Campo Grande, 127 anos: da confluência dos córregos à capital do agro

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Há 127 anos, Campo Grande ainda era pouco mais que um pedaço de sertão no coração de Mato Grosso do Sul. Quando José Antônio Pereira deixou Minas Gerais e chegou por estas bandas, trazendo consigo a experiência e a tradição de quem conhecia a vida no campo, talvez não pudesse imaginar o tamanho da cidade que nasceria às margens dos córregos Prosa e Segredo, cujas águas seguem para formar o rio Anhanduí.

O homem que veio em busca de novas terras encontrou um lugar de água abundante, solo fértil e vocação para produzir. Plantou, criou gado, fincou raízes e ajudou a dar início à história de uma cidade que, 127 anos depois, não apenas cresceu: transformou-se em um dos principais motores do agronegócio brasileiro.

Neste 26 de agosto, quando Campo Grande comemora seu aniversário, a Cidade Morena tem motivos de sobra para celebrar também a força que brota de sua terra. Porque, por trás da paisagem urbana de uma das maiores cidades do Centro-Oeste, existe uma Campo Grande rural, produtiva e conectada às principais cadeias do agro.

Produção de grãos é destaque no agro da Capital do Estado – Foto: Divulgação/Semadesc

Uma capital que produz

Os números ajudam a contar essa história. Campo Grande está entre as capitais brasileiras de maior destaque na produção agropecuária e, de acordo com os dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, aparece na liderança entre as capitais em valor da produção agrícola.

A dimensão territorial ajuda a explicar essa vocação. São aproximadamente 8,1 mil quilômetros quadrados, espaço que abriga lavouras, propriedades rurais, criação de gado e uma cadeia agroindustrial que ultrapassa os limites do município.

Entre as grandes lavouras, a soja ocupa posição central. São cerca de 52 mil hectares cultivados e produção superior a 115 mil toneladas, consolidando o grão como uma das principais fontes de riqueza geradas no campo campo-grandense.

O milho, cultivado principalmente na segunda safra, completa a dupla que movimenta boa parte da agricultura de larga escala. Ao lado deles, culturas como cana-de-açúcar, sorgo, mandioca, melancia, tomate e amendoim mostram que a produção da capital vai muito além das commodities tradicionais.

A melancia, por exemplo, aparece com aproximadamente 1,7 mil hectares cultivados e produção de 43,6 mil toneladas. O tomate, embora ocupe uma área muito menor, também integra a diversificação agrícola do município.

É uma agricultura que abastece mercados, movimenta transportadoras, gera empregos, alimenta agroindústrias e conecta o campo de Campo Grande a consumidores dentro e fora do país.

Campo Grande se destaca pela potência pecuária – Foto: Divulgação

Do pasto ao frigorífico

Se a soja e o milho representam a força das lavouras, o boi é parte inseparável da identidade agropecuária da capital. Campo Grande possui cerca de 415,6 mil bovinos, o terceiro maior rebanho entre as capitais brasileiras, atrás de Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC), segundo os levantamentos oficiais utilizados como referência.

Mais do que números, esse rebanho representa uma cadeia que envolve produtores, trabalhadores rurais, transportadores, veterinários, técnicos, comércio de insumos, indústria e frigoríficos.

A pecuária de corte ganhou na capital uma estrutura industrial capaz de transformar a produção do campo em proteína que chega aos mercados brasileiros e internacionais. E é justamente nesse encontro entre produção e indústria que Campo Grande amplia sua importância dentro do agronegócio.

A cadeia do leite também faz parte dessa história. Embora tenha perdido espaço nas últimas décadas diante da expansão das lavouras, o município ainda mantém produção leiteira e uma estrutura de produtores que ajuda a preservar a diversidade do campo campo-grandense.

O agro que vai para o mundo

A força do agronegócio não termina nas porteiras das propriedades rurais. Campo Grande também participa da conexão de Mato Grosso do Sul com o mercado internacional. A carne bovina está entre os principais produtos da pauta exportadora da capital, impulsionada pela presença de frigoríficos e pelo crescimento das vendas para mercados como a China.

