Leite enfrenta pressão de importações, custos e consumo mais fraco em 2026, aponta Embrapa

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O mercado brasileiro de leite atravessa um cenário de maior pressão em 2026, marcado pelo aumento da oferta internacional, crescimento das importações, custos de produção em alta e sinais de desaceleração do consumo interno. A avaliação consta em análise divulgada pelo Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa Gado de Leite.

Segundo a entidade, a produção mundial segue em expansão desde meados de 2024, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, o que contribuiu para uma redução superior a 25% nos preços internacionais dos lácteos em relação ao pico registrado em 2025. Em 2026, as cotações apresentam comportamento mais estável, mas em níveis inferiores aos observados no ano passado.

A situação também é influenciada pelos principais fornecedores de lácteos ao Brasil. Argentina e Uruguai ampliaram sua produção e vêm ofertando produtos a preços mais competitivos. No caso argentino, a recuperação após as fortes quedas registradas entre 2023 e o início de 2024 levou o setor a crescer mais de 10% ao ano, conforme dados citados pelo CILeite.

Importações avançam e preocupam setor nacional

Com o dólar próximo ou abaixo de R$ 5,00, os produtos importados ganharam ainda mais competitividade no mercado brasileiro. Dados da Embrapa mostram que as importações de lácteos cresceram 6,43% entre janeiro e abril de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025, alcançando quase 800 milhões de litros equivalentes.

O avanço das compras externas ocorre em um momento em que a produção nacional também apresenta bom desempenho. A captação de leite registrou recorde no primeiro trimestre deste ano, ampliando a oferta interna e aumentando a pressão sobre os preços pagos aos produtores.

O preço real do leite ao produtor, descontada a inflação dos custos de produção medida pelo ICPLeite/Embrapa, encerrou março em R$ 2,39 por litro, com perspectiva de recuo nos meses seguintes. O mercado spot, utilizado como referência para negociações entre indústrias, também apresentou sucessivas quedas recentes.

Custos continuam em alta

Apesar da pressão sobre os preços, os custos de produção seguem avançando. O ICPLeite/Embrapa acumulou alta de 3% apenas nos quatro primeiros meses de 2026, percentual equivalente a todo o aumento registrado ao longo de 2025.

Entre os fatores que elevam os custos está a volatilidade do mercado internacional de energia. Conforme análise do CILeite, o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã provocou forte valorização do petróleo ao longo do ano, impactando diretamente o preço do diesel e elevando os gastos com transporte, fertilizantes e embalagens plásticas.

Além disso, as projeções climáticas para o segundo semestre indicam a possibilidade de um evento de El Niño de forte intensidade. A expectativa é de estiagem em parte do Brasil Central e excesso de chuvas na região Sul, cenário que pode comprometer a produção de silagem e a formação de pastagens, aumentando os custos de alimentação do rebanho.

Consumo sob pressão

No mercado interno, a preocupação se volta para o comportamento do consumidor. O leite longa vida registrou aumento médio de 13,66% nas prateleiras em abril, percentual muito superior à inflação oficial do período, que ficou em 0,67%, segundo dados citados pela Embrapa.

Com juros elevados, crescimento econômico mais moderado e alto nível de endividamento das famílias, o setor avalia que parte dos consumidores poderá reduzir o consumo de lácteos ou migrar para produtos mais baratos.

As projeções econômicas apontam crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 1,7% e 2,0% em 2026, enquanto a taxa Selic deve permanecer próxima de 13% ao ano. A dívida pública brasileira, que atingiu 80,1% do PIB em março, também segue em trajetória de alta.

Perspectivas

De acordo com a análise do CILeite/Embrapa Gado de Leite, os próximos meses serão decisivos para o setor. A evolução do câmbio, o ritmo das importações, o comportamento do consumo doméstico, as condições climáticas e os desdobramentos das tensões geopolíticas internacionais devem continuar influenciando diretamente a rentabilidade da cadeia leiteira brasileira.

Para os produtores, o desafio será equilibrar custos crescentes em um ambiente de maior concorrência externa e possível enfraquecimento da demanda, fatores que tendem a limitar a recuperação dos preços pagos no campo.

Por: Amanda Coelho
Com informações do Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa Gado de Leite.