
O agronegócio brasileiro chega a um novo ciclo político diante de um cenário de contrastes. Enquanto o país amplia mercados internacionais, movimenta bilhões em exportações e fortalece sua posição no abastecimento mundial de alimentos, produtores rurais enfrentam juros elevados, custos crescentes, dificuldades financeiras e incertezas regulatórias. Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, para um quarto mandato, a pergunta que ganha força no campo é: o que esperar dos próximos anos?
O setor é um dos pilares da economia nacional, gera empregos, movimenta cadeias produtivas e contribui decisivamente para a balança comercial. Entretanto, os resultados positivos das exportações não garantem rentabilidade dentro das propriedades. Em diferentes regiões, produtores enfrentam dificuldades para honrar financiamentos, manter investimentos e preparar as próximas safras.
O desafio do governo federal será transformar os números expressivos anunciados em condições reais para quem produz. Um Plano Safra bilionário, recordes comerciais e novos mercados são importantes, mas perdem força quando o custo do crédito e as despesas operacionais comprometem a continuidade da atividade.
Plano Safra recorde, mas crédito caro
Os R$ 525,1 bilhões indicados no levantamento para o Plano Safra representam um volume expressivo de recursos. Entretanto, o montante anunciado não significa que todos os produtores tenham acesso ao financiamento em condições viáveis.
Juros elevados encarecem o custeio, a compra de insumos e os investimentos em máquinas e equipamentos. Também dificultam a reorganização financeira de quem já acumula dívidas de safras anteriores. Quando o financiamento fica caro e a receita não acompanha os custos, a margem diminui e o risco de inadimplência aumenta.
As linhas de renegociação são importantes, sobretudo para produtores atingidos por eventos climáticos extremos. Contudo, renegociar não significa necessariamente resolver o problema. Sem condições compatíveis com a capacidade de pagamento, a dívida pode apenas ser transferida para os ciclos seguintes.
Endividamento ameaça a continuidade da produção
O crescimento das dificuldades financeiras no campo acende um alerta. Levantamento anteriormente divulgado sobre o primeiro semestre de 2026 apontou 1.304 empresas do agronegócio em recuperação judicial, alta de 71,4% na comparação anual. O dado reforça a dimensão do problema, embora a recuperação judicial não signifique necessariamente falência e as causas envolvam diferentes fatores econômicos.
Juros, custos operacionais, oscilações de preços e perdas climáticas podem comprometer a renda de produtores que continuam obrigados a pagar financiamentos e manter suas estruturas produtivas.
O governo precisa avançar em políticas que combinem crédito acessível, seguro rural e mecanismos eficazes de gestão de risco. Sem isso, dificuldades financeiras podem comprometer investimentos, empregos e a continuidade de propriedades produtivas.

Reforma tributária e mudanças trabalhistas aumentam a preocupação
A transição para o novo sistema tributário também exige atenção. Embora a reforma preveja tratamento diferenciado para atividades agropecuárias e alíquota zero para determinados alimentos da cesta básica, os efeitos sobre os custos dependem das regras aplicáveis a cada operação.
A preocupação do setor envolve a tributação de insumos, defensivos, máquinas e serviços. Eventuais aumentos de custos, quando não compensados pela receita, podem reduzir ainda mais a rentabilidade. Por isso, o produtor precisa de regras claras, previsibilidade e transparência sobre os impactos da reforma.
Outro ponto é a discussão sobre o fim da escala 6 por 1. Dependendo das regras aprovadas e de sua aplicação, mudanças na jornada podem exigir novas contratações e reorganização de turnos, especialmente em atividades que funcionam continuamente, como a produção leiteira e o processamento de alimentos.
Melhorias nas condições de trabalho podem ser conciliadas com a produtividade, mas precisam considerar as particularidades do campo e os impactos econômicos sobre diferentes atividades.
Segurança jurídica é condição para produzir
Conflitos fundiários, invasões de propriedades e incertezas regulatórias também preocupam quem investe no campo. Cabe ao poder público garantir o cumprimento da lei, proteger os direitos de propriedade e assegurar procedimentos administrativos previsíveis.
As exigências ambientais precisam ser claras, com critérios objetivos e prazos compatíveis com a realidade produtiva. A preservação ambiental e a produção agropecuária não são objetivos incompatíveis, mas a burocracia excessiva e a insegurança jurídica podem elevar custos e dificultar investimentos regulares.
O produtor precisa saber quais regras deve cumprir e ter condições de planejar suas atividades sem mudanças imprevisíveis que comprometam a viabilidade econômica da propriedade.
Congresso terá papel decisivo na defesa do agro
Diante das preocupações com crédito, tributação e segurança jurídica, a articulação política do setor ganha relevância. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) tem atuado em pautas relacionadas à produção rural e exerce influência nas discussões legislativas.
Levantamento publicado pelo JOTA, intitulado “Agronegócio soma 19 vitórias e apenas uma derrota no Congresso em quatro anos”, destacou a força dessa articulação. A atuação parlamentar pode funcionar como contrapeso a propostas do Executivo e abrir espaço para medidas de interesse dos produtores.
Em Mato Grosso do Sul, a representação federal tem papel importante nesse debate. No Senado, Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL, são nomes a acompanhar nas pautas do setor. Na Câmara dos Deputados, Rodolfo Nogueira tem ligação direta com a atividade rural, enquanto a atuação dos demais parlamentares deve ser avaliada por seus votos, projetos e posicionamentos concretos.
O Congresso terá a responsabilidade de fiscalizar as políticas federais e construir alternativas para os problemas estruturais do campo. Mais do que barrar medidas consideradas prejudiciais, é necessário avançar em soluções para o endividamento, o seguro rural, o crédito e a competitividade brasileira.

O que esperar do novo mandato?
Com a reeleição de Lula, o desafio será demonstrar se o governo conseguirá responder às dificuldades enfrentadas pelo produtor rural. O Plano Safra precisa oferecer crédito em condições viáveis; as renegociações devem permitir a recuperação financeira; a reforma tributária precisa garantir previsibilidade; e as políticas fundiárias e ambientais devem assegurar segurança jurídica.
Se juros elevados, custos crescentes e dificuldades de acesso ao crédito persistirem sem respostas efetivas, o risco é aprofundar o endividamento, restringir investimentos e comprometer a continuidade de propriedades produtivas. Os efeitos podem alcançar fornecedores, cooperativas, indústrias, empregos e o abastecimento de alimentos.
O agronegócio brasileiro já demonstrou capacidade de ampliar mercados, incorporar tecnologia e aumentar a produção. O que está em discussão agora é se o ambiente econômico e institucional permitirá que essa força continue se convertendo em renda e desenvolvimento.
O produtor rural não precisa apenas de anúncios recordes. Precisa de políticas que funcionem na prática, condições para financiar a produção e segurança para investir. A responsabilidade do governo federal é criar esse ambiente; a do Congresso é fiscalizar, legislar e defender soluções sustentáveis.
O Brasil depende da força do agronegócio para movimentar sua economia, sustentar exportações e alimentar mercados. Ignorar as dificuldades de quem está na origem dessa cadeia significa colocar em risco uma parte essencial do desenvolvimento nacional.
Elaine Oliveira
