedica um capítulo específico ao agronegócio e apresenta uma estratégia que busca ampliar a participação do mercado de capitais no financiamento da produção.
O plano prevê maior utilização de instrumentos como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) e debêntures como alternativas ao crédito tradicional.
Caiado também defende a transformação do Plano Safra em uma política plurianual, com linhas de financiamento direcionadas principalmente à infraestrutura, irrigação, armazenagem e seguro rural.
Tecnologia, inovação e conectividade aparecem como instrumentos para elevar a produtividade, especialmente por meio do uso mais eficiente das áreas já consolidadas.
Na política externa, o candidato propõe ampliar e diversificar os parceiros comerciais brasileiros e aposta no setor de bioenergia como uma das áreas em que o país pode exercer maior protagonismo internacional.
A redução da dependência de fertilizantes importados também está entre as prioridades.
Zema quer reduzir burocracia e entraves para o produtor
Romeu Zema apresenta uma proposta centrada na redução da interferência burocrática e dos obstáculos que, segundo seu plano, limitam a expansão da atividade agropecuária.
O candidato defende medidas para diminuir entraves relacionados à infraestrutura, ao licenciamento ambiental e à insegurança jurídica, além da ampliação do seguro rural.
A melhoria da logística para o escoamento da produção também ocupa espaço relevante na proposta, assim como investimentos em tecnologia e assistência técnica.
No comércio exterior, Zema propõe ampliar a abertura de mercados e diversificar as fontes de importação de fertilizantes, ao mesmo tempo em que defende investimentos para aumentar a produção brasileira dos insumos.
A regularização de propriedades rurais, o combate à grilagem e o enfrentamento ao crime organizado também são apontados como medidas necessárias para reforçar a segurança jurídica no campo.
Renan Santos defende agregar valor à produção e ampliar tecnologia
Renan Santos apresenta uma proposta voltada à agregação de valor às cadeias produtivas. O plano utiliza o setor de suco de laranja como referência e defende a criação de Zonas Econômicas Especiais e de linhas de crédito vinculadas a metas de produtividade e exportação.
O candidato também propõe aproximar a produção agropecuária de tecnologias como inteligência artificial, buscando aumentar a eficiência e a capacidade de geração de valor dentro das próprias cadeias produtivas.
A política de fertilizantes aparece novamente como uma questão estratégica. Renan Santos defende a execução e ampliação do Plano Nacional de Fertilizantes e maior exploração de minerais considerados estratégicos para a fabricação dos insumos no país.
O plano prevê ainda mudanças na legislação para viabilizar operações relacionadas à exploração desses recursos em terras indígenas.
Na questão fundiária, a proposta inclui medidas contra invasões de propriedades rurais e uma auditoria da produtividade das áreas destinadas à reforma agrária.
Na educação, o candidato propõe uma mudança na forma como o setor é apresentado às novas gerações, com o objetivo de ampliar a valorização da atividade agropecuária.
Convergências mostram peso estratégico do agro
Embora apresentem visões distintas sobre o papel do Estado e os mecanismos de desenvolvimento, os cinco planos reconhecem a importância estratégica da agropecuária para a economia brasileira.
Seguro rural, infraestrutura, armazenagem, irrigação, conectividade, tecnologia e fertilizantes aparecem, em diferentes formatos, nas propostas dos candidatos.
A política de financiamento também ocupa posição central. Enquanto alguns planos priorizam a ampliação e reformulação do Plano Safra, outros defendem maior participação do mercado de capitais e do financiamento privado.
A agenda internacional é outro ponto de convergência. Os candidatos reconhecem a necessidade de ampliar mercados para os produtos brasileiros e reduzir riscos associados à concentração de parceiros comerciais ou à dependência externa de insumos.
As diferenças aparecem principalmente na forma de executar essas políticas. Enquanto Lula dá maior ênfase à agricultura familiar, à sustentabilidade e à atuação estatal, Flávio Bolsonaro prioriza previsibilidade, infraestrutura e soberania em insumos. Caiado aposta na diversificação das fontes de financiamento, Zema concentra sua proposta na redução de entraves burocráticos e regulatórios, e Renan Santos defende uma transformação das cadeias produtivas com maior incorporação de tecnologia e agregação de valor.
A presença do agro nos cinco programas indica que, independentemente do resultado das urnas, a política para o setor deverá permanecer entre os principais temas da agenda econômica do próximo governo. Para um país que tem na produção de alimentos, fibras, energia e commodities uma de suas principais forças econômicas e comerciais, as escolhas feitas nessa área terão impacto não apenas sobre o produtor rural, mas também sobre preços, exportações, investimentos, geração de empregos e posição do Brasil no mercado internacional.
Por: Amanda Coelho
