De região esquecida a potência agroindustrial: Mato Grosso do Sul completa 49 anos de transformação

Compartilhe:

Em uma região extensa, distante dos principais centros de decisão política e com uma economia historicamente concentrada na pecuária extensiva, o desenvolvimento nem sempre avançava no mesmo ritmo das potencialidades do território. O sul do antigo Mato Grosso reunia terras férteis, rebanhos, produção agrícola e uma posição estratégica para o comércio, mas convivia com dificuldades de infraestrutura, longas distâncias e a percepção de que suas demandas recebiam atenção insuficiente do governo estadual, sediado em Cuiabá.

Foi nesse cenário que ganhou força a reivindicação por autonomia administrativa. A separação não surgiu de um único episódio, mas de décadas de disputas políticas, interesses regionais e da busca por condições para organizar o próprio desenvolvimento. Em 11 de outubro de 1977, a assinatura da Lei Complementar nº 31, pelo então presidente Ernesto Geisel, oficializou a criação de Mato Grosso do Sul. Em 1º de janeiro de 1979, quando Harry Amorim Costa assumiu como primeiro governador, nomeado pelo governo federal.

A trajetória, porém, não se resume ao crescimento econômico. A história sul-mato-grossense também é marcada pela consolidação de uma identidade regional, pela urbanização, pela diversidade cultural e pela presença de dois patrimônios que convivem de maneira singular: a força produtiva do campo e a riqueza ambiental de biomas como o Pantanal e o Cerrado.

Quase meio século depois, o Estado chega aos 49 anos com uma economia muito diferente daquela que marcou seu nascimento: tornou-se uma das principais forças agroindustriais do país, atraiu grandes investimentos industriais, ampliou sua presença no mercado internacional e transformou cidades e regiões inteiras.

Assinatura que criava, em 11 de outubro de 1977, o Estado de Mato Grosos do Sul

De uma economia pecuária à diversificação produtiva

Em 1977, a pecuária extensiva predominava na economia regional, enquanto a agricultura ainda tinha menor escala e integração industrial.

Nas décadas seguintes, pesquisa agropecuária, mecanização, correção dos solos e melhorias na infraestrutura transformaram a produção rural. A soja e o milho ganharam espaço, e a pecuária incorporou avanços em genética, nutrição e manejo, elevando a produtividade e a eficiência.

A área agrícola cultivada em Mato Grosso do Sul passou de aproximadamente 1,8 milhão de hectares há 15 anos para cerca de 4,6 milhões. Na safra atual, a soja ocupa cerca de 4,5 milhões de hectares, com produção estimada próxima de 14 milhões de toneladas, consolidando a agricultura entre os pilares da economia estadual.

A pecuária bovina segue estratégica, integrada à indústria frigorífica e à exportação. Ao mesmo tempo, a expansão da avicultura, da suinocultura e das usinas de etanol e açúcar diversificou a produção e ampliou o processamento industrial de matérias-primas agrícolas.

Hoje, o agronegócio movimenta uma ampla cadeia de atividades, que inclui transportadoras, cooperativas, revendas, armazéns, frigoríficos e empresas de tecnologia, com reflexos no comércio, na construção civil e no mercado de trabalho dos municípios.

A indústria muda o mapa econômico

Mato Grosso do Sul ampliou a industrialização da produção agropecuária e florestal, reduzindo a dependência da venda de matérias-primas e agregando valor dentro do próprio Estado. Esse movimento ganhou força com a expansão da celulose, do setor sucroenergético e do processamento de grãos.

Na região leste, a expansão das florestas de eucalipto e a instalação de grandes fábricas consolidaram Três Lagoas como polo industrial e ampliaram a importância de Ribas do Rio Pardo. A cadeia da celulose também movimenta transporte, energia, manutenção e serviços especializados, além de elevar a demanda por moradia e infraestrutura urbana.

A diversificação industrial alcança outras matérias-primas. Usinas de açúcar e etanol, inclusive de milho, ampliam o aproveitamento da produção agrícola e a oferta de biocombustíveis. Já as esmagadoras de soja transformam os grãos em farelo e óleo, insumos destinados à alimentação animal, à indústria de alimentos e à produção de energia.

Esse avanço exige planejamento para transformar os investimentos em desenvolvimento duradouro. O Governo de Mato Grosso do Sul atua na ampliação e recuperação da malha rodoviária, na articulação de projetos para reimplantar a ferrovia e no fortalecimento da infraestrutura urbana, buscando acompanhar o crescimento econômico e populacional dos municípios.

Juntamente, o Senar/MS e a Famasul contribuem para preparar a mão de obra por meio de cursos, capacitações e palestras voltados às novas demandas do agronegócio. A integração entre infraestrutura, planejamento urbano e qualificação profissional é fundamental para sustentar a expansão produtiva e ampliar seus benefícios para a economia estadual.

A maior fábrica de celulose em atuação no país, instalada em Ribas do Rio Pardo, é um dos maiores exemplos da industrialização do Estado

Crescimento econômico acima da média nacional

Ao completar 49 anos, Mato Grosso do Sul apresenta uma economia mais complexa e integrada ao mercado internacional. O crescimento das atividades agropecuárias, a expansão industrial e o aumento das exportações fortaleceram a participação do Estado na economia brasileira.

