
A produção brasileira de algodão em pluma deve superar as estimativas iniciais na safra 2025/26, enquanto o mercado enfrenta negociações lentas, divergências entre compradores e vendedores e dificuldades logísticas para o escoamento da produção. Mesmo com a perspectiva de volumes elevados, a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) mantém a expectativa de recorde nas exportações no ciclo entre julho de 2026 e junho de 2027.
A Anea elevou em 93 mil toneladas, alta de 2,2%, a projeção de produção da safra 2025/26, para 4,271 milhões de toneladas de pluma. Segundo a entidade, a revisão reflete produtividades acima das expectativas iniciais, confirmadas durante a colheita.
Apesar da oferta maior, o mercado interno segue com baixa liquidez. Pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) apontam que parte dos agentes concentra esforços no cumprimento de contratos a termo, enquanto as divergências nas negociações limitam o fechamento de novos negócios. As incertezas sobre o cenário político também contribuem para a cautela de compradores e vendedores.
A maior disponibilidade de pluma e a postura retraída dos compradores pressionam as cotações. Em contrapartida, a resistência dos vendedores em aceitar preços menores e a procura por lotes com características específicas de qualidade sustentam leves altas, ainda insuficientes para recuperar perdas anteriores.
Exportações devem bater recorde
Para o comércio exterior, a expectativa continua positiva. Mesmo após reduzir em 26 mil toneladas a projeção de embarques no segundo semestre de 2026, de 1,604 milhão para 1,578 milhão de toneladas, a Anea estima exportações de 3,392 milhões de toneladas no ano. A revisão considera o atraso na colheita e as dificuldades logísticas nos portos, que afetam o ritmo de embarque.
No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou 1,814 milhão de toneladas de algodão. Para o período entre julho de 2026 e junho de 2027, a associação projeta um novo recorde, sustentado pela disponibilidade elevada da fibra brasileira.
Para 2027, a estimativa é de exportações de 3,419 milhões de toneladas, sendo 1,8 milhão no primeiro semestre e 1,619 milhão no segundo. A projeção para os embarques entre julho e dezembro de 2027 foi ampliada em 8 mil toneladas em relação à estimativa anterior.
Estoques devem aumentar
A perspectiva de produção elevada, combinada ao ritmo dos embarques, também amplia as projeções de estoques. A Anea revisou de 2,914 milhões para 3,038 milhões de toneladas a estimativa de estoques de passagem em dezembro de 2026, acima das 2,899 milhões de toneladas registradas em dezembro de 2025.
Para dezembro de 2027, a projeção passou de 2,780 milhões para 3,149 milhões de toneladas. O consumo doméstico, por sua vez, foi mantido em 745 mil toneladas em 2026 e 753 mil toneladas em 2027.
A associação também elevou a previsão de produção da safra 2026/27, de 4,029 milhões para 4,267 milhões de toneladas, avanço de 5,9%. A estimativa considera a janela favorável de plantio da soja e as indicações dos produtores sobre o próximo ciclo. A entidade, contudo, acompanha os riscos climáticos, especialmente a possibilidade de um episódio intenso de El Niño.
Com duas safras consecutivas projetadas acima de 4,2 milhões de toneladas, o Brasil deverá manter uma oferta expressiva de algodão para o mercado internacional. O desafio, entretanto, será conciliar esse volume com a demanda, o ritmo das negociações e a capacidade logística de escoamento, fatores que podem influenciar a formação dos preços e o comportamento do mercado nos próximos meses.
Elaine Oliveira