A soja e seus derivados também ocupam espaço relevante, enquanto o milho completa o conjunto de produtos ligados à produção agrícola que ajudam a movimentar o comércio exterior.

No cenário estadual, a dimensão do agronegócio é ainda maior. Mato Grosso do Sul tem um Valor Bruto da Produção Agropecuária projetado em cerca de R$ 84 bilhões e mantém nas cadeias de carne bovina e soja alguns de seus principais motores de exportação.

O peso do setor pode ser percebido também na economia. O agronegócio, considerando a produção primária e as agroindústrias, responde por uma parcela expressiva da atividade econômica sul-mato-grossense e tem participação decisiva na pauta de exportações do Estado.

Campo Grande, por sua vez, funciona como um grande ponto de encontro dessas cadeias. É cidade, mercado, centro logístico, polo industrial, sede de empresas e instituições ligadas ao campo e porta de entrada para negócios que começam muito longe do asfalto.

As indústrias voltadas ao agronegócio instaladas em Campo Grande batem recorde em exportação – Foto: Divulgação/Fiems

Uma cidade feita por quem produz

Há ainda uma outra dimensão dessa história: a agricultura familiar. Em Mato Grosso do Sul, são mais de 43 mil estabelecimentos de agricultura familiar, responsáveis por uma produção que ajuda a colocar alimentos na mesa dos sul-mato-grossenses.

Em Campo Grande, pequenos produtores, assentamentos e propriedades familiares encontram na horticultura, na fruticultura, na mandioca e em outras culturas voltadas ao mercado interno uma importante fonte de renda.

São produtores que abastecem feiras, mercados e programas de alimentação e que ajudam a lembrar que o agro não é feito apenas de grandes máquinas, extensas lavouras e milhares de cabeças de gado. É feito, sobretudo, de gente.

Entardecer na Cidade Morena – Foto: Divulgação

127 anos de uma vocação que cresceu

Quando José Antônio Pereira chegou ao encontro das águas do Prosa e do Segredo, o futuro ainda era uma página em branco. A cidade que surgiria daquele pequeno núcleo de povoamento cresceu, ganhou ruas, avenidas, prédios, indústrias e gente. Tornou-se a maior economia municipal de Mato Grosso do Sul, com um PIB na casa dos R$ 34,7 bilhões, e consolidou-se como uma metrópole regional. Mas, mesmo cercada pelo concreto, Campo Grande nunca perdeu completamente a sua ligação com a terra.

Ela está nos milhares de hectares cultivados ao redor da cidade. Está no cheiro de gado que ainda acompanha parte da paisagem. Está nas caminhonetes que cruzam as estradas, nas máquinas que entram nas lavouras, nas feiras onde o produtor vende o que colheu e nas indústrias que transformam aquilo que nasceu no campo.

Campo Grande é, portanto, uma cidade de muitos mundos. É urbana, mas tem alma rural. É moderna, mas carrega uma história construída a partir da terra. É capital, mas não se distancia de quem produz.

E talvez seja justamente essa mistura que explique sua posição de destaque entre as capitais brasileiras do agronegócio. A Cidade Morena chega aos 127 anos não apenas como a capital de Mato Grosso do Sul, mas como uma capital que produz. Produz soja, milho, carne, leite, frutas, hortaliças e tantos outros alimentos. Produz negócios, empregos e riqueza. Produz tecnologia, logística e oportunidades.

Mas, acima de tudo, Campo Grande produz gente. Gente que acorda cedo para plantar. Gente que cuida do gado. Gente que transforma grão em alimento, boi em proteína e trabalho em desenvolvimento. Gente que aprendeu a construir uma cidade sobre a terra vermelha e, ao longo de 127 anos, fez dela uma das grandes forças do agro brasileiro.

Do encontro das águas do Prosa e do Segredo nasceu uma cidade. Do trabalho de quem veio, plantou, criou e acreditou, nasceu uma potência.

E hoje, 127 anos depois, Campo Grande celebra seu aniversário olhando para o futuro com os pés fincados na terra que ajudou a construí-la.