Crédito rural em MS acende alerta: quase 28% dos financiamentos já estão em situação problemática

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O produtor rural de Mato Grosso do Sul está encontrando um cenário cada vez mais difícil para financiar a própria produção. O dinheiro continua circulando, mas uma parcela crescente dele está deixando de representar investimento e passando a carregar o peso da dívida.

É o que revela um levantamento da equipe econômica da Aprosoja/MS, elaborado a partir de dados do Banco Central (Bacen). Em apenas 18 meses, a participação do crédito rural classificado como “situação problemática” praticamente dobrou no Estado: saiu de 13,9% em janeiro de 2025 para 27,6% em junho de 2026.

O número é direto e difícil de ignorar: mais de um quarto de todo o crédito rural de Mato Grosso do Sul está hoje em alguma condição problemática.

E o que mais preocupa não é o volume de dinheiro tomado pelos produtores, que permaneceu relativamente estável no período. É a qualidade dessas operações.

“O que mais chama atenção não é o volume de crédito captado, que se manteve estável, mas a deterioração da qualidade desse crédito. Em um ano e meio, a fatia problemática praticamente dobrou de proporção, e isso é um sinal de alerta para todo o setor”, afirma o analista de Economia da Aprosoja/MS, Linneu Borges Filho.

O atraso dispara — e esse é o dado que mais preocupa

Dentro da classificação utilizada pelo Banco Central, o crédito problemático reúne operações renegociadas, inadimplentes, prorrogadas e em atraso.

Quando os números são separados, porém, aparece o principal sinal de alerta.

O crédito em atraso passou de 4,9% para 12,6% entre 2025 e 2026. Ou seja, mais que dobrou sua participação.

Os créditos inadimplentes também avançaram, com aumento de 1,5 ponto percentual.

O movimento ganha importância porque ocorre simultaneamente à redução proporcional de operações renegociadas e prorrogadas.

Em outras palavras, enquanto cresce a parcela do crédito que está atrasada, diminui o peso das operações que indicariam uma tentativa formal de reorganizar a dívida.

Para a Aprosoja/MS, essa combinação pode representar um problema ainda maior adiante.

“A queda proporcional de renegociações e prorrogações, justamente no momento em que o atraso mais cresce, indica que o produtor que entrou em dificuldade não está buscando resolver o problema, o que tende a agravar sua situação financeira lá na frente”, avalia Linneu.

A dívida de um pode encarecer o crédito de todos

O problema não fica restrito à porteira.

Quando aumenta a inadimplência, aumenta também o risco percebido por quem empresta dinheiro. Bancos, financeiras e cooperativas podem incorporar esse risco às condições das novas operações.

Quem está pagando em dia acaba sentindo a consequência.

Um ambiente de maior risco pode significar juros mais elevados, exigência de mais garantias e maior dificuldade para conseguir recursos. Para quem já está endividado, a situação é ainda mais delicada: renegociar pode significar alongar o prazo e, dependendo das condições, aumentar o custo total da dívida.

É uma espécie de efeito dominó.

O produtor perde capacidade de pagamento, o risco do crédito aumenta, o dinheiro fica mais caro e o custo financeiro passa a pressionar ainda mais o caixa da propriedade.

E isso acontece em uma atividade que já trabalha com margens pressionadas por custos de produção, preços de commodities, clima e oscilações de mercado.

O campo brasileiro também sente a pressão

O alerta de Mato Grosso do Sul aparece em um momento em que o problema do crédito rural ganha dimensão nacional.

Dados da Serasa Experian apontam que a inadimplência entre produtores rurais chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, o maior nível da série histórica da empresa. O indicador representa alta de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025.

O dado não pode ser comparado diretamente aos 27,6% registrados pela Aprosoja/MS, porque as metodologias são diferentes. Enquanto a Serasa mede a inadimplência entre produtores rurais, o levantamento estadual considera a participação do crédito classificado pelo Banco Central como problemático.

Mas os dois números apontam para a mesma direção: a pressão financeira sobre o produtor aumentou.

A Serasa também registrou queda no Agro Score médio, de 606 para 591 pontos em um ano, sinalizando maior risco e cautela na concessão de crédito ao setor.

Por que o produtor está chegando a essa situação?

Não existe uma única explicação.

A atividade rural trabalha com um intervalo longo entre o momento em que o dinheiro é gasto e aquele em que a receita entra no caixa. Uma safra pode exigir milhões em investimentos antes de qualquer retorno.

Quando entram nessa equação problemas climáticos, produtividade abaixo do esperado, aumento dos custos, queda ou oscilação dos preços e juros elevados, a conta pode deixar de fechar.

E uma dívida que deveria financiar a próxima produção pode acabar sendo utilizada para cobrir o rombo da anterior.

É nesse ponto que o crédito deixa de funcionar como instrumento de crescimento e passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência financeira.

O momento de renegociar é antes de a dívida explodir

Para a Aprosoja/MS, esperar o problema se agravar é justamente o caminho que o produtor deveria evitar.

Quem ainda está adimplente deve buscar planejamento financeiro e condições de crédito que reduzam o custo das operações. Para quem já entrou em situação problemática, a recomendação é procurar o credor e avaliar alternativas de prorrogação ou renegociação.

“Quanto antes o produtor buscar renegociar, menor tende a ser o custo final da dívida. E do lado público, é fundamental que haja políticas de orientação ao produtor para evitar que novos casos cheguem a essa situação”, afirma Linneu Borges Filho.

A questão é que o relógio financeiro do campo não para.

A próxima safra vai exigir dinheiro novamente. Sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, máquinas, mão de obra e todos os demais custos continuam chegando — independentemente de a dívida anterior ter sido resolvida.

Por isso, os 27,6% registrados em Mato Grosso do Sul não são apenas uma fotografia da situação atual.

São um aviso sobre o que pode acontecer com o crédito da próxima safra se uma parcela cada vez maior dos produtores chegar a ela carregando dívidas antigas.

O campo ainda produz. O crédito ainda existe. Mas os números mostram que uma parte cada vez maior desse crédito está chegando com uma conta pendurada.