
A carne bovina brasileira ganhou uma nova alternativa no mercado internacional com a decisão do governo dos Estados Unidos de ampliar temporariamente a entrada de carne bovina magra no país. A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump na quarta-feira (26), autoriza a importação de até 300 mil toneladas adicionais durante 90 dias, a partir de 1º de setembro, em três parcelas mensais de 100 mil toneladas, com tarifa reduzida.
A decisão ocorre em um momento estratégico para a pecuária brasileira, especialmente diante do avanço do preenchimento da cota destinada à China, principal mercado da carne bovina do Brasil. Para a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), a abertura temporária representa uma alternativa adicional para os exportadores brasileiros e pode ajudar a reduzir os efeitos da limitação das vendas para o mercado chinês.
A entidade avalia que a medida melhora as condições de competitividade da carne brasileira nos Estados Unidos e cria uma oportunidade comercial importante para frigoríficos habilitados a atender o mercado norte-americano.
É preciso, no entanto, dimensionar corretamente o que a decisão representa para o setor. Não se trata de uma abertura irrestrita do mercado americano para a carne bovina brasileira. A nova cota é direcionada especificamente para carne bovina magra, incluindo aparas utilizadas principalmente na fabricação de carne moída. O produto importado será utilizado na mistura com carne produzida nos próprios Estados Unidos.
Segundo o governo norte-americano, a medida tem como principal objetivo aumentar a oferta de carne magra para a indústria e reduzir os preços da carne moída ao consumidor. A proclamação também prevê um incentivo para que a carne importada seja comercializada com desconto de 25% em relação ao preço vigente de importação.
Na prática, portanto, o benefício para o Brasil está concentrado em um nicho específico do mercado americano. Ainda assim, a oportunidade ganha relevância porque ocorre justamente em um período de maior pressão sobre o comércio internacional de carne bovina.
Para a Abrafrigo, a ampliação temporária da cota pode contribuir para diversificar os destinos da produção brasileira e reduzir a dependência de mercados que enfrentam restrições ou limites de volume.
A entidade chama atenção, porém, para uma limitação importante: os efeitos da medida não serão distribuídos igualmente entre os Estados produtores. Pará, Acre e Maranhão, apesar de possuírem produção relevante de bovinos, ainda não estão habilitados a exportar carne para os Estados Unidos e, portanto, não poderão aproveitar diretamente essa nova oportunidade.
Por isso, a Abrafrigo defende o avanço das habilitações de novos Estados e de plantas frigoríficas brasileiras. A ampliação da base exportadora permitiria que mais produtores e empresas participassem das oportunidades abertas pelo comércio internacional.
O que muda para a pecuária brasileira
A nova cota não deve ser interpretada como uma solução para o cenário de exportações, mas como uma válvula de escape adicional para o setor. O Brasil continua enfrentando um cenário em que a demanda internacional é importante para a formação de preços, enquanto a China se aproxima do limite de sua cota de importação.
Nesse contexto, qualquer espaço adicional em grandes mercados consumidores ganha importância para os frigoríficos brasileiros.
Os Estados Unidos estão entre os maiores consumidores de carne bovina do mundo e possuem uma indústria de carne moída de grande escala. A necessidade americana por matéria-prima magra cria uma oportunidade particularmente adequada para determinados cortes e aparas produzidos pela indústria brasileira.
A oportunidade, contudo, é temporária. A autorização vale por 90 dias e estabelece um volume adicional máximo de 300 mil toneladas. Além disso, o produto precisa atender às características exigidas pela medida, o que restringe o universo de carnes que poderão ser direcionadas a esse mercado.
Mesmo com essas limitações, a decisão representa uma sinalização positiva para o setor exportador brasileiro. Em um mercado global cada vez mais disputado, a possibilidade de ampliar temporariamente as vendas para os Estados Unidos ajuda a criar uma alternativa justamente quando o principal comprador da carne brasileira, a China, se aproxima do limite de sua cota.
Para a pecuária brasileira, o efeito mais importante está, portanto, na abertura de uma nova frente comercial. Mais do que uma liberação geral das exportações, a medida americana representa uma oportunidade pontual para a indústria e reforça a importância da diversificação dos mercados compradores da carne produzida no Brasil.
Por: Amanda Coelho