Séries históricas de atividade econômica indicam que Mato Grosso do Sul avançou em ritmo superior ao nacional em períodos importantes das últimas décadas. A comparação precisa considerar o intervalo analisado, os efeitos da inflação e a metodologia utilizada, mas a transformação estrutural é evidente: o Estado ampliou sua base produtiva, atraiu investimentos e consolidou novos polos econômicos.

O comércio exterior é um dos indicadores dessa mudança. A celulose, a soja, o milho, a carne bovina e outros produtos agroindustriais conectam a economia estadual a compradores de diferentes continentes. A China ocupa posição de destaque entre os destinos das exportações, reforçando a importância do mercado asiático para o desempenho das cadeias produtivas locais.

Dados compilados para 2026 apontam um volume bilionário de vendas externas e superávit comercial expressivo. Mais do que o valor exportado em um único ano, a mudança central está na capacidade de produzir em escala, atender a exigências internacionais e participar de cadeias globais de abastecimento.

Quase três milhões de habitantes e uma nova realidade urbana

Desde a criação do Estado, Mato Grosso do Sul passou por uma expressiva transformação demográfica e urbana. A população, que era de aproximadamente 1,4 milhão de habitantes no fim da década de 1970, aproxima-se de 2,95 milhões em 2026, acompanhando a expansão da economia e a ampliação das oportunidades de trabalho e negócios.

Esse crescimento fortaleceu as cidades, ampliou o mercado consumidor e impulsionou a oferta de serviços, educação, saúde e atividades empresariais. Campo Grande consolidou-se como centro de referência em serviços especializados, universidades e negócios. Dourados ganhou relevância regional no comércio, na saúde, na educação e no agronegócio, enquanto Três Lagoas alcançou projeção nacional com a indústria de celulose.

Em diferentes regiões, municípios como Ponta Porã, Corumbá, Naviraí, Nova Andradina e Chapadão do Sul também desempenham papel importante na economia e na oferta de serviços à população. Essa distribuição de polos regionais contribui para dinamizar o interior e ampliar as oportunidades para quem vive fora da capital.

Pantanal, Cerrado e o valor da natureza

A identidade sul-mato-grossense também é inseparável de sua riqueza ambiental. O Pantanal, uma das maiores áreas úmidas continentais do planeta, representa um patrimônio ecológico de importância internacional e um dos principais símbolos do Estado. Sua biodiversidade, os ciclos das águas e a paisagem que se transforma ao longo do ano sustentam atividades econômicas e culturais que vão muito além da pecuária.

Corumbá, Miranda, Aquidauana e outras localidades pantaneiras reúnem tradições, culinária, pesca, turismo de natureza e experiências ligadas à vida rural. A observação de animais silvestres, a pesca esportiva e o turismo contemplativo atraem visitantes brasileiros e estrangeiros, movimentando hotéis, pousadas, guias, restaurantes e prestadores de serviços.

O Cerrado também ocupa lugar central nessa história. Suas paisagens, nascentes, rios e formações vegetais compõem a base natural de regiões agrícolas e turísticas. Bonito e a Serra da Bodoquena tornaram-se referências nacionais em turismo de natureza, com rios de águas transparentes, grutas, cachoeiras e atividades de ecoturismo.

A coexistência entre produção e conservação está entre os grandes desafios do Estado. O avanço econômico depende de recursos naturais, água, solo e estabilidade climática, enquanto o Pantanal enfrenta ameaças relacionadas a secas severas, incêndios e alterações no regime das chuvas. A prevenção de queimadas, a proteção de nascentes, o uso eficiente da água e a adoção de práticas produtivas sustentáveis são fundamentais para preservar esse patrimônio.

A proposta de tornar Mato Grosso do Sul um território de baixa emissão de carbono reforça a possibilidade de combinar crescimento econômico, inovação e conservação ambiental. Para isso, metas precisam ser acompanhadas por resultados mensuráveis, políticas consistentes e participação de produtores, empresas, pesquisadores e comunidades locais.

Um Estado que ainda está em construção

Aos 49 anos, Mato Grosso do Sul reúne características que ajudam a explicar sua trajetória: uma economia agropecuária competitiva, uma indústria em expansão, cidades que cresceram com a diversificação produtiva e um patrimônio natural de valor mundial. A distância entre a realidade de 1977 e a de 2026 mostra o alcance das mudanças realizadas em menos de cinco décadas.

A antiga reivindicação por autonomia foi acompanhada pela construção de uma estrutura econômica capaz de atrair investimentos e participar de mercados internacionais. O campo ganhou tecnologia, a indústria ampliou sua presença, a população cresceu e a rede urbana passou a oferecer serviços que não existiam na mesma escala no momento da criação do Estado.

A história de Mato Grosso do Sul não é apenas a da separação de um território. É a de uma região que buscou maior controle sobre seu destino e, desde então, transformou sua economia e sua organização social. Aos 49 anos, o Estado tem como principal desafio fazer com que a riqueza produzida no campo, nas fábricas e no turismo se traduza em melhores condições de vida para quem vive em seus 79 municípios.

O próximo capítulo dependerá da capacidade de manter a competitividade, diversificar mercados, agregar valor à produção e conciliar desenvolvimento com responsabilidade ambiental. A potência econômica nacional já está construída e é sul-mato-grossense.

Por: Elaine Oliveira