Campo enfrenta crise financeira enquanto governo não consegue transformar medidas em solução

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Enquanto o produtor rural enfrenta uma combinação de dificuldades financeiras, acesso restrito ao crédito e aumento dos riscos da atividade, as respostas do governo federal ainda esbarram em burocracia, exigências e lentidão. No campo, a sensação é de que as medidas anunciadas não chegam na velocidade necessária para quem precisa continuar produzindo.

O problema aparece tanto na renegociação das dívidas quanto na proteção contra novos riscos. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) cobra mudanças na implementação da Medida Provisória nº 1.376/2026, criada para permitir a renegociação das dívidas rurais. Segundo a entidade, produtores, especialmente os menores e mais vulneráveis, encontram obstáculos como exigência de laudos agronômicos, custos adicionais, revisão de garantias e necessidade de entrada financeira — justamente para quem já enfrenta dificuldade de caixa.

O cenário se agrava porque o produtor não enfrenta apenas o passivo acumulado. A própria capacidade de prevenção de novos prejuízos perdeu força. Dados apresentados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que a área coberta pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural despencou de 14 milhões de hectares em 2021 para apenas 3,5 milhões em 2025.

É uma redução que ajuda a dimensionar o tamanho do problema: justamente quando a atividade rural está cada vez mais exposta a riscos climáticos e financeiros, um dos principais instrumentos de proteção chega a uma parcela muito menor do campo.

A CNA defende o fortalecimento do seguro rural e a criação de incentivos financeiros para produtores que adotam práticas capazes de reduzir riscos. A entidade também sustenta que produtores que investem em sistemas de mitigação deveriam encontrar melhores condições de crédito.
Do outro lado, a FPA tenta destravar a renegociação das dívidas. Entre as propostas estão a simplificação da comprovação de perdas, a possibilidade de utilização de laudos coletivos para pequenos produtores, a dispensa de novos laudos em determinadas operações já renegociadas e a flexibilização da exigência de entrada quando houver incapacidade de pagamento.

O contraste é evidente: enquanto o produtor precisa de previsibilidade para plantar, criar, investir e honrar seus compromissos, entidades representativas precisam pressionar por ajustes para fazer funcionar instrumentos que deveriam chegar ao campo de forma simples e efetiva.

A crise, portanto, não está apenas no tamanho das dívidas. Está também na dificuldade de acessar crédito, proteger a produção e reorganizar o passivo antes que ele comprometa a próxima safra. A própria FPA alerta que os obstáculos da renegociação podem prejudicar o acesso ao crédito rural futuro.

Enquanto o governo federal é cobrado por efetividade, simplificação e velocidade, CNA e FPA seguem ocupando o espaço de articulação e pressão política para tentar transformar propostas em mecanismos que efetivamente funcionem para quem está no campo.

Produzir exige planejamento. Para o produtor rural, porém, planejamento perde força quando crédito, seguro e renegociação chegam tarde — ou chegam acompanhados de tantas exigências que acabam ficando fora do alcance de quem mais precisa.

Por: Amanda Coelho