
Com o El Niño em curso e a previsão de intensificação do fenômeno nos próximos meses, o clima passa a ser mais um fator a ser considerado nas decisões financeiras dos produtores para a safra 2026/27. Alterações na produtividade, aumento de custos e mudanças no calendário de produção ou comercialização podem afetar o fluxo de receitas e o cumprimento dos compromissos ao longo do ciclo.
No início de setembro, o Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e outros órgãos federais, apontou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte no trimestre entre setembro e novembro.
A Organização Meteorológica Mundial (WMO) também informou neste mês que o fenômeno está estabelecido e deve ganhar intensidade nos próximos meses, com probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027.
O cenário coloca a gestão de risco climático no centro do planejamento da próxima safra. A questão não é prever exatamente o comportamento do clima em cada propriedade, mas avaliar antecipadamente como diferentes condições podem interferir na produção e, consequentemente, no caixa.
Para Victor Lemos Cardoso, head comercial da Agree, fintech especializada em soluções financeiras para o agronegócio, o produtor pode utilizar diferentes cenários para identificar possíveis pontos de pressão financeira antes que eles apareçam.
“Não é possível saber exatamente qual será o impacto do clima em cada propriedade, mas podemos trabalhar com cenários. O produtor pode projetar o que acontece com o caixa se colher menos, tiver algum aumento de custo ou precisar esperar mais para comercializar. Isso ajuda a enxergar com antecedência onde podem aparecer dificuldades”, explica Cardoso.
Cenários ajudam a antecipar pressão sobre o caixa
Uma das alternativas é projetar diferentes resultados para a safra e verificar como cada situação afetaria o fluxo financeiro da propriedade. Uma produtividade abaixo da expectativa, por exemplo, pode reduzir a receita, enquanto eventuais aumentos nos custos elevam a necessidade de recursos para manter a operação.
A análise também pode considerar mudanças no momento da comercialização. Se a entrada de receita ocorrer mais tarde do que o previsto, o produtor precisa avaliar se terá recursos suficientes para atravessar o período até o recebimento.
Nesse planejamento, o calendário de vencimento das dívidas também ganha importância. Parcelas concentradas em períodos de menor entrada de recursos podem aumentar a pressão sobre o caixa e exigem atenção antecipada.
“Se uma parcela vence em um período em que a receita pode atrasar ou ser menor do que o previsto, é importante enxergar isso antes. Quanto mais cedo o produtor identifica essa possibilidade, mais tempo tem para avaliar o caixa e organizar suas decisões”, acrescenta Cardoso.
Gestão de risco climático ganha espaço
A preparação para diferentes condições de clima também passa pelas ferramentas de gestão de risco disponíveis para cada atividade. O seguro rural, por exemplo, pode ser considerado conforme a cultura, a região e as coberturas disponíveis.
Outro ponto é dimensionar os recursos necessários para manter a produção durante todo o ciclo, incluindo despesas que podem surgir diante de alterações no calendário ou de condições climáticas diferentes das previstas inicialmente.
Em setembro, a Embrapa também apresentou 163 medidas voltadas à gestão de riscos climáticos na agropecuária. Em outra publicação, a instituição reuniu orientações sobre o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e de práticas conservacionistas diante de um cenário de El Niño forte.
O planejamento com diferentes cenários, segundo Cardoso, não significa considerar que necessariamente haverá perdas. A proposta é avaliar previamente como a propriedade responderia a diferentes condições de produção e mercado.
“O planejamento serve justamente para não depender de um único resultado. Quando o produtor conhece seus custos, sabe quando as dívidas vencem e quanto precisa para atravessar o ciclo, fica em uma posição melhor para decidir se as condições mudarem ao longo da safra”, finaliza.
Por: Redação Caderno Agro
