Mercado financeiro acompanha cenário eleitoral em semana decisiva para juros, inflação e câmbio

Compartilhe:

A política volta a ocupar espaço central na formação dos preços dos ativos brasileiros nesta semana, em um ambiente que combina novas pesquisas eleitorais, expectativas para os juros, inflação ainda acima do centro da meta e uma agenda econômica carregada. O Ibovespa abriu a segunda-feira (21) praticamente estável, mas ganhou força ao longo da manhã e chegou a subir 0,90%, aos 186.897 pontos.

O movimento ocorre em um mercado que também acompanha o comportamento das commodities e os sinais vindos do exterior. O petróleo futuro recuava cerca de 3%, enquanto bolsas dos Estados Unidos e da Europa operavam em alta. O dólar, por sua vez, era negociado em queda no mercado à vista.

No Brasil, entretanto, a variável política ganhou peso adicional com a divulgação de novas pesquisas eleitorais. O levantamento BTG/Nexus apontou, em uma eventual disputa de segundo turno, 46% das intenções de voto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 45% para o senador Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, os números eram de 47% e 46%, respectivamente.

O mercado também acompanha outros cenários testados pela pesquisa. Lula aparece numericamente à frente de Augusto Cury, por 44% a 43%, enquanto há empate de 45% a 45% com Ronaldo Caiado, segundo os números divulgados no levantamento.

A divulgação de pesquisas em sequência pode aumentar a oscilação dos ativos, principalmente porque investidores tentam incorporar ao preço dos contratos uma possível mudança na percepção sobre o ambiente econômico do próximo governo. A avaliação é de Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, citado no material, para quem cada nova pesquisa pode provocar volatilidade no Ibovespa, no dólar e na curva de juros.

Esse movimento, porém, ocorre paralelamente a fatores econômicos concretos. O boletim Focus divulgado nesta segunda-feira mostrou que a projeção do mercado para o IPCA de 2026 subiu de 4,90% para 4,92%, acima do teto da meta de inflação. Para 2027, a previsão permaneceu em 4,30%; para 2028, em 3,80%; e para 2029, em 3,50%.

Ao mesmo tempo, houve redução na estimativa para a Selic no fim de 2026, de 13,75% para 13,50%. A mudança ocorre depois de o Banco Central, em sua reunião mais recente, ter deixado aberta a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes.

A combinação entre inflação projetada, juros e cenário eleitoral é especialmente relevante para o mercado de renda fixa e para o câmbio. Expectativas sobre a condução da política econômica, fiscal e monetária podem alterar a percepção de risco dos investidores e, consequentemente, os preços dos ativos.

A semana ainda reserva uma série de indicadores capazes de influenciar essas expectativas. Entre eles estão a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), o Relatório de Política Monetária, os dados de arrecadação federal de agosto, o Boletim Macrofiscal e o IPCA-15 de setembro, previsto para sexta-feira.

No exterior, a agenda política também interfere diretamente nas perspectivas econômicas. A 81ª Assembleia Geral da ONU reúne líderes mundiais nesta semana, com discursos previstos dos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil.

As relações entre Washington e Pequim estão entre os pontos de maior atenção dos investidores. Também é esperado um encontro entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, com discussões envolvendo comércio, tarifas, terras raras e inteligência artificial.

Na segunda-feira, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que existe possibilidade de novos encontros entre as lideranças para discutir inteligência artificial. Segundo ele, os dois países também trataram de tarifas, sem detalhamento dos termos.

O ambiente externo ajuda a explicar parte do movimento das bolsas e das commodities nesta segunda-feira. O petróleo recua diante do alívio nas preocupações sobre possíveis interrupções no fluxo de oleodutos da Arábia Saudita. A queda da commodity, em tese, reduz parte da pressão inflacionária global.

O movimento, contudo, é observado com cautela pelo mercado. Segundo Marco Saravalle, parte do oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, importante alternativa para o transporte de petróleo sem passagem pelo Estreito de Ormuz, ainda apresenta limitações.

O minério de ferro, outra commodity relevante para a economia brasileira, registrou alta de 0,14% em Dalian, na China, onde o banco central manteve as principais taxas de juros inalteradas.

Na sexta-feira, o Ibovespa havia encerrado o pregão em queda de 0,41%, aos 185.229 pontos. Na semana, o índice acumulou baixa de 1,06%, interrompendo uma sequência de quatro semanas consecutivas de valorização.

Agora, além dos indicadores econômicos, o mercado entra em uma fase de maior sensibilidade aos sinais políticos. A sucessão presidencial começa a dividir espaço com inflação, juros, contas públicas e cenário internacional na formação das expectativas para a economia brasileira.

A questão central para os investidores, neste momento, não está apenas nos números atuais, mas na leitura que o mercado fará sobre os próximos passos da política econômica e sobre as diferentes possibilidades colocadas pelo cenário eleitoral. Até sexta-feira, novas pesquisas, indicadores de preços e manifestações de autoridades monetárias devem alimentar essa avaliação.

Por: Adriana Cândido de Castro